“Reformatação da globalização” torna ainda mais difícil a vida dos economistas

Que o mundo é outro no pós-pandemia, não há dúvida, que as previsões econômicas ficaram muito mais difíceis de serem interpretadas também. Na média, por questões inerentes a cenários, os economistas mais erraram do que acertaram na história. Porém, de quatro anos para cá, com a nova dinâmica econômica ao redor do globo, fazer cálculos passou a ser uma verdadeira epopeia.
Isso porque, o tabuleiro geopolítico mudou. Antes, o maior mercado vendedor era a China, mas com a pandemia o cenário passou a não ser mais o mesmo, já que os países perceberam que não poderiam ficar dependentes de uma única indústria, mas de várias.
Além disso, as guerras recentes, como entre Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio, mostraram aos países a importância de produzir em casa, ou mais perto de casa. Ou seja, a cadeia de supply chain ficou mais difícil, o que acabou colaborando e muito para o aumento da inflação e dos preços no mundo.
Este novo cenário mundial fez com que a vida dos economistas ficasse ainda mais difícil. Atualmente, os modelos econômicos estão calibrados para pressões inflacionárias advindas da demanda, mas existem as pressões de custos e ofertas que também impactam. Se as deficiências já eram evidentes, agora, com a “reformatação da globalização”, que mudou a dinâmica no mundo, ficou ainda pior.
Na avaliação de economistas de grandes academias do país, consultados pela Capital Aberto, a dificuldade de interpretar os cenários passou a ser mais intensa porque na pandemia houve uma quebra estrutural da mudança de padrão de comportamento e de consumo.
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Segundo o coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, Vladimir Maciel, os modelos usados são baseados em dados históricos, mas o problema é que os parâmetros mudaram e ainda não dá para refletir o que de fato está acontecendo. “Precisa de mais períodos à frente para incorporar essas novas mudanças”.
Maciel explica que a maioria dos dados refletidos é anterior à pandemia. Por exemplo, o padrão de consumo, que antes da pandemia era de lojas físicas, agora é de lojas virtuais. “Eu tenho uma série histórica de 20 anos de quem vai em loja física e apenas 4 anos pós-pandemia. Com isso, eu não tenho todas as informações suficientes para gerar os modelos”.
Para o coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, diante desta situação, os economistas vão precisar complementar a análise com informações qualitativas para conseguir balizar os cenários, como pesquisas de percepção, opinião e grupo focal que, embora não sejam precisas, ajudam a amenizar alguns pontos.

“Nessas horas, é necessário alguém mais antenado e permeável para balizar os cenários. É muito mais arte do que técnica”, ressalta Maciel.

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Do ponto de vista da indústria, o professor de Economia do Insper, Roberto Dumas, afirma que, com a nova realidade mundial, as empresas aprenderam a necessidade de diversificar, mesmo que não estejam comprando do lugar mais barato.
Só que isso tem um preço. “O empresário trabalha com riscos, mas não com incertezas. Por isso, eu preciso diversificar os negócios. Mas o mundo passa a ter uma inflação mais pegajosa, mais alta. Tudo isso para não ficar dependente de um único país”, comenta Dumas.
Na visão do professor, a “reformatação da globalização” pegou todo mundo no contrapé, mostrando que a taxa de juros e a inflação tendem a ficar mais altas no pós-pandemia. “Na China, o motor não é mais real estate, mas a indústria, querendo vender carros elétricos e placas solares. Os países ficaram mais protecionistas”.
Dumas ressalta ainda que não vamos voltar à época de ouro, quando se comprava sempre do mesmo cliente e mais barato. “Há um estrangulamento da logística, o que levou a preços mais altos. A reformatação da globalização não estava no radar”.
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Um exemplo claro, de acordo com o professor do Insper, é que as expectativas das companhias em relação aos estoques vão ter que mudar. Ou seja, se antes, a importação era de 20 dias, agora é de 36 dias. “As empresas vão ter que se adaptar. O tabuleiro geopolítico vai continuar assim por muito tempo”.
Um novo modelo?
Com o gap existente e a nova dinâmica econômica, passam a existir impactos na inflação oriundos de outras cadeias, como o aumento da gasolina no mercado internacional e o preço da energia elétrica com o acionamento da bandeira vermelha, por exemplo.
“O plano de saúde também impacta, que não tem a ver com a demanda, mas com a coisa de mercado. O problema é resolver isso, depois incorporar outros tipos de impactos. Não será o manejo da taxa de juros que vai resolver. Tirando a indexação, os outros tipos de efeitos não estão incorporados nos modelos”, conta o coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo da FGV, Nelson Marconi.
Atualmente, segundo Marconi, não existe nenhuma regra para incorporar os cenários nos modelos de forma estrutural. Pelo contrário, além da pandemia, os economistas cada vez mais terão que fazer incorporação de cenários como mudanças climáticas que alteram a produção de bens.
“Por exemplo, o evento no Rio Grande do Sul vai influenciar no preço do arroz? Em acontecendo, o modelo deve responder rapidamente para não ter uma defasagem tão grande”, explica Marconi.
Questionado sobre quando os modelos econômicos vão pegar essa nova dinâmica mundial pós-pandemia, o coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômicadisse que isso deve acontecer ao final desta década, uma vez que a cada a ano as incorporações vão melhorando.
“Os economistas estão olhando para o passado tentando antecipar o futuro. À medida que as técnicas avançam e o aumento do uso da inteligência artificial, o equipamento vai ficando melhor. Precisa entender que o economista faz futurologia, fomos treinados para explicar, mas prever é o calcanhar de Aquiles, o que fazemos é trabalhar com dados e estatísticas e trazer alguma coisa para o futuro”, analisa Maciel.
