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No crédito privado, debênture é a queridinha dos gestores  

Leandro Tavares

Alexandre Donini, gestor de renda fixa e crédito da Genial Investimentos
Alexandre Donini, gestor de renda fixa e crédito da Genial Investimentos

Com o mercado de equity a passos de tartaruga, ou praticamente fechado, em função dos juros altos ao redor do globo, o mercado de crédito privado tem se sobressaído nas operações de dívidas, principalmente as emissões de debêntures, tão tradicionais no mercado corporativo.

Essa captação forte tem trazido, obviamente, uma obrigação do gestor de comparar ativos. Conclusão, a debênture incentivada e a comum, vamos dizer, têm tido uma demanda muito grande dos investidores institucionais, que veem neste tipo de crédito uma solução tradicional, enquanto a pessoa física vê o incentivo no título após a mudança da regra na taxação de fundos exclusivos e na alteração de lastro na Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e na Letra de Crédito do Agronegócio (LCA).

No entanto, do ponto de vista de gestão, o mercado secundário de debêntures tem tido mais demanda que o primário. Gestores estão em busca de uma duration mais baixa e de spreads mais altos, não encontrados nas emissões primárias atuais. Essa questão, inclusive, fez com o que algumas emissões ficassem nas tesourarias, com os bancos não conseguindo colocar tudo no mercado, de acordo com especialistas consultados pela Capital Aberto.

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“Esses fatores têm pesado bastante para a demanda de debênture ter aumentado. Esse trimestre teve uma quebra de recorde, tanto na liquidez do secundário como nas emissões no primário. Eu acho que isso é fruto dessa conjuntura melhor para crédito, que tem hoje um ambiente saudável”, explica o gestor de renda fixa e crédito da Genial Investimentos, Alexandre Donini.

Segundo ele, os juros ao redor de 10% acaba sendo um atrativo para o mercado de crédito privado, já que ele não está bom para tomar risco e nem muito alto para o público de títulos públicos.

Para se ter uma ideia de como a debênture tem se destacado em relação a outros títulos, o volume emitido por este tipo de instrumento até maio deste ano, dado mais atualizado da Associação Brasileira das Entidades dos Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), aponta o valor de R$ 160,6 bilhões, enquanto os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), somam R$ 26,3 bilhões, R$ 17,7 bilhões e R$ 27,2 bilhões, respectivamente.


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“Acho que é um sweet spot para o crédito privado. A conjuntura boa tem ajudado muito o crédito. Além disso, as mudanças na pessoa física também trouxeram uma maior demanda para esse tipo de ativo. Com isso, você tem visto menos CRI e CRA no mercado. É natural que busquem mais debêntures entre os incentivados. Acho que esse, para mim, seria um resumão da história”, comenta Donini.

Na visão do sócio do TozziniFreire nas áreas de Direito Bancário e Mercado de Capitais, Marcus Fonseca, além dos fatores já elencados, tem a questão de as debêntures ser o instrumento mais tradicional do mercado e, por isso, os emissores recorrentes estão mais acostumados. “Os emissores recorrentes, que é quem tem mais acesso a esse tipo de papel hoje, fica mais fácil acessar o mercado de capitais por meio desse tipo de produto e obter financiamento.”

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Primário versus secundário

Por conta do “exagero” de precificação no mercado primário, no qual os prazos ficaram mais alongados e com spreads baixos, o investidor institucional, quem de fato movimenta o mercado de dívida, acabou ficando de fora dos books.

“Eu acho que os gestores têm procurado manter uma duration mais baixa, porque os spreads estão muito baixos. Na verdade, os spreads estão em linha histórica, mas não está valendo a pena, na nossa visão, alongar por um spread muito baixo”, conta o gestor da Genial Investimentos.

Donini explica ainda que, diante de um cenário mais apertado, algumas emissões ficaram nas tesourarias com os bancos não conseguindo colocar tudo a mercado. “Isso aconteceu também com as debêntures incentivadas, várias delas vieram muito longas, sem prêmio acima da NTB.”

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Com relação ao “exagero” no mercado primário, o gestor da Genial afirma que já está sendo corrigido. “Imagina você, na posição do banco, testando o mercado, tentando cada vez colocar mais longo e com menos taxa, até uma hora que o mercado não aceita e começa, de certa forma, a voltar um pouco.”

Por outro lado, osócio especialista em infraestrutura do Machado Meyer, Alberto Faro, diz que há um certo equilíbrio tanto no mercado secundário quanto no primário. Para o advogado, o que acontece é que em um período em que as emissões e as captações de dívida são feitas em projetos que têm um pouco mais de risco de construção ou de operação, o mercado secundário tende a ter papéis mais estáveis, um pouco mais livre de risco.  

“Talvez tenha notado uma procura, uma demanda maior no secundário porque é um setor que, geralmente, tem mais aversão a risco do setor de infraestrutura, onde estão relacionadas as debêntures incentivadas e de infraestrutura. Mas, eu diria que nesse momento a gente tem notado aqui um bom apetite dos investidores, tanto no setor primário quanto secundário, sobretudo a luz do novo marco das debêntures, que modifica o regime dá Lei 12.431 e cria a modalidade das debêntures”, explica Faro.

Indagado sobre o direcionamento dos recursos por parte das empresas, o sócio do Machado Meyer disse que nas debêntures incentivadas no setor de infraestrutura o dinheiro já é carimbado, portanto, necessariamente tem que ser usado para capex ou construção de novos projetos. “Se a gente for, historicamente, buscar aqui os usos dos recursos dessas debêntures de forma mais recente, eu diria que é um uso dividido.”

Perspectivas

Diante de um primeiro semestre muito forte para as debêntures, a dúvida que fica é que essa tendência deve se manter no segundo trimestre do ano, em meio a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed) e a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) voltar a reduzir a Selic, na esteira do banco central americano.

Para o gestor da Genial, o ambiente e a conjuntura devem continuar positiva para o crédito privado, uma vez que as empresas estão reportando bem e o nível de juros está atrativo para este tipo de crédito. “Temos uma continuidade do movimento de captação que eu não estou vendo nenhum motivo para que cesse. Principalmente nas debêntures incentivadas, a demanda de pessoa física vai continuar forte, porque existe escassez de CRA, CRI, LCA e LCA.”

Além disso, existem muitas estruturas que estão sendo desmontadas, que ainda não vieram totalmente para o mercado. Com isso, a captação dos fundos deve permanecer forte e a demanda das pessoas físicas por debêntures incentivadas também, na avaliação de Donini.

“Não sei se no mesmo ritmo. A gente viu um ritmo muito forte nesses dois últimos meses, mas eu não vejo nenhum motivo para reversão. A gente fica tentando mapear aqui. Tem alguma coisa que pode reverter isso? Não vemos. A gente entende que a conjuntura é boa e o fluxo é positivo para esses tipos de ativo”, finaliza o gestor.