Gestoras apostam em crescimento do mercado de infraestrutura, ainda que em menor velocidade

Se por um lado diversos investimentos como os fundos multimercados e de ações têm sofrido com o atual momento econômico, e registrado saídas dos investidores mês a mês, outros como os fundos de infraestrutura, mais especificamente os FI-Infra, surfam em uma maré de boa captação e apresentam aumento do número de produtos disponíveis.
Apenas em maio, a captação dos FI-Infra totalizou R$ 17 bilhões, de R$ 10 bilhões em abril, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Os fundos de renda fixa infraestrutura estão caindo no gosto do investidor por razões boas e outras nem tanto. Entre as boas está o momento em que a infraestrutura passa, em que há um crescimento da necessidade de investimentos, algo cada vez mais evidente.
“Vemos o mercado de capitais acessando muito o bolso do investidor, tanto pessoa física como institucional, em busca de recursos para financiar seus projetos, e num momento muito bom, porque o prêmio de crédito que é pago por esses emissores aos investidores é baixo”, afirma Victor Tâmega, Gestor de crédito privado e infraestrutura da Rio Bravo. “Isso proporciona uma taxa mais agradável, menor e atrai mais o capital com um mercado muito mais ofertante de títulos de infraestrutura, principalmente as debêntures incentivadas.”
Fique por dentro de leis e das Resoluções da CVM que transformaram o mercado no curso “Tudo sobre: Mudanças Regulatórias 2024”
A grande procura também foi impulsionada pelas mudanças estruturais na taxação de fundos exclusivos e fundos restritos, e principalmente pelas resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN) que limitaram os lastros de CRI, CRA, LCI e LCA, e geraram uma migração muito forte de novo capital para esses tipos de ativos.
“É meio que um aumento de demanda por ativos incentivados e uma redução na oferta. Pressionando isso, você canalizou para a classe de ativo de infraestrutura que, além de ter um benefício tributário muito similar aos dos CRIs, tem uma vantagem adicional que é não tributar o ganho de capital”, comenta Fábio Massao, gestor co-responsável pelos fundos de infraestrutura da Kinea. “Junto com isso tem tipicamente durations mais longas em infraestrutura, porque estamos falando muitas vezes de financiar concessões de 30 anos com dívidas de até 25 anos. Fica ainda mais poderoso esse efeito do benefício fiscal sobre o ganho de capital no rendimento.”
Por outro lado, observando outros segmentos de renda fixa, alguns sofreram bastante, principalmente no ano passado, apesar de o CDI estar alto e a taxa de juros também, o que afastou os investidores e os levou a procurar novas opções, como os FI-Infra.
Para as gestoras que atuam com esse tipo de investimento, o momento é bom porque é um produto isento, possui rendimentos frequentes, com previsibilidade no pagamento, e é um veículo acessível ao público em geral. “Todos esses fatores tornam um produto bastante interessante nesse momento de taxa de juros maiores, com a inflação apontando para cima, juros em níveis elevados, inclusive a taxa de juros real, que serve como base de precificação das taxas desses papéis incentivados”, comenta Tâmega. “Temos uma série de variáveis que se convertem para que os fundos de infraestrutura tenhan caídos no gosto dos investidores os institucionais, mas principalmente o público em geral, porque eles se beneficiam da isenção total nos ganhos de capital e nos rendimentos distribuídos.”
O co-gestor de infraestrutura da Kinea cita que os FI-Infra são um negócio que tem uma perenidade muito boa comparada aos fundos abertos, porque é um fundo que não está sujeito a resgate, consequentemente, a previsibilidade do ponto de vista de geração de receita também acaba ficando mais previsível.

Com tantos atrativos, o único fator que “joga contra” o crescimento dos FI-Infra, de maneira geral, são os prêmios de crédito menores, segundo Tâmega, da Rio Bravo. “Quando ele amassa o prêmio de crédito, a taxa fica menor para você investir. Então, vemos alguns movimentos de fundos fechando para novos aportes, para que essa demanda muito alta não gere performances inferiores ao se investir em créditos com a taxa mais apertada.”
Crescimento em ritmo menor
Embora os spreads sejam uma questão a ser analisada, as expectativas ainda são de crescimento dos FI-Infra, mesmo em menor escala. Tâmega acredita que o movimento deve continuar, mas em uma velocidade um pouco menor, visto que o movimento teve influência das mudanças na taxação de fundos e pelas resoluções do CMN. “Vimos os gestores, inclusive a Rio Bravo, vindo ao mercado com produtos para atender a essa demanda”, comenta.

PUBLICIDADE
A Rio Bravo, inclusive, pretende aumentar sua participação no mercado e está realizando a oferta do fundo RBIF11. Mas ela não é a única que vê o setor com bons olhos. Mais do que o produto utilizado, as gestoras têm apostado no mercado de infraestrutura como um todo, aponta José Guilherme Souza, sócio e head da área de Infraestrutura da Vinci Partners. A casa possui tanto FIP-IE (Fundos de Participação em Infraestrutura), voltado aos investidores qualificados, quanto outros Fundos de Crédito para infraestrutura.
"Não é exatamente o veículo de investimento que nos atrai ou que tem importância para a gestora. O que vale para a gente é essa classe de ativos que é a infraestrutura, extremamente relevante para o país”, opina Souza. “É uma classe de ativos que, pelo seu próprio perfil de risco, se enquadra num ambiente entre a renda fixa e a renda variável. Atuamos nela há quase 20 anos, então nos sentimos bastante preparados para continuar fazendo investimentos nela, independente se é no crédito ou se é no equity, se o veículo é um FI-Infra ou se é um FIP-IE.”

O gestor da Vinci comenta que para a infraestrutura qualquer capital é super bem-vindo, visto que as necessidades são tão grandes que o capital, seja ele para equity ou para dívida, do investidor institucional ou das pessoas físicas, seja ele nacional ou estrangeiro.
“Todo esse movimento que estamos vendo, claro, também é em função de uma mexida no mercado, que acabou com alguns produtos isentos que essa turma PF gostava muito de adquirir, os produtos que permaneceram com isenção de impostos acabaram, acho que, tendo um vento a favor nesse momento também”, diz Souza.
Embora os FI-Infra, que são fundos de crédito em infraestrutura, sejam mais populares e deem acesso a investidores de varejo, para os FIP-IE, as perspectivas também são boas, uma vez que a aposta é em todo o setor. No momento, com o cenário nebuloso e ambiente de taxa de juros mais volátil, os investidores acabam por evitar sair da renda fixa, mas aos poucos, eles têm mudado o olhar sobre esse tipo de investimento e partir da “dobradinha” renda fixa ou renda variável e sofisticado a carteira, segundo Carolina Rocha, COO da Perfin, que possui FIPs-IE.
“No curtíssimo prazo, eu não diria que esse é o processo específico, mas olhando do ponto de vista do cenário de uma forma mais longa, existe um aumento nas carteiras de FIP, etc”, diz Carolina.
Entre os FIPs, a infraestrutura é muito explorada por, além de ser mais consistente e resiliente, à medida que os produtos foram chegando ao mercado e novos players idôneos, houve uma melhoria de imagem e governança nesse aspecto da infraestrutura no Brasil e, consequentemente, trouxe maior confiança e interesse neste mercado. Em paralelo, a própria indústria também tem crescido, o que atrai os olhares do mercado.
“Tem um ponto a mais, que é a percepção de governos, ao longo do tempo, independente de qual governo, de que a infraestrutura era um negócio importantíssimo para o crescimento do país”, comenta a diretora de operações. “Tiveram ações, mudanças regulatórias, evoluções legais e contratuais, que trouxeram mais conforto para o player que está investindo em infraestrutura. Então, nós, assim como outros, também tivemos um pouco mais de conforto, passamos a investir mais e aí vira um ciclo virtuoso.”
A Perfin continua entusiasta do setor e acredita que o país “está bem longe de cumprir o gap de necessidade de investimento em infraestrutura”, o que motiva o crescimento pujante do setor, mas que também depende em parte do governo, uma vez que muitos ativos vêm de ordem do poder concedente. “Pelo menos pelos próximos cinco anos, vemos com muito bons olhos as oportunidades que terão pela frente”, diz Carolina.
Para a Kinea, o país está no caminho certo. Com os avanços da regulamentação e a criação das debêntures de infraestrutura, o cenário é de melhorias. “Nem sempre o detalhamento, a execução, é perfeita, mas certamente está ali pavimentando para um crescimento saudável e o desafio de infraestrutura no Brasil continua sendo imenso. Enquanto a gente tiver combinação desses elementos junto com uma boa experiência para o investidor, não vejo motivo para esse crescimento parar”, opina Massao
As perspectivas são positivas pelo lado da demanda por capital, ou seja, para aqueles projetos e ativos de infraestrutura, a demanda deve continuar grande, visto que o país tem gargalos históricos na infraestrutura, em todos os setores. No entanto, há algumas barreiras a serem superadas do ponto de vista da oferta de capital.
“Enquanto país, é mais importante trazer de volta para investimentos nessa classe de ativos os investidores institucionais locais. Estou falando dos fundos de pensão, das seguradoras, das fundações. Esse capital, na nossa visão, é o mais adequado para a participação em ativos de infraestrutura, seja no equity ou na dívida, porque é um capital mais paciente, de longo prazo, que se adequa muito bem ao perfil dos ativos da classe”, comenta Souza, da Vinci Partners.
A segunda barreira é a atração de capital estrangeiro de forma relevante para investimentos em infraestrutura, segundo o gestor. “Vemos pouco apetite do investidor institucional estrangeiro por Brasil como um todo e pela infraestrutura, pelo private equity como consequência. Acho que é outro desafio que a gente precisa superar para conseguir trazer um balanço maior entre a demanda por esse capital e a oferta desse capital para os projetos e para os ativos de infraestrutura”, opina Souza.
