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Falta de visibilidade dá trabalho aos gestores de multimercados

Jiane Carvalho

A nova dinâmica nos mercados globais, fruto do desarranjo nas cadeias produtivas e logísticas que geraram inflação e forçaram à alta dos juros, ainda não foi inteiramente compreendida. Previsões de uma recessão nos Estados Unidos, após o juro ser elevado ao maior patamar em duas décadas, não se concretizaram, pelo menos por enquanto. Economistas se esforçam para entender um contexto em que mercado de trabalho, atividade econômica e inflação ignoram um juro americano na faixa de 5,25% a 5,50% ao ano. É em meio à nebulosidade global intensa que navegam os gestores de fundos multimercados.

A Capital Aberto ouviu gestores de dois fundos multimercados com exposição a ativos globais e bom histórico de retornos – o ASA Hedge e o Warren Omaha. Como toda a indústria, os produtos sofrem com as surpresas no ambiente macro, perda de recursos e tiveram de trabalhar dobrado. No acumulado do primeiro trimestre, segundo dados da Anbima, os multimercados registraram saques líquidos de R$ 28,2 milhões. Em termos de rentabilidade, os multimercados livres acumulam retorno de 1,60% no primeiro trimestre, abaixo do DI no mesmo período, de 2,62%. O desempenho do IHFA (Índice de Hedge Funds Anbima) - referência para a indústria de hedge funds – acumulou 0,68% de retorno.


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Gestores da Warren e da ASA apontam, em comum, não apenas as dificuldades na alocação de recursos como também veem o cenário permanecendo nebuloso no curto prazo. “O mercado macro tem dado poucos sinais para a gente. Até emite alguns sinais, mas não são fortes o suficiente para que faça a gente se mexer a favor do mercado macro”, comenta Eduardo Grübler, gestor de multimercado da Warren. “Eu acho que eles vão ficar mais claros nos próximos 12 meses porque tem muito de fim há bastante tempo já.”

O estrategista do ASA Hedge, Rodrigo Melo, tem visão semelhante. “Enquanto não houver uma normalização do padrão inflacionário, global, que disso depende todo o resto, vamos continuar na batalha, buscando o máximo de retorno possível dentro de um cenário difícil de prever”, comenta Melo, lembrando os efeitos da Covid-19 na economia. “Teve alterações nos modelos, durante a pandemia, que os economistas não captaram bem. A modelagem histórica não é mais adequada para essa nova realidade. Os fatores sazonais, pós-pandemia, mudaram.”

Erros e acertos

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O fundo Warren Omaha, um multimercado de estratégia macro criado em 2019, tem hoje um PL próximo de R$ 11,5 milhões, depois de chegar a um pico de R$ 79 milhões em janeiro de 2022. Apesar dos saques registrados – como em toda a indústria de multimercados - no acumulado desde a sua criação o produto rende 58%, 121% do CDI. Este ano, até 22 de maio, o retorno marca 5,78% e, em 12 meses, é de 17,96%.

“Somos um multimercado livre e não nos restringimos apenas a estratégias macros. Aplicamos em moedas, commodities, juros, ações e em vários mercados. Mas, nos últimos 12 até 18 meses, o carrego importante veio das posições em ouro”, explica Grübler, acrescentando que a posição no metal foi fechada há algumas semanas. Há alguma exposição a urânio. O desempenho também se explica pelos acertos no câmbio nas duas pontas – no momento de queda quanto no de alta – posição zerada em maio. “O macro está muito difícil de avaliar. Se carregar muito tempo a posição sai machucado.”

A estratégia de gestão para o multimercado da Warren utiliza modelos estatísticos e matemáticos que indicam ativos e mercados com maior potencial de retorno. Nos últimos meses, explica o gestor, o fundo tem ficado menos exposto às estratégias classicamente macro e utilizado, ao contrário disso, bastante de estratégias de momentum - ativos correlatos, mesma classe ou indústria que superaram seus pares – assim como de valor relativo - identificação de estruturas de investimento onde uma ou mais “pernas” são precificadas de modo inconsistente (crédito, estruturado, opções, baskets).

“Com estes tipos de estratégias a gente tem conseguido, felizmente, bastante sucesso nos últimos 12, 18 meses. Em juros, nos últimos 12 meses, a gente não está vendo nenhum sinal forte para ficar comprado ou vendido”, conta Grübler. No mercado de ações, o Warren Omaha tem feito operações long & short intrasetorial ou pareando setores diferentes. A rapidez com que a Warren troca posições, destaca o gestor, é um acerto. “A gente tem mudado nossos indexadores de uma maneira bem rápida. Estamos saindo de inflação, que deu um bom dinheiro, e operamos volatilidade via opções. O fechamento da curva de juros tendem a normalizar com o tempo, começamos a ver alguns sinais, mas não estão claros o suficiente para a gente montar uma posição relevante daqui do fundo.”

O fundo ASA Hedge tem um histórico de 10 anos com um rendimento acumulado de 189%, o que corresponde a 140% do CDI. Mesmo assim, o PL do fundo que já foi de R$ 2,23 bilhões (03/23), hoje gira perto de R$ 857 milhões. Apesar do bom retorno em seu histórico, no acumulado deste ano até 22 de maio, o fundo recua 1,89%. As apostas em juros, com a indefinição sobre o início do corte na taxa americana, pesam no resultado.

Em abril, o pior mês do ano para o produto, a rentabilidade do ASA Hedge foi negativa em 3,36%. A maior parte da contribuição para este resultado veio da estratégia de juros, mais especificamente da estratégia de juros nominais globais, que perdeu 3,57% no

período. Também houve perdas na estratégia de moedas (-0,24%) e de commodities (-0,10%). “É um cenário bem desafiador. Em juros, temos alocações no fechamento das taxas lá fora. É uma posição direcional” explica Rodrigo Melo.

No ano passado, a carteira do fundo multimercado da ASA estava mais voltada para equities, apostando na venda de ações, do S&P, pelo risco de uma recessão – que não se concretizou. “Teria que subir os juros muito mais do que ele assumia fazer. Tínhamos uma cabeça de que não teria essa história de soft-lending. Nossa carteira ficou muito direcionada para vender ações, S&P”, explica Melo, acrescentando que quando passou a “história de soft-lending”, a carteira do fundo foi migrando para apostas em juros na Europa um pouco no Canadá, nos Estados Unidos e em uma série de outros países. Este ano, o fundo tem poucas ações, basicamente um book long & short. “Temos também algumas operações em moedas no exterior, por exemplo, vendendo euro frente ao dólar. Nos EUA, eu diria que hoje o mercado de trabalho vai normalizando, e você vai tendo uma desinflação que vai acabar no tempo. Mas ao longo do tempo. Não é uma coisa que a gente vai colher agora.”