“Os ativistas são uma influência destrutiva”

Geração de valor “A ideologia de geração de valor ao acionista não funciona. Muito mais que os Estados Unidos, um país que abraçou essa ideia foi o Reino Unido. Da última vez eu pesquisei, os britânicos não tinham mais nenhuma companhia global entre as trinta maiores. Costumavam ter uma: a British Petroleum (BP). Hoje, países bons em criar companhias globais são, por exemplo, a Alemanha e a China. E nenhum deles é conhecido por ser amigável com o investidor.”
Ativismo “Os fundos de hegde ativistas estão ficando cada vez mais fortes — o que, na minha opinião, é ruim. Eles são uma influência destrutiva. Eventualmente agem para conseguir mudanças no board, mas seu verdadeiro objetivo é que as empresas distribuam lucros, nem que para tanto precisem se alavancar. Essa condição torna a companhia frágil e propensa a falir. Mas eles não se importam, pois, quando isso ocorrer, já terão vendido suas ações.”

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Brasil a salvo? “Nos Estados Unidos, há cerca de 4 mil companhias listadas. E os ativistas têm participação em uma ou duas. Como são muitas as opções, eles não ligam se sua influência irá destruir a empresa. Embolsam os lucros e vão buscar outro investimento. Os fundos brasileiros pensariam duas vezes antes de agir assim. O País tem cerca de 150 companhias líquidas listadas e não é do interesse deles que esse número caia. Por isso, acho que há mais chance de o ativismo brasileiro ser construtivo. Os fundos de hedge americanos, contudo, adorariam atuar no Brasil se conseguissem o apoio de outros investidores. Talvez o fato de muitas empresas brasileiras terem controlador os distancie do País. Hoje, eles já estão causando problemas na Europa continental, no Reino Unido e até mesmo no Japão.”
Remuneração perigosa “Muitas pessoas têm a imagem de que os CEOs americanos são gananciosos e destroem as companhias. No entanto, isso só se tornou realidade a partir do momento em que passaram a ser pagos com ações. O Brasil deveria refletir a respeito. Essa tendência é muito perigosa, principalmente quando se estende aos conselheiros, porque estimula o pensamento de curto prazo.”
Ética “As pessoas gostam de dinheiro, mas também de muitas outras coisas. Se você as trata como só se importassem com isso, elas passam a acreditar na ideia. Quando uma empresa atrela o salário dos executivos à performance, os incentiva a fazer de tudo para os resultados parecerem bons e eles poderem ser bem remunerados — mesmo que tenham de quebrar regras. Foi essa motivação que gerou a crise financeira.”
Duas classes de ações “As companhias americanas têm desistido de abrir o capital, porque seus donos não querem se sujeitar à pressão dos acionistas. Para driblar a situação, algumas empresas têm lançado duas classes de ações [o que concentra o poder de voto na mão dos fundadores]. Basicamente, todas as emissoras de ações de tecnologia do Vale do Silício vieram a mercado com essa estrutura de capital. Isso mostra que o modelo de companhia gerida por acionistas externos é disfuncional. As firmas mais bem-sucedidas são gerenciadas por um sócio controlador.”
Foto: divulgação


