À espera de outubro

As evidências são claras. Em março, as ações preferenciais da Petrobras caíram abaixo de R$ 13, a menor cotação desde a eclosão da crise financeira global, em 2008. Talvez por estarem tão baratas, o que se viu de lá para cá foi uma recuperação nos preços, que chegaram a R$ 17,71 em 24 de junho. O aumento da cotação, no entanto, mostra que a alta acompanha os resultados das pesquisas eleitorais divulgadas mês a mês (veja gráfico ao fim da matéria). Desde fevereiro, as intenções de voto na presidente Dilma Rousseff recuaram de 44% para 34%, segundo o instituto Datafolha. “Uma eventual mudança de governo significaria uma alteração no conselho da Petrobras. Para o futuro da empresa, as eleições são um indicador muito mais importante do que o resultado do segundo trimestre ou a apuração de responsabilidades em uma comissão parlamentar de inquérito”, diz Will Landers, diretor-executivo na gestora americana BlackRock. Sob sua gestão encontram-se fundos proprietários de cerca de US$ 250 milhões em ações da companhia.
Dona de 50,3% dos papéis com direito a voto, além de 10% nas mãos do BNDES, a União é, na prática, quem manda na Petrobras. Dos dez conselheiros de administração, sete são eleitos pelo controlador. Por isso, o peso da disputa pelo Palácio do Planalto é tão grande sobre a companhia. O suficiente para o banco Brasil Plural montar suas estimativas de preço-alvo para as ações da petroleira com base em dois cenários. Em caso de reeleição de Dilma, o valor estimado para as preferenciais — as mais líquidas — é de R$ 12, abaixo do atual. Se ela perder, é quase o triplo, R$ 28, embutindo um potencial de ganho de 58%. A avaliação considera, basicamente, o desempenho esperado para variáveis operacionais que o banco apelidou de “três pês”: produção, preço e refinarias “premium” (nome dado às usinas, ainda em projeto, destinadas a tornar o Brasil autossuficiente em diesel e gasolina até 2020).
As três devem ser afetadas negativamente se Dilma vencer. No que diz respeito à produção, um dos problemas é a exigência de uso de equipamentos e matérias-primas produzidos no Brasil, em vez de importados, que por vezes são mais baratos, na construção de plataformas e refinarias. A manutenção desse requisito tenderia a atrasar as metas de crescimento. O preço dos combustíveis, por sua vez, continuaria a ser controlado pelo governo. No caso das refinarias premium, prevê-se que custem muito mais caro do que deveriam, reduzindo a competitividade dos combustíveis nelas produzidos. Foi assim com as plantas de Abreu e Lima e Comperj, projetadas e erguidas durante governos petistas. “Não duvido de que a Petrobras consiga ampliar a produção, mas isso não deve ocorrer sem atrasos”, avalia Andrew Muench, analista do Brasil Plural.
O relacionamento entre minoritários e União sempre foi propenso a soltar faíscas. O primeiro representante dos minoritários detentores de ações ordinárias no conselho da companhia foi empossado apenas no ano passado
O pê de preço A parcela mais relevante das expectativas para a Petrobras pós-eleições de outubro recai sobre a definição do preço dos combustíveis vendidos no mercado interno. Atualmente, embora importe óleo para abastecer o País, a empresa tem como política não repassar a volatilidade das cotações internacionais para a tarifa final dos seus produtos no curto prazo. É uma estratégia usada pelo governo para segurar a inflação, que ano após ano se aproxima do teto da meta do Banco Central. Nas contas da Petrobras, trata-se de um tiro no pé. Absorver as perdas é sinônimo de piorar os resultados trimestrais — e levar os investidores ao desespero.No primeiro trimestre de 2014, por exemplo, o lucro líquido da petroleira somou R$ 5,4 bilhões, montante 30% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado, em parte devido à defasagem de preços ante o mercado internacional. Em outubro de 2013, a estatal anunciou o que poderia ser um alento: a adoção de uma nova metodologia contemplando ajustes automáticos de tarifas. Em dezembro, contudo, após aumentar o preço da gasolina em 4% sem explicar os parâmetros utilizados, divulgou comunicado para informar apenas que a nova metodologia previa bandas de reajuste, dentro das quais a diretoria teria “poder discricionário” para operar “à luz da dinâmica dos mercados doméstico e internacional”. Nem mais, nem menos. Embora a presidente da Petrobras, Graça Foster, já tenha sinalizado a possibilidade de aplicar mais elevações de tarifa durante este ano, analistas não acreditam que o problema de fundo será resolvido. “Mantido o governo e o conselho atuais, muito dificilmente haverá uma mudança expressiva dessa política”, destaca Luana, do GBM.
Corrupção à solta Para além das perdas causadas pelos preços que pratica, a Petrobras se encontra envolvida em uma série de denúncias que minam a confiança dos mercados. A começar pelas suspeitas de corrupção e superfaturamento na aquisição de uma refinaria de petróleo em Pasadena, nos Estados Unidos, em 2006. A companhia brasileira comprou 50% da planta, que pertencia à petroleira belga Astra Oil, sua sócia no negócio a partir de então. A aquisição foi aprovada sem que o conselho, presidido por Dilma Rousseff na época, tivesse avaliado cláusulas importantíssimas do contrato. Foi assim com a “put option”, cujo conteúdo estabelecia que uma das sócias comprasse as ações da outra em caso de desacordo mútuo. Já a disposição conhecida como “marlim” garantia o pagamento de dividendo mínimo de 6,9% à Astra Oil, mesmo se a refinaria registrasse prejuízo.

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Um desentendimento com a Astra Oil, que não teria concordado em realizar investimentos na modernização do parque de refino de Pasadena, acabou em disputa judicial, com vitória da belga. Devido à cláusula “put”, a Petrobras se viu obrigada a adquirir a parte da Astra Oil na refinaria. Essa situação catapultou o valor gasto com a planta: inicialmente estipulado em US$ 360 milhões, atingiu US$ 1,2 bilhão. Detalhe: um ano antes, a Astra Oil tinha comprado a refinaria inteira por US$ 42 milhões.
O histórico de mau uso de recursos não vem de hoje. De acordo com uma estimativa da Agência Internacional de Energia (AIE), a refinaria Abreu e Lima, que a Petrobras deve inaugurar em novembro na cidade de Ipojuca, em Pernambuco, custará cerca de três vezes mais do que projetos semelhantes erguidos em outros países. É possível que o valor alcance cerca de US$ 20 bilhões, dez vezes o orçamento inicial de US$ 2 bilhões. A planta contaria em princípio com investimento conjunto da PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo, mas acabou sendo totalmente bancada pela Petrobras. A entrega da obra já está pelo menos três anos atrasada. O acúmulo de casos desse tipo ensejou a criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) no Congresso Nacional. Nos corredores da Câmara e do Senado, antigos e atuais diretores e presidentes da empresa se revezam na tentativa explicar o inexplicável. Nos bastidores, situação e oposição tentam extrair os louros possíveis da disputa.

Este ano, os minoritários conseguiram outra vitória. Na assembleia geral ordinária de abril, José Guimarães Monforte, economista e um dos fundadores da gestora Pragma Patrimônio, assumiu a vaga no conselho cuja escolha cabia aos acionistas preferencialistas. “A governança é um tema crítico na empresa”, afirmaram os fundos que encamparam sua candidatura na época, como o britânico Aberdeen. E continua sendo. A ponto de a Petrobras repreender Cunha devido a crítica feitas à companhia. Em entrevistas, ele afirmou que os problemas na refinaria de Pasadena eram uma “gota no oceano” em relação à perda de valor da Petrobras nos últimos anos.
A relação de Mauro com a companhia já andava tensa. Em fevereiro, ele rejeitou a aprovação do balanço de 2013 da Petrobras, devido à demora do envio das demonstrações para análise dos conselheiros, além da insuficiência de informações e aparente “inadequação da contabilização dos investimentos em refinarias”. Também fez queixas à CVM, entre outros motivos, pelo fato de a companhia não ter divulgado, de imediato, seu voto contrário ao balanço. No fim de maio, veio a notícia de que Cunha seria substituído no comitê de auditoria, assim como o conselheiro Francisco Roberto de Albuquerque, eleito para o board pelo governo. Entraram, na nova composição do órgão, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Sérgio Franklin Quintella, vice-presidente da FGV e também conselheiro da Petrobras, já participava do comitê e foi mantido. Em seu site, a empresa informa que o comitê de auditoria é formado por três membros independentes. Não se sabe a que independência a Petrobras se refere, considerando que Miriam e Coutinho são participantes do governo, acionista majoritário da empresa.
“A gestão da Petrobras está um caos. Faltam quadros técnicos e sobram quadros políticos”, alfineta Fabio Fuzetti, sócio-diretor da gestora Antares, que possui investimentos na petroleira e tem procurado mobilizar outros acionistas para cobrar uma postura mais efetiva da companhia. A eles, por ora, o que resta é esperar. Numa empresa do tamanho da Petrobras, todos sabem que mudanças demoram a acontecer, seja qual for o governo. “Mesmo sob a batuta de um novo presidente, resultados positivos levariam muito tempo até começar a aparecer”, pondera Landers, da BlackRock.
Mexer na política de preços dos combustíveis parece algo lógico e de viés técnico. Por isso, os investidores acreditam que seja a parte dos problemas mais imediata a ser resolvida em eventual nova gestão. Garantir que a Petrobras invista os US$ 220 bilhões programados para o período 2014-2018 de forma eficiente e transparente, contudo, não seria tão simples. “Não espero milagres, mas apenas o aumento de confiança dos investidores, principalmente estrangeiros, diante de um governo que entenda a importância do capital privado para as companhias estatais”, acrescenta o gestor da BlackRock.
Ainda que os acionistas minoritários galguem espaço nas esferas de governança da companhia, analistas ressaltam que a Petrobras é e seguirá sendo controlada pelo governo, de onde permanecerão saindo boa parte dos seus quadros administrativos. “Foi um logro a escolha de Graça Foster como presidente da Petrobras. Ela é uma tecnocrata, não uma política. Mas ainda que o conselho se abra no futuro para novos interesses, sete dos seus membros são indicados pelo controlador. O governo prevalece”, enfatiza Luana, do GBM. Em contrapartida, trata-se de um negócio extremamente rentável, que mesmo em seu pior momento lucra mais de R$ 5 bilhões em apenas três meses. Caberá aos investidores pesar os riscos e o retorno esperado. No caso da Petrobras, há uma farta porção de ambos.
Ilustração: Beto Nejme/Grau180.com



