A primeira quebra

Hobkirk chegara a Salvador (BA) em 1817, como funcionário dos banqueiros Baring Brothers. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, trabalhando na diplomacia britânica. Onze anos depois, casou-se com Frances Lecesne, filha de um francês pioneiro da cultura do café no Alto da Boa Vista, nas montanhas da Tijuca, com quem teve nove filhos. Estabeleceu longa experiência de convívio com a cultura brasileira, até que, em fins da década de 1840, já atuava na bolsa carioca.

PUBLICIDADE
O corretor Alves Souto, conhecido em Portugal como visconde de Souto, na véspera da quebra repassara 20 contos de réis à firma. Julgando-se lesado, pediu a prisão de Hobkirk, que solicitara o empréstimo efetuado contra recibo. Em seguida, surgiu no Jornal do Commercio uma carta da companhia em que alegava apenas dificuldades momentâneas, sucedida por ácida disputa epistolar entre leitores inconformados. O fato é que o clima ficou insustentável para os Hobkirk no Rio de Janeiro.
Logo a seguir, em agosto de 1851, Frances e os filhos do casal deixaram a baía de Guanabara num navio alemão com destino à Austrália, onde se estabeleceram em Launceston, na Tasmânia. O chefe da família chegou em 1854 e, no mesmo ano, fundou um novo negócio comercial em sociedade com o filho John Francis: Hobkirk & Son.
Apesar do insucesso no Brasil, o prestígio de Hobkirk nos meios financeiros britânicos deve ter permanecido intocado. Em meados dos anos 1860, ele retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar na implantação de um banco inglês, certamente por seus conhecimentos do mercado brasileiro. Faleceu em Launceston, em 1882.
A fundação da Junta de Corretores e a saga de seu primeiro presidente são episódios que ficaram envoltos nas dobras da história do mercado de capitais no Brasil. Servem, entretanto, para jogar luz sobre circunstâncias, pessoas e métodos que configuraram seus passos iniciais.
Ilustração: Montagem sobre obra de Jean Baptiste Debret e litografia de Thierry Frères


