O fiasco das "X"

"A transição das empresas de Eike Batista da fase pré-operacional para a de produção está sendo mais complicada do que esperávamos", confessa um gestor que já teve algumas das maiores posições da indústria de fundos nas ações das empresas X. Há dois anos, ele começou a reduzir a exposição aos papéis, até zerá-la dois meses atrás. Não é difícil entender por quê. Um "projeto" de empresa tem 100% do seu valor relacionado às expectativas que gera. "O simples atraso na entrega de uma obra pode levar a avaliação sobre o preço justo a ser seriamente abalada", explica o gestor. E o que não faltou aos projetos de Eike Batista foram atrasos. Suas companhias perderam valor, e ele, o posto de homem mais rico do Brasil. A seguir, um resumo das dificuldades enfrentadas por cada uma das companhias X.
OGX — Dos poços da petroleira saiu o combustível que detonou a mais grave crise de confiança dos investidores em relação a Eike Batista e, consequentemente, às empresas X. A OGX é considerada a mais importante companhia do grupo. Estreou na BM&FBovespa, em 2008, levantando R$ 6,7 bilhões no maior IPO brasileiro até então. Eike prometia extrair as primeiras gotas de petróleo em 2011, ano em que a produção deveria atingir 20 mil barris por dia. Mas o início das operações atrasou, e a empresa terminou 2012 extraindo pouco mais de 10 mil barris de petróleo por dia — a produção prevista para o ano passado era, pelo menos, quatro vezes maior. O fato é que os dois poços de onde a OGX extraiu petróleo em 2012 não são capazes de produzir muito mais do que 5 mil barris de petróleo por dia. Mesmo assim, meses antes de anunciar esse volume ao mercado, a companhia vinha sustentando que seria possível extrair de cada poço até 20 mil barris. "Como a produção de um poço de petróleo tende a declinar com o tempo, é impossível a OGX alcançar sua estimativa inicial", explica Marcus Sequeira, analista do Deutsche Bank.

MMX — A situação não é tão extrema no caso da MMX, a mineradora do Grupo EBX, tampouco é muito mais confortável. Ela foi a primeira do conglomerado a chegar à BM&FBovespa, ainda em 2006. Na época, projetava produzir, em 2011, aproximadamente 37 milhões de toneladas de minério de ferro. Quando 2011 chegou, gerou 7,5 milhões de toneladas. A extração do ano passado ainda não foi divulgada, mas também não deve impressionar. Até setembro, a empresa havia produzido em torno de 5,7 milhões de toneladas.
Um dos maiores problemas da MMX está nas alternativas de escoamento. A empresa pretende exportar a maior parte da sua produção, para isso, contudo, precisa colocar para funcionar o chamado Superporto Sudeste. Atualmente, o minério de ferro que envia para o exterior é escoado pelo Terminal de Cargas do Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, pertencente à CSN.
O plano inicial era dar largada às operações do Superporto Sudeste, em construção no litoral fluminense, ainda em 2011. No momento, as previsões mais otimistas são de que as atividades iniciem este ano. "Sem o porto pronto, nem adianta a MMX investir para ampliar a produção, porque o terminal por onde exporta limita a sua movimentação a 1 milhão de toneladas por ano", diz Victor Penna, analista do BB Investimentos. "Até lá, a empresa vai patinar na bolsa". Essa já foi a realidade da MMX em 2012, quando suas ações perderam um terço do valor. Neste ano, depois de a companhia ter sido multada pela Receita Federal em quase R$ 4 bilhões por supostamente não recolher impostos, a queda já passava dos 25% até meados de fevereiro. O movimento foi brusco a ponto de o BB Investimentos suspender temporariamente as avaliações da companhia.
"Muitas vezes, o mercado vê e ouve apenas aquilo que quer ver e ouvir"

PUBLICIDADE
LLX — No setor de logística, com a LLX, Eike Batista também não tem conseguido tirar o pé do atoleiro. O principal projeto da empresa é a instalação do Superporto do Açu em São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro. O empreendimento já é considerado o maior porto-indústria da América Latina, com potencial para se tornar um dos três maiores complexos portuários do mundo. Tudo isso, é claro, quando finalmente sair do papel. Em 2008, ano em que chegou à BM&FBovespa, a LLX prometia iniciar as operações do Açu em 2011. A inauguração, agora, é prevista para o fim de 2013.
Embora a companhia tenha divulgado boas notícias, como a assinatura de um contrato com a multinacional GE para construção de uma fábrica na área do porto, suas ações despencaram quase 30% em 2012. Neste ano, com a divulgação de novidades não tão boas — a Subsea 7, empresa norueguesa de construção submarina, desistiu de se instalar no Açu —, os papéis recuavam mais 20% até meados de fevereiro.
Além dos atrasos, a LLX padece de outro problema comum às empresas de Eike Batista: o troca-troca da gestão. No ano passado, seu então presidente, Otávio Lazcano, foi deslocado para a diretoria financeira da EBX e substituído por Marcus Berto. Cinco das seis companhias do grupo listadas na bolsa trocaram de presidente em 2012, algumas entre si. O atual presidente da OGX, Luiz Eduardo Guimarães Carneiro, por exemplo, foi, até junho, o CEO da OSX.
Em 2012, Eike Batista quis tirar a LLX da BM&FBovespa, entretanto desistiu depois de um laudo do Bank of America Merrill Lynch estimar um preço justo para os papéis que era o dobro do que ele se propunha a pagar aos acionistas. Em tese, um controlador que se dispõe a recomprar as ações de uma empresa acredita que elas valem mais do que o preço atribuído pelo mercado. No caso da LLX, Batista preferiu não apostar.
CCX — Criada para explorar carvão na Colômbia, em jazidas que pertenciam à MPX, a CCX só não está em situação pior porque, em breve, deve deixar o pregão. Menos de um ano depois de apresentá-la ao mercado, Batista anunciou, no fim de janeiro, que pretende fechar o capital da CCX. Com a notícia, os papéis avançaram 70%. Mesmo assim, ainda são negociados por menos da metade do valor de quando estrearam na BM&FBovespa, em maio de 2012. Para justificar a decisão, Batista alegou que, em função da "deterioração das condições do mercado de carvão mineral", a CCX será obrigada a enfrentar mudanças no seu plano estratégico.
No primeiro plano de negócios para as minas colombianas, divulgado em 2010, quando os ativos ainda pertenciam à MPX, a previsão era começar a produção em 2012. O prazo, todavia, venceu, e as minas, já nas mãos da CCX, continuaram sem ser exploradas. Em apresentações corporativas recentes, a CCX sustentou que seria possível iniciar a extração nas jazidas em 2014. Do ponto de vista dos investidores, analistas sugerem atenção no processo de fechamento de capital da CCX, ainda em andamento. Eles precisam escolher entre vender ou não seus papéis pelo preço que Eike Batista está oferecendo — entre R$ 3,83 e R$ 4,24 por ação, pagos em ações das outras companhias do Grupo EBX. Os papéis da CCX estrearam na bolsa a R$ 8,50. "Não podemos compactuar com o oportunismo corrente de entregar as ações com tamanho desconto", escreveu a consultoria Empiricus, em relatório de janeiro.
MPX — A geração de energia é o segmento em que o Grupo EBX tem ido melhor. Entre meados do ano passado e o fim de 2013, a MPX pretende colocar para funcionar quatro usinas termelétricas no Ceará e no Maranhão. Outras duas usinas, uma no Ceará e outra no Amapá, já estão operando desde 2011 e 2008, respectivamente. "É uma boa notícia para a empresa a possibilidade aventada pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) de manter as termelétricas gerando energia durante o ano inteiro, para que o País chegue a 2014 com os reservatórios das hidrelétricas cheios", avalia Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Não que a MPX tenha iniciado as operações sem enfrentar percalços. A entrega de algumas usinas atrasou, e, como tinha contratos de fornecimento fechados, precisou comprar energia no mercado para honrá-los. Só o atraso no início da produção de uma das térmicas, a Pecém I, no Ceará, adicionou custos para a MPX de R$ 26 milhões no terceiro trimestre de 2012 e de outros R$ 130 milhões estimados para o quarto trimestre, conforme cálculos dos analistas do HSBC. O mercado não perdoou. As ações da companhia recuaram 9% em 2012 e mais 8% em 2013, até meados de fevereiro. "A impressão é que o mercado está exagerando ao punir a MPX", afirma um gestor de fundos que, nos últimos meses, reduziu sua exposição aos papéis da empresa ao menor nível em anos. "Tudo o que aconteceu com a companhia do meio do ano passado para cá estava dentro do previsto. Essa queda parece acontecer pelo simples fato de a empresa ter um X no nome."
No fim de fevereiro, o Valor Econômico noticiou que Batista pode vender o controle da MPX para a alemã E.ON, já sócia da companhia.
E AGORA? — Apesar das muitas promessas descumpridas, alguns investidores se apegam a fios de esperança e acreditam que 2013 será melhor que 2012 para as companhias de Eike Batista. A possibilidade de novos leilões de áreas de exploração de petróleo neste ano embute uma boa notícia para a OGX, ao mesmo tempo em que a entrada em operação das térmicas da MPX anima os acionistas da empresa. Um novo cenário também se desenha para a MMX e a LLX, com o início das atividades dos portos das duas companhias.
Novamente, no entanto, tudo isso permanece no campo das promessas. "Muitas vezes, o mercado vê e ouve apenas aquilo que quer ver e ouvir", ressalta Sequeira, do Deutsche Bank. Parece ter chegado a hora de os investidores enxergarem e escutarem não apenas o que querem, mas aquilo que verdadeiramente fundamenta as projeções de Batista.


