Impunidade gera displicência

Aqui, no Brasil, há um sentimento generalizado de impunidade que leva alguns dirigentes de estatais à displicência. Há práticas de governança corporativa e de gestão em conflito com os interesses dos acionistas minoritários e da própria sociedade. A imprensa tem noticiado a manipulação de preços dos combustíveis para segurar a inflação — o que afeta o desempenho da Petrobras, que tem milhares de acionistas no mundo todo. A mesma Petrobras chocou o mercado em seu processo de capitalização para viabilizar a exploração do pré–sal. Também houve pressão sobre Roger Agnelli, ex–presidente da Vale, de incontestável competência. Tais fatos soaram como tentativas de reestatização.
Há 20 anos, quando ocupei a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), vi episódios preocupantes. Ali se analisavam, como hoje, dados de empresas abertas, tanto do setor privado quanto do público. Impressionava–me a arrogância de algumas estatais: bancos estaduais e companhias públicas de capital aberto apresentavam balanços e relatórios com problemas e tentavam rejeitar as exigências dos técnicos da CVM, enquanto empresas privadas republicavam seus demonstrativos financeiros, se necessário. Em lugar de providências saneadoras e de total transparência, surgiam telefonemas de autoridades do alto escalão do Executivo ou do Legislativo pedindo a retirada da exigência. Nunca atendemos a essas solicitações, mas as pressões eram enormes.

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A situação não mudou muito, embora tenhamos atualmente condições melhores para monitorar o mercado e evitar abusos. É verdade que os investidores estão bem organizados, a autorregulação da BM&FBovespa funciona, e a CVM está cada vez mais presente e rigorosa. Mas o nosso tão criticado setor público ainda apresenta características contraditórias, misturando sanguessugas com gente da melhor qualidade. Essas maçãs podres só podem ser extirpadas com a transparência e a pressão da sociedade.
No início da década de 1970, trabalhei como executivo em muitos processos de abertura de capital de companhias privadas. Surgia a oportunidade no Brasil de as empresas abrirem suas portas para participação dos mais diversos investidores. Por conta disso, elas assumiam o compromisso de se tornarem transparentes e respeitar os minoritários. Hoje, os níveis de listagem das empresas na BM&FBovespa requerem ainda mais esses deveres.
Em 1992, como presidente da CVM, acompanhei o lançamento dos American depositary receipts (ADRs) da Aracruz na Bolsa de Valores de Nova York. Três anos depois, fui cofundador do IBGC (na época, sob o nome Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração). Empenhei–me em permitir a entrada de capital estrangeiro na bolsa brasileira. Com base nessa experiência, mantenho, portanto, a seguinte tese: o Estado não deve ser empresário nem banqueiro. Suas empresas devem ser privatizadas. A abertura de capital de uma estatal só deve ocorrer se for um passo para a sua privatização, e não uma busca de recursos de investidores para se perenizar na mão de um Estado ineficiente.
