Ponto para ela

Gouveia costuma explicar o modelo de negócios da companhia com a ajuda de exemplos corriqueiros. Um deles é o do dono de uma frota de quatro carros que consome R$ 400 de gasolina por semana. Em um ano, o proprietário terá cerca de 40 mil pontos para trocar por produtos e serviços dos parceiros da Multiplus. Poderá adquirir passagens aéreas da TAM sem gastar R$ 1 a mais. Basta ser fiel e abastecer sempre na rede de postos Ipiranga, outra parceira do programa.
Essa é a parte fácil da explicação. Programas de fidelidade existem há décadas, mas o esforço de Gouveia está em destrinchar a geração de lucros da Multiplus. A novata estreou na Bolsa em fevereiro deste ano a R$ 16, valor abaixo do estipulado no prospecto (entre R$ 18 e R$ 24). No primeiro pregão, a cotação chegou a recuar 12%, fechando com ligeira queda. “Foi preciso muita saliva para explicar ao mercado qual é o negócio da Multiplus”, lembra Gouveia.
Trocando em miúdos, a Multiplus se parece com uma operadora de câmbio. Seu lucro vem do spread entre a compra e a venda de pontos com os parceiros, que se dividem em dois tipos. A mais comum é a parceria de acúmulo, grupo do qual participam 120 empresas. Elas não têm programas próprios de fidelidade, mas compram pontos da Multiplus e oferecem aos seus clientes, que trocam os pontos por qualquer um dos benefícios oferecidos pelas parceiras da Multiplus. Um exemplo é a locadora Movida Rent a Car, que oferece aos clientes cem pontos por diária contratada. Cada ponto desses é comprado pela locadora; parte substancial da geração de caixa da Multiplus está aí.

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Já as parceiras de coalizão — seis até o momento — têm programas de fidelização próprios e oferecem produtos e serviços aos participantes. A Ipiranga, com seu programa “Quilômetros de vantagens”, é uma delas. Outra é a TAM, que pode ser chamada pela Multiplus de mãe. Dos cerca de R$ 700 milhões levantados na oferta inicial de ações, a companhia investiu 94% em compra de assentos da parceira. “Isso é o suficiente para os próximos dois anos de resgates de pontos”, projeta Gouveia. Pela negociação vultosa, a Multiplus conseguiu um preço melhor pelos assentos, que são os produtos mais procurados pelos mais de 7 milhões de clientes dos programas de fidelização de todos os parceiros.
Uma parte da estranheza inicial do mercado pela Multiplus surgiu exatamente pela destinação de quase todo o aumento de capital para compras de assentos de sua controladora. Avisos luminosos de “conflito de interesse” ofuscaram o desempenho da ação nos primeiros dias. É o que lembra Carlos Lima, sócio da XP Gestão de Recursos. As demonstrações financeiras seguintes, entretanto, mostraram que a escolha foi acertada. “Essa operação diminuiu os custos, e o tempo fez com que a geração de caixa da Multiplus conquistasse os investidores.”
A partir daí, o negócio da Multiplus foi mais bem entendido. O lucro triplicou do segundo para o terceiro trimestre deste ano, chegando a R$ 23,1 milhões. De abril até o fim de setembro, o papel da companhia se valorizou 48,03%. “É uma ação interessante para quem acredita no aumento do consumo”, constata Luciano Tavares, da Nest Investimentos. Sua análise macroeconômica indica que as compras continuarão crescendo.
Como inspiração para o modelo de negócio da Multiplus, a TAM usou a Aeroplan, uma subsidiária da Air Canada lançada na bolsa em 2005, mas Gouveia destaca as diferenças entre as duas empresas: a Aeroplan não tem a figura do parceiro de coalizão com um programa próprio de pontos. Isso acaba por tirar a autonomia dos parceiros. “Na Multiplus, as empresas coligadas ajudam a promover o relacionamento com a base de clientes.” Outra característica conflitante é a empresa canadense trabalhar com apenas um programa de fidelidade de cartão de crédito. A despeito disso, a Aeroplan é hoje mais valiosa do que a própria Air Canada. O valor de mercado da primeira, de acordo com relatório do Credit Suisse, saltou de US$ 600 milhões, em 2006, para US$ 2 bilhões no início de junho de 2010. No mesmo período, a companhia aérea enfrentou turbulências e recuou de US$ 1,2 bilhão para US$ 275 milhões.
A TAM valia, no fim de outubro, R$ 5,7 bilhões, contra R$ 4,6 bi da Multiplus. Mas o pulo do gato da subsidiária pode estar chegando via Chile. A fusão entre a TAM e a companhia aérea chilena LAN ainda gera dúvidas. Uma delas é o destino do Lanpass, o programa de fidelidade da empresa andina. Duas hipóteses ganham força: ou a Multiplus incorpora o Lanpass ou passa a comprar seus pontos, o que abriria as fronteiras dos países para onde a LAN voa.
