Crescimento que dá gosto

A entrada da CRP e da BNDESPar significou não só uma forma de crescer, como também um alívio. Naquele momento, a Bom Gosto já estava em seu limite de endividamento bancário e precisava de fôlego para continuar expandindo. “Chegou um ponto em que não tinha mais como prosseguir sozinho”, conta Zanatta. A decisão foi difícil. “Precisei pensar muito. Mas eu sabia que, naturalmente, somente investindo o lucro que o negócio gerava, eu viveria uma vida inteira e não construiria uma grande empresa.”
Para os sócios, investir na Bom Gosto parecia um ótimo negócio. O histórico de crescimento era a principal evidência. Em 2000, ano em que começou a atuar no mercado de leite longa vida, o faturamento anual era de R$ 5 milhões. Em 2006, chegou a R$ 214 milhões. No ano seguinte, com a entrada de recursos da CRP e da BNDESPar, a cifra saltou para R$ 552 milhões.
O faturamento crescente deve-se, sobretudo, à agressividade da Bom Gosto na aquisição de concorrentes. Um mês depois de receber o dinheiro dos novos sócios, em julho de 2007, a empresa já comprava a mineira DaMatta, produtora de lácteos e queijos especiais da cidade de Miradouro (MG). Em outubro do mesmo ano, adquiriu a Nutrilat, no Rio Grande do Sul, terceira empresa do estado em volume de processamento de leite e a segunda maior fabricante de leite em pó.
A fusão com a Líder Alimentos permitiu à empresa ultrapassar a concorrente Parmalat

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A entrada de investidores externos teve papel preponderante no sucesso das aquisições e na profissionalização da Bom Gosto. “Desde o início, fizemos um trabalho muito próximo do Zanatta. Ele dando ‘o norte’, e nós fazendo o papel de advogados do diabo, com o objetivo de elevar o nível da discussão”, conta Dalton Schmitt Junior, diretor executivo da CRP. Segundo ele, a parceria só deu certo porque houve sinergia. “O Zanatta tem um conhecimento muito grande sobre as possibilidades da bacia leiteira e sua logística. E nós trouxemos o conhecimento sobre aquisições, como metodologia e precificação.”
Nem mesmo a crise financeira do ano passado freou o apetite da Bom Gosto. Em abril de 2008, ela adquiriu a mineira Santa Rita e, em maio, a gaúcha Corlac. Mas a grande tacada de Zanatta ocorreu em dezembro: a fusão da Bom Gosto com a Líder Alimentos, de Lobato (PR). Nessa nova configuração, a Bom Gosto ultrapassou a Parmalat. Deixou o posto de quinta para ser a quarta maior produtora de lácteos do País, atrás apenas da Nestlé, da Perdigão e da Itambé.
O negócio com a Líder foi concretizado por meio de troca de ações. Os fundadores das duas empresas — Zanatta e os irmãos Aparecido e Agenor Stuani, da Líder — passaram a dividir o controle da nova companhia, com 66% das ações. O BNDES ficou com 30% do negócio. O banco foi um dos grandes incentivadores da fusão e realizou novo aporte de capital após o anúncio da operação. A CRP ficou com aproximadamente 3% das ações restantes. A série de aquisições da Bom Gosto continuou neste ano. Em março, a empresa assumiu a operação da fábrica da Parmalat em Garanhuns (PE), que passou a ser sua primeira unidade na região Nordeste. Para 2011, a empresa planeja começar a produzir leite no Uruguai, em uma fábrica que será construída na cidade de San José de Mayo. Segundo Zanatta, a perspectiva é que o setor de laticínios continue se consolidando, o que mantém o foco da Bom Gosto em aquisições. A meta é estar preparada para abrir o capital em dois ou três anos. “Essa é uma previsão, mas não temos pressa. Vamos esperar um bom momento de mercado. Falar em IPO hoje chega a ser um palavrão”, brinca o empresário.
Enquanto isso, a CRP tem um olho atento ao crescimento e às margens da sua investida. “Não podemos esquecer que leite é uma commodity. É preciso trabalhar com produtos de maior valor agregado e ter muito cuidado com os custos”, afirma Dalton. E a CRP avisa que quer mais Bom Gosto. Segundo o executivo, a gestora está finalizando a estruturação de um fundo para empresas de porte maior, e a Bom Gosto é um dos alvos.
