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Acordo UE-Mercosul mexe com estrutura de crédito ao agronegócio

Redação Capital Aberto

Luiz Carlos Corrêa, head de alocação e sócio da Nexgen Capital

Este ano, após mais de duas décadas e meia de negociações, o esperado acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul está saindo do papel. Além dos impactos diretos à economia do país, o acordo deve aumentar a busca por crédito no agronegócio, aumentando a emissão de títulos no mercado de capitais, além de redefinir estruturas.

O acordo UE-Mercosul ainda deve ser alvo de apreciação pelo legislativo europeu, mas ganhará vigor provisório a partir de maio. A expectativa é que ele amplie a emissão de títulos de crédito para fomentar a produção no agronegócio e mude a maneira como o setor lida com informações, incorporando ainda mais critérios ESG.

Marina Costa, especialista comercial e de relacionamento da Vórtx, casa que tem uma relação mais indireta com produtores, aponta que, com um acordo de tamanha exigência em termos de pré-requisitos fitossanitários e de rastreabilidade de produtos, a cadeia inteira é impactada.

“Isso vai exigir investimento em tecnologia, em compliance, e tudo isso demanda recursos. No final do dia, podemos esperar, do meu ponto de vista, operações estruturadas que sejam voltadas para esses investimentos”, diz.


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Para acessar esse mercado externo com grandes possibilidades de crescimento para o produtor, especialmente, é preciso investir em mudanças na estrutura, com alterações relevantes dentro do próprio manejo da cultura, que demandam investimentos.

“Olho muito nessa perspectiva de busca por acesso a capital num curto prazo e, no médio, longo prazo, mais para operações estruturadas que usem como garantia esses contratos firmados na exportação dos produtos”, opina Marina.

A perspectiva, no entanto, não é de efeito imediato, porque demanda uma adaptação de toda a cadeia, para a qual grandes empresas, emissoras já conhecidas do mercado, estão mais preparadas.

Neste cenário de procura por crédito, instrumentos financeiros como Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Cédulas de Produto Rural (CPRs) se mostram adequados para esse fim. 

“Atualmente, produtores de maior porte já se beneficiam desses mecanismos, incluindo operações de exportação. O acordo também traz consigo a necessidade de harmonização das exigências ambientais entre a União Europeia e o Brasil”, diz Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Corecon-SP.

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O economista pontua que, as CPRs, em particular, oferecem a possibilidade de inclusão de cláusulas relacionadas a critérios de sustentabilidade, já existentes no mercado, e essa adequação é crucial para facilitar a exportação de produtos agrícolas brasileiros.

“Embora essas operações estejam concentradas em grandes players e vinculadas à exportação, espera-se um impacto gradual, com a crescente participação de produtores”, comenta, acrescentando que é fundamental que o mercado esteja preparado e em conformidade para o acesso ao crédito. 

Para Luiz Carlos Corrêa, head de alocação e sócio da Nexgen Capital, talvez a oferta de crédito não ocorra em um curto espaço de tempo, visto o cenário atual do setor, mas o acordo UE-Mercosul tende a ser bastante positivo, principalmente para os setores com maior potencial de ganho, como proteína e sucroenergético. 

“Pela escassez atual do crédito, títulos como a CPR com garantias reais podem ganhar espaço, com investidores buscando uma estrutura segura e com overcollateral garantindo a operação. Para os pequenos e médios produtores, ‘CPRs ‘Verde não vejo como viáveis, inicialmente”, opina.

Além do crescimento ascendente do financiamento ao agronegócio via mercado de capitais brasileiro, o acordo tende a estreitar as relações entre UE e Mercosul, favorecendo investimentos. 

“Vemos, no futuro, CRAs, FIAGROS, operações estruturadas de crédito, tendo apetite europeu, seja por parte de investidores pessoas físicas, seja por fundos. A proximidade que a criação do bloco vai dar, vai oportunizar mais negócios”, acredita Antônio da Luz, economista-chefe da EcoAgro. 

Na visão dos especialistas, devido às posições europeias a respeito de critérios de elegibilidade, o Brasil consequentemente evoluirá tanto em compliance, quanto em suas relações do ponto de vista ESG. 

“Teremos, obrigatoriamente, que estar mais preparados para mostrar para um público exigente que estamos fazendo da maneira mais transparente e correta possível, entregando benefícios não só em termos de taxas, mas também em termos ambientais”, diz Luz.

O ESG deixará de ser um diferencial e passará a ser pré-requisito. Além da exigência de questões como cadastro ambiental regular, inexistência de processo administrativo aberto com relação ao desmatamento, a comprovação dessas práticas também será demandada. 

Exigências como monitoramento de gado via satélite ou rastreamento individual de animais serão mais comuns, e essas cláusulas serão mais vistas nas operações.

No entanto, o middle market, pequeno e médio produtor, “pode ficar de fora” dos benefícios do acordo, justamente por essa dificuldade em se adaptar a essas exigências.