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Fim da patente da semaglutida abre nova fase de concorrência no Brasil

Victor Aguiar

O fim da patente da semaglutida no Brasil marca o início de uma nova fase para o mercado de medicamentos para obesidade e diabetes. Para analistas do mercado, no entanto, os efeitos econômicos devem se materializar de forma gradual, à medida que a oferta se amplia e os preços começam a ceder.

Relatórios do BTG Pactual consultados pela Capital Aberto apontam que, embora a expiração da patente — ocorrida no dia 20 março — encerre formalmente a exclusividade da Novo Nordisk, o impacto competitivo imediato ainda é limitado pela ausência de alternativas aprovadas no país. 

A natureza complexa da molécula, um peptídeo com características próximas às de biológicos, impõe barreiras regulatórias relevantes, o que retarda a entrada de concorrentes.

Ainda assim, segundo o banco, há mais de uma dezena de pedidos em análise na Anvisa, com expectativa de que os primeiros produtos cheguem ao mercado no segundo semestre. 

No médio prazo, a dinâmica tende a mudar de forma relevante. O BTG estima que novos integrantes possam praticar descontos de até 40% em relação aos medicamentos de referência, ao mesmo tempo em que ampliam o volume total do mercado em cerca de 50%. Isso levaria o segmento de GLP-1 no Brasil de aproximadamente R$ 10 bilhões para mais de R$ 15 bilhões ao longo dos próximos anos.

A trajetória de preços, no entanto, deve ser mais gradual do que em genéricos tradicionais. A experiência internacional sugere reduções progressivas, em função da complexidade produtiva e regulatória desses medicamentos.


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O Goldman Sachs chama atenção para um ponto adicional: o impacto potencial dessas terapias para além do setor farmacêutico. Em relatórios recentes, o banco destaca que a disseminação dos medicamentos da classe GLP-1 pode alterar padrões de consumo em escala global, especialmente em categorias ligadas à alimentação.

A tese parte do efeito clínico dos medicamentos, que reduzem o apetite e a ingestão calórica. Com maior disseminação, isso poderia levar a uma desaceleração estrutural na demanda por alimentos ultraprocessados, snacks e bebidas alcoólicas, ainda que de forma gradual e heterogênea entre mercados.

O Goldman também ressalta que o ritmo dessa transformação depende diretamente de fatores como preço, acesso e adesão ao tratamento, variáveis que tendem a melhorar com o aumento da concorrência. Nesse sentido, o avanço de versões mais acessíveis é visto como um gatilho importante para que os efeitos extrapolem o nicho de alta renda e atinjam o consumo de massa.

No Brasil, esse movimento começa a ganhar tração. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro já figuram entre os produtos de maior crescimento no varejo farmacêutico, com impacto relevante sobre o ticket médio e a frequência de compras.

“Esse tipo de medicamento é uma tendência forte. Há pelo menos três ou quatro novos produtos que vão ser lançados nos próximos dois anos”, afirmou Sergio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), em entrevista recente à Capital Aberto. “Já está alterando [o mercado]. No último ano você tem um impacto visível desse tipo de produto na venda.”

Procuradas, as farmacêuticas Megalabs e Ávita não responderam aos pedidos de comentário. A Ambev, MBRF e SulAmérica também optaram por não se pronunciar a respeito de eventuais impactos em seus respectivos nichos de mercado.