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Prêmio de risco cai após falas de Trump, de olho em manutenção do fluxo global de petróleo

Amanda Meneses

O mercado reagiu positivamente às falas de Donald Trump sobre a intenção do Irã de negociar um acordo. O conflito entre os países dura pouco menos de um mês, com grandes impactos ao petróleo, dólar e o preço de ativos globais.

Com a expectativa de estabilização, ao menos temporária, os mercados passaram a subir. A expectativa é que o impasse sobre o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo, seja resolvido.

Com isso, o Ibovespa fechou a segunda-feira (23) em alta de 3,24%. Já o Nasdaq Composite subiu 1,38%, enquanto Dow Jones e S&P tiveram alta de 1,38% e 1,15%, respectivamente. O dólar recuou para R$ 5,24 (-1,29%), enquanto o petróleo caiu para US$ 96 o barril (-9,86%).

Para Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, a guerra deve perdurar, mas a pressão dos países na resolução da abertura do estreito de Ormuz deve ajudar. “Com esse entrave se resolvendo, a alta das bolsas deve seguir ocorrendo junto da queda do dólar”, comenta. 

As falas recentes de Trump foram interpretadas como sinal de possível contenção do conflito, o que reduziu temporariamente o prêmio de risco geopolítico embutido nos ativos, levando a um movimento típico de “risk-on”. 

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, pondera, no entanto, que a continuidade da alta das bolsas e da queda do dólar dependerá essencialmente da manutenção do fluxo global de petróleo sem interrupções físicas, da ausência de escalada militar direta e da acomodação do preço da energia.

“Caso haja bloqueio logístico ou ampliação do conflito, o mercado tende a recompor rapidamente posições defensivas”, diz Lima. 

Ainda segundo o analista, investidores institucionais seguem ajustando alocações de forma tática, reduzindo exposição líquida a risco em momentos de tensão e reforçando posições em ativos considerados porto seguro, como Treasuries e ouro, além de aumentar seletivamente exposição ao setor de energia como hedge natural.


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Narrativas divergentes

Inicialmente, o mercado tratou o conflito como um choque de curto prazo, mas agora está reconhecendo riscos estruturais. Apesar de Trump anunciar conversas com o Irã, autoridades iranianas negaram qualquer contato e alegam uma tentativa de manipular os mercados.

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“Isso revela confiança excessiva nos sinais dos EUA, impulsionada pelo medo de graves consequências econômicas — o Goldman Sachs estima que algumas economias do Golfo podem contrair 14% se o conflito continuar”, pontua Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners.

Na leitura de Isabella Hass, analista de mercado internacional da W1 Capital, o mercado reagiu positivamente não por uma solução definitiva, mas pela redução da iminência de um desastre energético. Dessa maneira, “qualquer movimento de alívio tende a ser passageiro”, diz.

A reação foi relativamente rápida, porque em momentos de tensão geopolítica qualquer indicação de descompressão tende a reduzir o prêmio de risco global, mas esse tipo de reação costuma ser sensível e, muitas vezes, transitória, porque depende diretamente da consistência dos desdobramentos políticos e diplomáticos.

“Se houver avanço concreto em direção a uma solução, esse movimento pode ganhar tração, mas se surgirem novos ruídos ou escaladas, a reversão tende a ser rápida. A possibilidade de uma resolução no curto prazo ainda é tratada com cautela”, opina Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest. 

O que mantém o otimismo é o interesse claro em evitar um conflito prolongado, mas o cenário segue dependente de fatores geopolíticos complexos. Nesse ambiente, investidores têm optado por cautela, buscando diversificação e liquidez, sem se “desfazer de ativos a qualquer preço”.

Patrus pontua que há uma migração parcial para ativos considerados mais seguros, mas, ao mesmo tempo, cresce o interesse por oportunidades em mercados que apresentam desconto e capacidade de recuperação.

“O capital não desaparece, ele se reposiciona. É nesse reposicionamento que surgem oportunidades relevantes, especialmente em empresas inovadoras, eficientes e com capacidade de escalar mesmo em ambientes adversos”, diz o executivo. 

A palavra de ordem para o mercado, especialmente os investidores institucionais, tem sido “cautela”. Isabella, da W1, diz que as estratégias têm sido a redução de Delta e o aumento de proteção via derivativos de volatilidade. 

“Ninguém quer estar posicionado 'no escuro' quando um tuíte pode derrubar ou disparar o petróleo em 5% em minutos. Há uma redução tática na exposição em mercados emergentes, como o Brasil, até que a volatilidade das commodities estabilize”, pontua.