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Mercado vê início do ciclo de queda da Selic, mas guerra no Oriente Médio traz cautela

Victor Aguiar

Às vésperas da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom), as expectativas do mercado são menos sobre se o ciclo de cortes da Selic vai se iniciar, e mais sobre a intensidade do primeiro movimento. Após um longo período com a taxa em nível elevado (atualmente em 15% ao ano), especialistas avaliam que há espaço para o início de uma maior flexibilização, mesmo com o cenário internacional conturbado introduzindo novos elementos de cautela, em meio à escalada de tensões no Oriente Médio e seus efeitos sobre petróleo, câmbio e inflação.

Entre os analistas consultados pela Capital Aberto, a expectativa predominante é de um primeiro corte moderado, provavelmente de 0,50 ponto percentual, ainda que parte do mercado considere a possibilidade de um movimento menor ou até mesmo de manutenção da taxa diante do ambiente externo mais incerto. Dados recentes de atividade econômica e inflação também entram no radar da autoridade monetária.

A previsão também é corroborada por uma pesquisa da XP realizada com gestores de fundos multimercados no começo deste mês, que mostra que 74% dos participantes esperam um corte nesse nível na próxima reunião, enquanto 22% projetam uma redução menor, de 0,25 ponto. Apenas 4% veem manutenção da taxa no atual patamar.

Apesar da expectativa predominante de início do ciclo de cortes, o levantamento indica que o ambiente global mais incerto já começa a influenciar as projeções de política monetária. Ainda segundo o relatório, houve elevação nas estimativas para a Selic ao fim de 2026, refletindo um cenário externo mais volátil e o risco de choques ligados a commodities e energia.

Para Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, o cenário-base ainda aponta para o início do processo de ajuste da política monetária já nesta reunião. “Nossa expectativa é de um corte de 50 pontos-base na taxa Selic”, afirma. “No entanto, não descartamos a possibilidade de o Banco Central adotar uma postura mais conservadora diante dos riscos provenientes do cenário externo e iniciar a calibragem com um corte de menor magnitude.”


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Segundo o economista, a condução da política monetária nos últimos anos foi marcada por etapas bem definidas. O Banco Central primeiro promoveu um ciclo de aperto até atingir um nível elevado de restrição, depois manteve a taxa por um período prolongado para avaliar seus efeitos e agora sinaliza a possibilidade de iniciar uma calibragem, ainda mantendo os juros em patamar restritivo.

Mesmo assim, o cenário recente traz desafios adicionais para a decisão do Copom. Vital destaca que os dados econômicos divulgados desde a última reunião trouxeram sinais mistos: enquanto indicadores de atividade e emprego ainda mostram resiliência, a inflação corrente surpreendeu negativamente.

“O IPCA-15 de fevereiro surpreendeu para cima, com alta de 0,84%, ante expectativa de 0,56% e pressões disseminadas entre diversos itens. O IPCA do mês confirmou essa leitura, com alta de 0,70% ante expectativa de 0,61%, com abertura bastante negativa”, afirma.

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Além dos fatores domésticos, o ambiente externo voltou a ganhar peso na avaliação do mercado. A escalada do conflito no Oriente Médio provocou aumento nas cotações do petróleo e fortalecimento do dólar, ampliando as incertezas sobre o cenário inflacionário global.

Segundo estimativas da Warren, um cenário com dólar a R$ 5,40 e petróleo a US$ 90 por barril poderia adicionar cerca de 70 pontos-base à inflação de 2026. Esse ambiente também levou a ajustes nas expectativas do mercado para a próxima decisão do Copom. “A curva que chegou a precificar 49 bps para a reunião de março, agora indica cerca de 36 bps”, afirma Vital.

Apesar disso, parte dos analistas avalia que o nível atual da Selic ainda oferece margem para o início do ciclo de flexibilização. Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, a taxa permanece suficientemente restritiva para permitir uma redução inicial sem comprometer a convergência da inflação para a meta.

“Em nosso cenário-base, avaliamos que há espaço para um corte de 0,50 p.p. na taxa Selic, marcando o início do ciclo de flexibilização monetária no Brasil”, afirma. Segundo ele, o aperto monetário implementado nos últimos anos criou uma margem de segurança relevante para que o Banco Central comece a reduzir os juros.

Sung também aponta que os dados mais recentes indicam uma moderação gradual da atividade econômica, com a economia caminhando para um ritmo mais equilibrado. Ao mesmo tempo, o processo de desinflação continua, embora de forma “heterogênea” entre os diferentes componentes do índice de preços.

“Mesmo assim, o Banco Central pode optar por iniciar o ciclo de flexibilização de forma mais cautelosa, com uma redução de 0,25 p.p. nesta primeira reunião, diante da volatilidade recente do cenário internacional”, acrescenta.

Também na avaliação de Leonardo Andreoli, especialista em investimentos da Hike Capital, a reunião deve marcar o início da queda dos juros, ainda que de forma gradual. “A nossa leitura é de um corte moderado, entre 0,25 p.p. e 0,50 p.p.”, afirma.

Para Andreoli, o cenário doméstico ajuda a sustentar essa perspectiva. “O cenário que sustenta essa expectativa é a desaceleração recente da inflação, que caiu para 3,81% em 12 meses, ao mesmo tempo em que a atividade doméstica segue relativamente fraca e os juros reais permanecem elevados.”

Mesmo com esses fatores, o especialista destaca que o comunicado do Copom deve manter um tom prudente. “O Copom tende a manter um tom prudente no comunicado, principalmente por causa das incertezas externas  e pela persistência de pressões inflacionárias em alguns componentes de serviços.”

Há também quem considere a possibilidade de uma decisão mais conservadora por parte da autoridade monetária. Para Adenauer Rockenmeyer, conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), o cenário geopolítico global pode justificar a manutenção da taxa básica nesta reunião.

“As expectativas em relação à taxa Selic para a próxima reunião do Copom consideram o cenário econômico atual e os riscos geopolíticos, influenciados, em parte, pelo conflito no Irã e pelas questões relacionadas aos custos dos combustíveis. Diante disso, a manutenção da taxa Selic é uma possibilidade”, afirmou em análise.