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Itaú BBA vê cautela global por petróleo e guerra e maiores riscos inflacionários

Victor Aguiar

Pedro Schneider, vice-presidente sênior de pesquisa econômica do Itaú BBA
Pedro Schneider, vice-presidente sênior de pesquisa econômica do Itaú BBA

A escalada das tensões no Oriente Médio e seus desdobramentos são o principal tópico no cenário macroeconômico global. Suas implicações diretas vão desde impactos na inflação, quanto na política monetária e na atividade econômica.

No momento, o olhar do mercado está voltando para um único ponto: o Estreito de Ormuz. O fechamento do canal pelo qual transitam cerca de 20% da produção global de petróleo, é o que tem sustentado a alta dos preços da commodity.

“Na prática, está fechado. O que é importante para o mercado é monitorar se vai ser reaberto. Se não tem novidade, se continua fechado, o preço continua subindo”, afirmou Pedro Schneider, vice-presidente sênior de pesquisa econômica do Itaú BBA.

A leitura predominante é de assimetria altista para o petróleo no curto prazo. “Para voltar para baixo de 100 [dólares por barril], precisa ter uma solução definitiva para a guerra, que não parece que virá no curtíssimo prazo”, acrescentou Schneider.

A expectativa, contudo, ainda é de um choque temporário, embora com duração suficiente para influenciar decisões de política monetária. Historicamente, choques persistentes de petróleo levaram bancos centrais a elevar juros. “Quando o petróleo sobe e fica, os bancos centrais sobem os juros também”, disse. 

Diante disso, a avaliação é de que autoridades monetárias globais devem adotar postura mais cautelosa no curto prazo, especialmente em um ambiente em que a inflação já se encontra acima das metas em diversas economias avançadas.

Brasil e câmbio

Já no mercado de câmbio, apesar do aumento da aversão a risco, o real tem mostrado resiliência relativa. Segundo Julia Gottlieb, economista do Itaú BBA, a moeda brasileira “tem se comportado bastante bem”, sustentada por termos de troca favoráveis e pelo diferencial de juros ainda elevado.

No cenário nacional, os sinais são de desaceleração da atividade econômica. O PIB do quarto trimestre de 2025 confirmou a perda de fôlego, puxada por componentes mais cíclicos, segundo os economistas. 

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Indicadores de alta frequência sugerem início de ano ainda positivo, mas com leitura prejudicada por efeitos sazonais. “A gente vê aí uma economia que está desacelerando”, disse Priscilla Burity, economista do Itaú BBA.

Para o restante do ano, a projeção é de crescimento em torno de 1,9%, com possibilidade de viés altista diante de estímulos fiscais adicionais, estimados em até 0,4 ponto percentual do PIB. O mercado de trabalho segue resiliente, com taxa de desemprego próxima às mínimas históricas.

Do ponto de vista da inflação, o índice segue comportado, pelo menos por enquanto. Contudo, o preço dos combustíveis está, mais do que nunca, no radar do mercado dado seu poder de “incendiar” os indicadores de preços.

“Cada 10% de gasolina são 20 bips a mais de IPCA”, afirma Priscilla. Segundo a economista, embora o diesel tenha menor peso direto, gera efeitos indiretos relevantes ao longo da cadeia.

Há, ainda, riscos adicionais no horizonte, como o encarecimento de fertilizantes em caso de prolongamento do conflito, com impacto potencial sobre a inflação de alimentos a partir de 2027.

Decisão do Copom

“É um ciclo em que eu estou começando restritivo e eu quero terminar restritivo também”, afirmou Priscilla, ao interpretar a sinalização da autoridade monetária. O ritmo dos próximos cortes, entre 25 e 50 pontos-base, dependerá da evolução do cenário externo.

As projeções do Itaú BBA indicam Selic em 12,25% ao fim de 2026 e em 11,25% ao fim de 2027. As expectativas de inflação seguem relativamente ancoradas no curto prazo, mas com sinais de pressão nas métricas implícitas, elevando o risco de desancoragem em caso de choques persistentes.

No campo fiscal, a avaliação é que o choque do petróleo não representa solução estrutural para o desequilíbrio das contas públicas. “Para resolver o fiscal, precisa ter controle de despesa”, afirmou Schneider.

Embora a alta da commodity eleve receitas, como royalties e dividendos, medidas compensatórias adotadas pelos governos tendem a neutralizar esse efeito.

Ainda segundo ele, “não tem nada mais permanente do que uma política temporária de governo”, o que pode ampliar pressões sobre o gasto público. A leitura é que o principal desafio segue sendo estrutural, com necessidade de ajuste de despesas para garantir a estabilização da dívida no médio prazo.