Contas públicas têm melhora, mas juros elevados mantêm pressão sobre dívida

A deterioração das contas públicas segue no radar do mercado em 2026, em um ambiente ainda marcado por déficit primário, custo elevado da dívida e avanço do endividamento.
Dados divulgados pelo Banco Central nesta terça-feira (31) revelaram que o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 16,4 bilhões em fevereiro, ante resultado negativo de R$ 19 bilhões no mesmo mês de 2025.
O resultado foi composto pelo déficit de R$ 29,5 bilhões do governo central e de R$ 568 milhões das empresas estatais, parcialmente compensados pelo superávit de R$ 13,7 bilhões dos governos regionais.
No acumulado de 12 meses, o déficit soma R$ 52,8 bilhões, equivalente a 0,41% do PIB. Na comparação anual, houve melhora: “observou-se uma melhora de R$ 2,6 bilhões no desempenho primário”, diz Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.
Apesar do alívio na margem, o quadro fiscal segue pressionado pelas despesas com juros. Em fevereiro, os juros nominais somaram R$ 84,2 bilhões. No acumulado em 12 meses, atingiram R$ 1,036 trilhão, cerca de 8,07% do PIB. Segundo Salto, o avanço reflete “a expansão do endividamento líquido, do patamar elevado da Selic e da evolução do IPCA”.
Com isso, o déficit nominal, que inclui o resultado primário e os juros, chegou a R$ 100,6 bilhões no mês e a 8,48% do PIB em 12 meses. A dinâmica contribuiu para a elevação da dívida líquida do setor público, que atingiu 65,5% do PIB, enquanto a dívida bruta do governo geral avançou para 79,2% do PIB.
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Cenário segue desafiador
Na avaliação de Rafael Perez, economista da Suno Research, o cenário segue desafiador. “Os indicadores fiscais de 2026 seguem apontando para um quadro desafiador, marcado pela combinação de resultado primário negativo, elevado custo da dívida e avanço do endividamento público”, afirma.
Para ele, “o cenário fiscal brasileiro ainda permanece distante da consolidação necessária para estabilizar a trajetória da dívida pública”.
Perez projeta déficit de R$ 79,5 bilhões em 2026, equivalente a 0,6% do PIB, e avalia que, mesmo com o cumprimento da meta, o esforço deve ser insuficiente para conter a alta da dívida, estimada em 83,3% do PIB.
A leitura de Odilon Guedes, conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon), é distinta, e tem ênfase no peso dos juros sobre a dinâmica fiscal. Para ele, “o grande problema é a taxa de juros”, responsável pela elevação do déficit nominal mesmo com controle do resultado primário. Guedes pondera, ainda, que “o déficit primário está sendo controlado”, mas que o nominal “aumenta brutalmente porque você tem uma taxa de juros absurda”.
Na mesma linha, o especialista do Cofecon afirma que “a dívida pública brasileira cresce fundamentalmente por causa da taxa de juros” e defende que o tema seja mais explorado no debate público.
Para ele, o nível de endividamento não representa, por si só, um descontrole. “Ela está bem menor do que a dos Estados Unidos, do Japão e dos países da Europa. No meu entender, ela está sob controle.” Apesar da leitura mais positiva, o custo da dívida segue como principal fator de pressão sobre as contas públicas, mantendo o tema fiscal no centro das atenções do mercado.


