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Base do Tesouro Renda+ cresce 31% em 2025 e levanta debate sobre efeitos na previdência privada

Victor Aguiar

O título público Tesouro Renda+, voltado à geração de renda complementar na aposentadoria, vem ampliando consistentemente sua base de investidores e, no processo, levantando discussões sobre possíveis impactos para a indústria de previdência privada. Dados da B3 mostram que o papel encerrou o ano de 2025 com 365,8 mil CPFs com posição, crescimento de 31,25% em relação ao ano anterior.

Criado pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3 e a Secretaria de Previdência, o Renda+ permite ao investidor definir uma data para aposentadoria e, a partir dela, receber uma renda mensal por 20 anos. Os valores são corrigidos pela inflação, a fim de preservar o poder de compra ao longo do tempo.

O avanço do produto ocorre em um contexto de busca por alternativas de longo prazo com custos mais baixos e maior previsibilidade de retorno. Para Gabriel Santos, head de research da Bloxs, o instrumento funciona, na prática, como uma forma simplificada de previdência privada dentro da estrutura de um título público.

Segundo ele, o papel oferece taxas atrativas e um fluxo de renda previsível ao investidor. “Você investe ali, já é um título que oferece taxas bem atrativas, perto de IPCA+6, IPCA+7, e você tem o recebimento desse investimento no futuro como se fosse uma renda mensal”, afirma.

Na avaliação do especialista, a presença de um instrumento com essas características pode pressionar parte da indústria de previdência privada a entregar retornos mais elevados ou justificar melhor seus custos. “O que vamos ver na indústria de previdência privada é como se fosse uma obrigatoriedade de busca de alfa”, diz.

Ele argumenta que fundos de previdência podem precisar ampliar a exposição a ativos mais arriscados para manter competitividade frente ao título público. “É um setor que vai precisar entregar uma rentabilidade maior do que o Renda+ para que façam sentido tanto as taxas de administração como algumas outras”, complementa.

Ainda assim, Santos observa que os planos de previdência seguem contando com diferenciais importantes, especialmente no campo sucessório. “A previdência privada normalmente cai para os beneficiários de forma muito mais automática e rápida”, afirmou, acrescentando que o Renda+ tende a passar por processos de inventário.


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Apesar do crescimento do título público, os especialistas consultados pela Capital Aberto entendem que o impacto estrutural sobre a previdência privada ainda é limitado. Para Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, o volume movimentado pelo produto segue pequeno quando comparado ao tamanho do setor.

“Se você olhar em relação ao último ano, 2025, a captação de Renda+ cresceu em torno de 150%. Esse número parece e é relevante, mas quando você olha para a indústria de previdência privada, que gira em torno de R$ 1,7 trilhão, é um número ainda muito tímido”, afirma.

Segundo ele, por enquanto o principal efeito do título tem sido atrair um perfil de investidor que tradicionalmente não era plenamente capturado pelos planos de previdência. “Esse produto tem capturado um perfil de investidor que a previdência deveria capturar e não está capturando, que é o jovem entre 25 e 44 anos”, diz.

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Novais avalia que a concorrência entre os instrumentos até existe, mas de forma ainda segmentada. Ele cita como exemplo investidores que utilizam planos VGBL sem benefícios fiscais relevantes. “Quando você pega, por exemplo, o VGBL, que não tem nenhum benefício fiscal, que é aquele investidor que costuma declarar imposto de renda de forma simplificada e está num fundo de previdência caro, esse investidor tende e tem uma vantagem em migrar para o Renda+.”

Já no caso do PGBL, que permite dedução de até 12% da renda tributável na declaração completa, o incentivo permanece relevante. “Já o investidor que utiliza o PGBL, que usa ali para dedução de imposto de renda de até 12% da renda tributável anual, esse já não tem um benefício em sair de uma previdência PGBL para ir para o Tesouro Renda+”, pondera Novais.

Outra diferença relevante, segundo o especialista, está na sucessão patrimonial. “Tanto o PGBL quanto o VGBL têm um benefício adicional que é a questão do planejamento sucessório, que o Tesouro Renda+ não tem.”

O crescimento do produto também levanta questionamentos sobre possíveis efeitos indiretos no mercado de capitais. A indústria de previdência privada é uma importante compradora de crédito privado no país, incluindo debêntures e títulos ligados a projetos de infraestrutura.

Para Novais, uma eventual migração mais significativa de recursos poderia afetar essa dinâmica no longo prazo. “O Renda+ vai direcionar o público muito para o título público e não para o setor privado”, afirma. “Um eventual desvio de fluxo do crédito privado pode sim ocorrer, no futuro, se o Renda+ continuar crescendo nessa medida a médio prazo”, complementa, afirmando que tal deslocamento teria impacto principalmente na indústria de crédito privado e nos spreads.

Mesmo assim, ele ressalta que esse cenário ainda é hipotético. “Não é um efeito imediato. É um efeito que para médio prazo que podemos ter na indústria, mas não por agora.”

Na visão das seguradoras, a tendência é que o novo título público funcione mais como complemento do que substituto dos planos de previdência. Para Talita Raupp, superintendente de produtos de previdência da Icatu Seguros, ainda não há evidências de impacto relevante nos fluxos do setor.

“Entendemos que o mercado ainda não sente diretamente os efeitos do Renda+”, afirma. Segundo ela, desde o lançamento do produto, em 2023, as reservas da previdência aberta cresceram de forma consistente. “Desde 2023, ano de lançamento do Tesouro Renda+, as reservas da previdência aberta cresceram 48%.”

Na avaliação da executiva, os instrumentos possuem características distintas e podem coexistir dentro de uma estratégia de planejamento financeiro. “Acreditamos que os produtos se complementam, não se substituem”, diz.

Ela acrescenta que o avanço de soluções voltadas à aposentadoria pode ajudar a ampliar a cultura de poupança no país. “Quanto mais soluções que estimulem o brasileiro a pensar no futuro financeiro, maior a probabilidade de engajamento progressivo”, afirma.

Esse potencial de expansão é reforçado pelo baixo alcance atual da previdência complementar no Brasil. Segundo Talita, cerca de 11 milhões de brasileiros possuem planos, o equivalente a aproximadamente 5% da população. O número é superior à base atual do Renda+, que permanece abaixo de 400 mil investidores, apesar do crescimento recente.

Nesse contexto, a executiva avalia que o crescimento de diferentes instrumentos de longo prazo tende a fortalecer o ecossistema de poupança previdenciária no país. “Mais do que uma disputa entre produtos, vemos uma oportunidade de avanço na conscientização sobre planejamento financeiro e longevidade.”