Regulação impulsiona fundos sustentáveis e atrai investidor institucional
Os fundos de investimentos sustentáveis (IS) têm conquistado um espaço importante na estratégia das assets e nas carteiras dos investidores, na esteira de avanços regulatórios locais importantes, como a CVM 175, a partir de 2023, e de uma pressão global por práticas empresariais socioambientalmente sustentáveis. Perto do volume movimentado pela indústria de fundos, de R$ 10,7 trilhões, os produtos rotulados como sustentáveis ainda são pouco representativos, porém com um crescimento relevante nos últimos anos. O Patrimônio Líquido (PL) dos fundos IS saltou de R$ 7,5 bilhões, em 2023, para R$ 44,5 bilhões em dezembro passado. Em número de fundos, segundo dados da Anbima, o avanço na mesma base de comparação foi de 93 para 198. A criação recente de uma taxonomia brasileira e a entrada em vigor do novo padrão contábil IFRS S1 e S2, a partir de 2027, devem reforçar o crescimento dos produtos sustentáveis.
“Claro que, quando comparamos com o PL da indústria como um todo, a participação (fundo IS) é pequena, mas vem ganhando espaço. Quando comparamos com outras categorias que existem há muito mais tempo do que os fundos IS, como ETFs ou FIPs, o produto tem um bom ritmo de crescimento”, comenta Carlos Takahashi (Cacá), diretor da Anbima. A participação relativa dos fundos IS na indústria de fundos como um todo, em termos de PL, saltou de 0,09%, em 2023, para 0,41% - avanço de 355%. Mesmo nos fundos Relacionados - que integram aspectos ESG – o avanço foi importante, com o PL triplicando desde 2023, para R$ 12,9 bilhões.
Aprenda o que muda na estruturação e operação de negócios de cripto sob a RBCB 519, 520 e 521 no curso “REGULAÇÃO DAS PSAVs“
O tema sustentabilidade deve continuar ganhando espaço na estratégia das assets e bancos, segundo pesquisa Retrato da Sustentabilidade no Mercado de Capitais de 2025, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha. A pesquisa revela que duas em cada três instituições (68%) acreditam que a sustentabilidade ganhará muito mais ou um pouco mais de relevância nos próximos 12 meses, ao passo que 28% acreditam que a importância não vai mudar e apenas 3% creem que o tema perderá um pouco de importância na instituição. Há também planos de ampliar, segundo a pesquisa, a gestão de fundos sustentáveis, resposta dada por uma em cada três instituições (33%). A maior parte das gestoras ouvidas (78%) considera o impacto das questões ESG na hora de tomar decisões de investimento, um percentual elevado, porém menor do que na pesquisa anterior, de 2018.
“Tem dois lados desta indústria. As assets ligadas a grandes bancos, que representam 70% deste mercado, continuaram lançando produtos nos últimos anos. São casas com elevado nível de maturidade no tema ESG. Do outro lado, temos casas mais nichadas neste tipo de produto, crescendo de uma forma consistente”, comenta Cacá, acrescentando que o lançamento de ativos na renda fixa, como CRI e CRAs sustentáveis, assim como a presença de recursos do BNDES e estruturas de blended finance, ajudam a compor o ecossistema de ativos sustentáveis para as carteiras.“ Para acelerar este crescimento, não tem bala de prata, é preciso um conjunto de ações coordenadas. A taxonomia ajuda, a educação do investidor, assim como a agenda de infraestrutura do país que pede iniciativas sustentáveis. Tudo isto pode ajudar em um novo ciclo.”

PUBLICIDADE
A Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB), do final de 2025, que define quais atividades econômicas, projetos e ativos são considerados ambientalmente e socialmente sustentáveis, também foi citada por Yara Formigoni, analista Financeiro ESG da Bradesco Asset, casa com R$ 1,5 bi alocado em fundos IS em dezembro de 2025, crescimento de 50% sobre igual período do ano anterior. “A partir do momento em que há uma taxonomia clara, ajuda no desenvolvimento das iniciativas ESG e no enquadramento dos produtos. Isto facilita o fluxo financeiro, o investidor estrangeiro vai conseguir entender automaticamente que aquilo tem um impacto ambiental positivo, o que é um grande diferencial”, comenta Yara, acrescentando que há um caminho importante para atingir a taxonomia, que é o disclosure das companhias. “É necessário que haja informações mais robustas das companhias para entender se a atividade dela ou uma parte está enquadrada. Neste sentido, o IFRS1 e S2, a partir de 2027, também ajuda.”
Na visão da executiva da Bradesco Asset, o avanço dos últimos anos em fundos IS também se deu fruto do aperfeiçoamento regulatório e da autorregulação. Yara Formigoni cita o novo marco de fundos, a CVM 175, de 2023, que deu um prazo para os fundos se adaptarem e se intitularem IS. “Os fundos estavam no limbo e foram se adaptando à 175 e validados pela Anbima, com o guia de autorregulação. O mercado passou a ter segurança para testar e lançar novos fundos IS.”
Na Bradesco Asset, destaca a executiva, todos os ativos, sejam de renda variável ou fixa, passam pelo crivo ESG. “Temos a parte de integração, que é muito forte, faz parte do dever fiduciário. Outra iniciativa da asset é buscar ou promover o engajamento das empresas para que melhorem seus informes e práticas. Identificamos empresas com potencial, mas o disclosure é baixo, a gente sabe que vai trazendo benchmarks para que possa enriquecer, porque acreditamos nisto.”
O primeiro fundo sustentável do Bradesco é de 2007, voltado à Sustentabilidade Empresarial. Ao todo, a asset tem 19 fundos IS no Brasil, a ampla maioria de Renda Fixa e cerca de 10% a 15% de Renda Variável. Em relação ao público que investe em fundos IS, Yara destaca o crescimento do investidor institucional e o private. Outro destaque na Bradesco Asset é a oferta de fundos IS offshore com perto de US$ 400 milhões distribuídos na Europa, desenhados para a regulação europeia.
Na BB Asset, casa com R$ 13,5 bilhões alocados em fundos IS, o crescimento desta vertical tem sido muito expressivo. Um ano antes (dez/24), o PL deste tipo de fundo estava em R$ 4 bilhões. Na visão de Daphne Breyer, head de Sustentabilidade da BB Asset, a CVM 175 ajudou no amadurecimento da indústria ao formalizar os pré-requisitos para os fundos sustentáveis. “Teve um tempo de adaptação das gestoras. Na BB Asset, contudo, todos os fundos sustentáveis migraram para IS sem qualquer alteração porque nossos processos de governança eram muito robustos”, comenta a executiva, acrescentando que a isto se soma a taxonomia lançada em 2025 e que agora as empresas precisam se adaptar. A casa também avalia todos os ativos, sejam de renda variável ou renda fixa, com critérios ESG, para compor a carteira dos demais fundos.
Ao todo, a BB Asset tem 29 fundos IS distribuídos em 14 estratégias oferecidas para um público amplo, que inclui varejo, private, institucional, e fundos exclusivos. Até 2030, a meta é chegar a R$ 30 bilhões alocados em fundos IS. “É o compromisso da agenda do BB e a gente tem trabalhado para oferecer cada vez mais produtos aos investidores, alinhado à pauta de sustentabilidade. A meta é viável, temos produtos que entregam performance com sustentabilidade, propósito”, comenta Daphne, acrescentando que na asset do BB também têm sido registrados um interesse crescente dos investidores institucionais.


