Bitcoin e dólar sofrem com Trump, enquanto ouro deve voltar à alta
A correlação dinâmica histórica entre ativos tradicionais, conhecidas reservas de valor no mercado, como ouro e dólar, com o ouro digital, o Bitcoin, tem mudado ao longo dos anos. Essa relação tem ganhado uma nova dinâmica, especialmente diante da ascensão de Donald Trump ao seu segundo mandato e após o “dia da libertação”. Apesar da maior institucionalização do Bitcoin e sua crescente correlação com mercados tradicionais, os três ativos caminham em trajetórias distintas por um mesmo motivo: as políticas agressivas norte-americanas. Os próximos movimentos são incertos, mas com uma política monetária mais flexível do Fed a caminho e o atual cenário geopolítico, a tendência é que ouro siga em valorização, mesmo com o recente repique, enquanto dólar deve seguir em queda.
O governo Trump 2.0 tem se caracterizado por volatilidade e políticas agressivas, como as tarifas sobre importações dos EUA, o que gerou desvalorização do dólar e uma forte apreciação do ouro. Já para o Bitcoin, embora o republicano seja pró-cripto, por outro lado, suas ações acabam por afetar os ativos digitais negativamente. Desde o chamado "Dia da Libertação", em abril de 2025, até quarta-feira (11), o BTC acumulava queda de 25,22%, enquanto Dólar Ptax tem desempenho negativo de 8,61% e o Ouro acumula ganhos de 58,89%, segundo a Elos Ayta Consultoria.
“Não sei se essa correlação entre os ativos diminuiu. O ponto é que confirma a perda de valor do dólar em relação a outros ativos, ouro e bitcoin. E isso dá para atribuir claramente ao Trump. Em segundo lugar, acho que o destaque é que a mudança é mais firme no ouro do que no Bitcoin”, diz José Francisco Lima Gonçalves, mestre e doutor em economia, complementando que o Bitcoin era visto como uma reserva segura, porque não depende do governo, assim como o ouro, mas tem sofrido oscilação, inclusive, para baixo. “Até mais que o ouro, que caiu recentemente, mas muito menos que o Bitcoin vem caindo desde o auge. O ponto é que o grau de desconfiança bate até em ativos que não deveriam sofrer com isso. É um sinal de que a incerteza que ele tem causado é muito forte.”
Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, destaca que Trump 2.0 tem se caracterizado por medidas com o objetivo de desvalorizar o dólar frente às outras moedas, com o objetivo de tornar os produtos americanos mais atrativos para o resto do mundo, em termos de preço. Medidas para manipular ligeiramente a taxa de juros futura e outras para incentivar a indústria local subsidiando segmentos não tão competitivos como a indústria automobilística geram a desvalorização da moeda americana. “Ela fica bem mais desvalorizada, coisa que temos visto, em mínimas históricas. Vimos isso acontecer nas últimas semanas, e deve seguir dessa mesma forma nos próximos meses, na minha opinião”, diz. O ouro, por sua vez, tem sido a estrela do momento. Apesar da queda momentânea, o ativo tem acumulado recordes nos últimos tempos. Já o ouro digital não tem sofrido a mesma bonança recentemente.
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O Bitcoin, relativamente mais novo no mercado, apenas 17 anos, nasceu como um ativo desvinculado do mercado tradicional, mas conforme ele evoluía, essa correlação também. A partir do início de 2024, quando ocorreu o lançamento dos ETFs de cripto, esse movimento recebeu mais uma guinada com a entrada dos investidores institucionais. “Essa correlação em cripto é muito interessante, porque isso vem evoluindo muito ao longo do tempo. O ponto é que o mercado cripto era muito descorrelacionado do mercado financeiro tradicional. Justamente, porque cripto era uma tecnologia nova. Conforme fomos nos aproximando de 2024 e juntando mais ao mercado financeiro tradicional, institucionais, governos, agora sim começa a ficar mais correlacionado com ativos de risco”, conta Rony Szuster, head de Research do Mercado Bitcoin.

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A narrativa de um bitcoin como reserva de valor ganhou mais atenção do mercado, o que explica a alta da moeda digital em um intervalo mais longo de tempo. Szuster pontua que embora o Bitcoin não gere caixa como as reservas de valor tradicionais, ele tende a se valorizar no longo prazo, como o ouro. “O bitcoin apesar de estar caindo nos últimos tempos, se olharmos um período de tempo maior que 5 anos, veremos uma valorização gigantesca. Tem essa narrativa incrível de que o Bitcoin é a próxima reserva de valor, mas o mercado ainda precifica o Bitcoin como um ativo de risco. Por isso vemos o Bitcoin muito correlacionado com bolsas, por exemplo”, diz.
Viotto, da EQI, destaca que o que tem acontecido é que o Bitcoin está cada dia mais ligado à volatilidade das empresas de tecnologia, por diversos fatores, o que explica a recente queda do ativo, dada a desvalorização dessas ações na última semana, por exemplo. “No dólar, a tendência é de queda, a não ser que tenha algum acontecimento geopolítico inesperado ou consequências”, opina o analista, contando que se houver um cenário de eleição muito de “extremos”, pode ter uma volatilidade acima do esperado e o dólar pode testar de R$ 5,50 até quase R$ 6, apesar de não ser o cenário-base.
Para os especialistas, “Trump 2 é mais violento que Trump 1”, no entanto, é difícil determinar se a tendência é de aumento da correlação desses ativos ou não. Gonçalves lembra que o próximo evento relevante, e que deve afetar essa dinâmica, é a eleição em novembro. “Se o Trump vai mal na eleição, o que acontece? O dólar ganha porque o Trump perde ou o dólar perde porque se espera uma reação forte do Trump? O mercado vai olhar para a derrota como mais força para o Fed e, portanto, para o dólar, ou vai olhar como um detonador de alguma atitude do Trump que prejudique o dólar de novo? É difícil dizer qual das duas vai ter mais”, diz.
Já para o Bitcoin, o que tem ditado o tom, consequentemente essa correlação, é como o mercado tem visto a moeda digital, e neste momento, está avaliando a tese do Bitcoin como ativo de risco. “Por exemplo, linkando mais ainda com a macroeconomia, ativos de risco tendem a se beneficiar quando o juro cai. Estamos falando do juro americano, basicamente, o mais importante do mundo, mas, óbvio, se cair o juro chinês, o juro japonês, também afeta um pouco cripto”, aponta Szuster.
Fatores como a discussão sobre a independência do Fed, diante de processos movidos contra membros do colegiado e até do chairman da entidade, além das políticas internacionais de Trump, afetam não apenas ações e fundos de investimentos como o próprio Bitcoin. Se por um lado medidas como trocar o presidente da SEC por um executivo pró-cripto e fazer a pauta avançar trouxeram altas significativas para o segmento, por outro, a volatilidade causada por Trump afeta negativamente. Na visão de Szuster, a ascensão de Trump tem relação direta com essa mudança regulatória para o mercado cripto, “mas isso não quer dizer que a entrada dele foi só positiva para a cripto”. “Ele tem justamente esse outro lado, do ponto de vista de geopolítica, de macroeconomia, muito ruim mesmo, e o impacto para cripto também”, diz. Para o executivo, o bitcoin tem sofrido porque o impacto positivo do movimento pró-cripto foi precificado de antemão pelo mercado, mas o saldo negativo tem impactado com mais força. No entanto, o saldo ainda é positivo ao olhar o preço em um horizonte de dois anos, por exemplo.
“Via muito só o impacto do juro e da economia americanos no preço do Bitcoin nos últimos meses, mas vemos uma diferença agora, com impactos de outras economias, como todo o estresse do carry trade do Japão. Isso mostra que, no final das contas, o investidor vai buscar fugir para reservas de valor. Por enquanto, as que estão ganhando são ouro, prata e commodities, e faz sentido ser”, afirma Szuster, acrescentando que os investidores estão começando a ver, principalmente os institucionais, “que o Bitcoin está cada vez mais comendo pelas beiradas.”
