Queda de Maduro impulsiona ativos de proteção, mas bolsas globais avançam

A destituição do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, impulsionou os ativos de proteção nesta segunda-feira (5). O ouro à vista avançou mais de 2%, superando US$ 4.430 por onça, enquanto o dólar atingiu o nível mais forte em duas semanas e o rendimento dos Treasuries de dez anos recuou dois pontos-base, para 4,17%.
Ao mesmo tempo, os mercados globais de ações operaram em alta, com empresas do setor de energia — potenciais beneficiárias do novo cenário — entre os destaques positivos, além de uma nova valorização das ações de tecnologia. O petróleo Brent ficou praticamente estável, em torno de US$ 60 o barril.
Houve tensão nos mercados latino-americanos. O peso mexicano foi a moeda de pior desempenho entre as principais, com queda de 0,7% frente ao dólar, depois que o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos “terão de fazer algo” em relação ao fluxo de drogas provenientes do país. Investidores também acompanham o peso colombiano, após Trump dizer que o líder do país precisa “se cuidar”.
Os títulos da dívida venezuelana tendem a se valorizar. Papéis em default do governo e da estatal petrolífera PDVSA mais do que dobraram de preço nos últimos meses, sendo negociados entre 23 e 33 centavos por dólar. Uma eventual reestruturação da dívida pode sustentar novos avanços.
O principal regulador financeiro da China solicitou que bancos de fomento e grandes instituições financeiras informem sua exposição de crédito à Venezuela, parceira de longa data em projetos de energia e infraestrutura, segundo fontes familiarizadas com o assunto.
Bolsas avançam após ofensiva contra Maduro
Os mercados globais de ações, em grande medida, absorveram com tranquilidade a ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela.
Longe de sinalizar estresse após a captura de Nicolás Maduro por Washington, as bolsas avançaram na Ásia e na Europa nesta segunda-feira, com os mercados emergentes a caminho de uma máxima histórica. Os futuros de Wall Street também subiram.

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Há diversos exemplos recentes de investidores ignorando manchetes de choque. As ações globais avançaram nos dias seguintes a ataques dos Estados Unidos no ano passado contra Iraque, Iêmen, Irã e Síria. O estrategista do Deutsche Bank Jim Reid observa que, quando as tensões entre Israel e Irã se intensificaram em abril e outubro de 2024, as quedas iniciais foram rapidamente revertidas.
Segundo Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo Markets, em Cingapura, a reação tende a ser limitada quando não há impacto imediato sobre a demanda global, as cadeias de suprimento ou as condições financeiras.
“Os investidores também aprenderam que eventos isolados costumam gerar picos de volatilidade, mas não necessariamente revisões duradouras de lucros, a menos que haja uma escalada mais ampla ou efeitos de política econômica”, afirmou Chanana.
No momento, operadores concentram-se nas empresas que podem se beneficiar do novo cenário. As ações da Chevron — a única grande petroleira americana em operação na Venezuela — chegaram a subir até 10% no pré-mercado. ConocoPhillips e Exxon Mobil também avançaram.
De forma mais ampla, “os investidores continuam mais atentos ao desenvolvimento da inteligência artificial e às perspectivas de política monetária do Fed, que têm sido os principais motores dos mercados nos últimos anos”, disse Tai Hui, estrategista-chefe para a Ásia da JPMorgan Asset Management, em Hong Kong.
Enquanto isso, os preços do petróleo oscilaram ao longo do dia. A ausência de uma reação mais contundente reflete o fato de que a produção limitada da Venezuela reduz os riscos imediatos para a oferta global.
Segundo a Agência Internacional de Energia, o país respondeu por menos de 2% da produção da Opep+ em novembro de 2025. A capacidade ociosa em outros produtores é mais do que suficiente para compensar eventuais perdas.
Embora mais petróleo pesado venezuelano possa chegar ao mercado no futuro, esse processo levará tempo. A concretização do plano de Trump para uma retomada da indústria petrolífera do país, sob liderança dos Estados Unidos, deve ser longa e complexa, com custos superiores a US$ 100 bilhões.
Em outras frentes, surgiram sinais de busca por proteção, com o dólar e os metais preciosos funcionando como refúgio diante das incertezas sobre o impacto dos eventos na ordem global. Ainda assim, a alta do ouro e da prata também pode ser vista como uma extensão do rali registrado nos últimos meses do ano passado.
Para que a geopolítica tenha um efeito duradouro sobre os mercados, afirma Reid, do Deutsche Bank, é necessário que variáveis como crescimento e inflação sejam afetadas. Foi o que ocorreu nos choques estagflacionários da crise do petróleo nos anos 1970, na Guerra do Golfo nos anos 1990 e na invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
