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Moody’s projeta estabilidade nas emissões de títulos sustentáveis em 2026

Victor Aguiar

A Moody’s Ratings projeta que o mercado global de títulos sustentáveis deve manter volumes estáveis em 2026, com emissões em torno de US$ 900 bilhões, em um cenário marcado por maior pragmatismo nas estratégias de transição energética, avanço da demanda por financiamento de adaptação climática e novas oportunidades ligadas à infraestrutura digital e a data centers.

Segundo Matt Kuchtyak, vice-presidente sênior e líder de avaliações de finanças sustentáveis para as Américas na Moody’s, a expectativa é de um mercado mais maduro, sem grandes saltos de volume, mas com mudanças marginais na composição das emissões. “Estamos esperando volumes relativamente estáveis em 2026 em comparação com o ano passado. Nossa projeção é de US$ 900 bilhões em títulos sustentáveis rotulados globalmente”, afirmou.

A Europa deve continuar liderando o mercado, respondendo por cerca de metade das emissões globais, enquanto os green bonds seguem como o principal instrumento, com previsão de aproximadamente US$ 530 bilhões no ano. Títulos de sustentabilidade devem alcançar cerca de US$ 190 bilhões, mantendo-se como o segundo maior segmento, enquanto os social bonds tendem a continuar em retração após o pico observado durante a pandemia, com emissões estimadas em US$ 115 bilhões.

Um dos destaques para 2026 é o crescimento dos títulos de transição, ainda que partindo de uma base pequena. A Moody’s projeta cerca de US$ 40 bilhões nesse segmento, o que representaria um novo recorde e aproximadamente o dobro do volume observado em 2024. “A adoção deve ser desigual neste primeiro momento, à medida que emissores navegam pelos novos padrões e pelas expectativas dos investidores, mas os padrões que surgiram no mercado devem sustentar o crescimento ao longo do tempo”, disse Kuchtyak.

Rebecca Karnovitz, vice-presidente e executiva sênior de crédito da Moody’s, afirmou que esse movimento ocorre em um contexto de “transição pragmática”, no qual segurança energética, acessibilidade e competitividade econômica passaram a moldar políticas públicas e estratégias corporativas. “Estamos em um ambiente em que segurança e custo da energia estão no centro das decisões, e isso tem levado a um ajuste no ritmo e na sequência da descarbonização”, afirmou.

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Esse cenário, segundo ela, não elimina os riscos de médio e longo prazo para setores intensivos em carbono. “Para os 16 setores que avaliamos como tendo exposição elevada ao risco de transição, com cerca de US$ 5 trilhões em dívida avaliada, permanecem riscos relevantes de reversões regulatórias, ativos encalhados e perda de competitividade”, disse.

Do ponto de vista regional, a Moody’s vê a região Ásia-Pacífico como um dos principais vetores para a expansão dos títulos de transição, impulsionada por taxonomias nacionais que já incorporam esse conceito, com destaque para o Japão. Na América do Norte, os volumes seguem pressionados, refletindo a mudança de prioridades de parte dos emissores nos Estados Unidos, enquanto o Canadá pode ganhar tração com a expectativa de divulgação de sua taxonomia ainda em 2026. Na América Latina, apesar da queda nas emissões em 2025, a perspectiva segue positiva, diante das elevadas necessidades de financiamento ambiental e social.

Outro ponto relevante para o mercado de capitais é o aumento do uso de títulos sustentáveis para financiar adaptação climática e resiliência. De acordo com a Moody’s, a parcela de recursos destinada a projetos de adaptação e natureza vem crescendo desde 2020. “Os emissores estão cada vez mais olhando para os títulos rotulados como uma forma de financiar investimentos em adaptação e resiliência, à medida que os choques climáticos se tornam mais frequentes e mais custosos”, afirmou Kuchtyak.

Jennifer Chang, vice-presidente e executa sênior de crédito da Moody’s, destacou que perdas econômicas crescentes com eventos climáticos extremos estão ampliando preocupações com segurabilidade e capacidade fiscal, especialmente em regiões mais vulneráveis. “Questões de disponibilidade e custo de seguros podem afetar valores de propriedades, receitas tributárias e até decisões de migração”, disse.

No mercado de capitais, a expansão acelerada de data centers e da infraestrutura ligada à inteligência artificial também começa a se refletir nas emissões sustentáveis. Ainda segundo a Moody’s, o aumento da demanda por energia e água tem levado investidores e reguladores a escrutinar com mais atenção os impactos desses ativos. “Estamos vendo emissores utilizando instrumentos verdes ou sustentáveis para financiar data centers, destacando métricas de eficiência energética, uso de energia renovável e gestão hídrica”, afirmou Kuchtyak.

Para a agência, esse conjunto de tendências reforça o papel dos títulos sustentáveis como ferramenta central de financiamento em um ambiente mais complexo, no qual a sustentabilidade deixa de ser um objetivo isolado e passa a se integrar de forma mais direta às estratégias de crédito, investimento e competitividade.