IA começa 2026 com demanda aquecida por infraestrutura, mas empresas ainda lutam para escalar resultados
O avanço da inteligência artificial (IA) em 2025 voltou a concentrar grande parte dos ganhos das bolsas globais em um grupo seleto de empresas de tecnologia, ao mesmo tempo em que evidenciou os limites de muitas companhias para transformar a adoção disseminada da tecnologia em ganhos concretos de produtividade e retorno financeiro. Na Nasdaq, índice fortemente influenciado por ações ligadas à IA, os papéis do setor tiveram desempenho superior à média do mercado, mas com forte dispersão entre as empresas mais associadas à temática.
Entre as chamadas “Magnificent Seven”, ou “Mag Seven”, nome dado ao grupo de gigantes da tecnologia com maior peso no mercado norte-americano, a Alphabet teve a melhor performance em 2025, com alta de cerca de 65,8% no ano, impulsionada pelo otimismo dos investidores com seus avanços em IA e serviços de nuvem e no desenvolvimento do modelo Gemini.
A Nvidia, outro grande nome do setor, subiu 40,9% no período, mantendo-se como uma das empresas de maior capitalização do mundo. Microsoft, Meta e Tesla também registraram ganhos relevantes — altas de 15,5%, 13,6% e 20,2%, respectivamente —, enquanto Apple (+8,8%) e Amazon (+5,8%) tiveram performances menores, segundo dados do TradingView. No conjunto, as ações das Mag Seven tiveram retorno médio de cerca de 27,5% em 2025, superando o desempenho do S&P 500, que avançou cerca de 17,5% no mesmo período.
Para David Dias, sócio-líder de Inteligência Artificial da EY na América Latina, “2025 consolidou-se como um ano paradoxal para a inteligência artificial: houve uma explosão na adoção, mas também uma lacuna significativa na transformação efetiva das empresas”. Segundo a pesquisa EY Work Reimagined Survey 2025, a IA já é utilizada por “quase 9 em cada 10 profissionais”, mas esse uso permanece “em grande parte, superficial”.
De acordo com Dias, a utilização se concentra em tarefas básicas, como busca de informações e resumo de documentos, enquanto “apenas 5% dos colaboradores se consideram usuários avançados”. Para ele, “o grande gargalo ainda está na escalabilidade”, pois “a transição do uso individual para um impacto organizacional mensurável continua desafiadora”. Na avaliação da consultoria, as empresas que conseguiram capturar valor em 2025 foram aquelas que superaram o ciclo de “MVPs intermináveis” e estruturaram bases sólidas, com “governança robusta, dados integrados, transformação de processos e, sobretudo, investimentos em letramento e treinamento em IA”.
Aprenda a elaborar e atualizar o FRE, dominando as exigências regulatórias da CVM e da B3 no curso “Formulário de Referência“
Para Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp, o bom desempenho das empresas reflete a concentração do valor em empresas que ocupam posições estratégicas na cadeia de IA. Segundo ele, em 2025 “as empresas mais destacadas por desempenho e relevância estratégica no tema IA foram aquelas com papéis centrais na infraestrutura e integração de inteligência artificial”. Nesse grupo, ele afirma que a Nvidia “continua dominante em hardware de IA, com crescimento robusto em receita de data centers, que são o motor do mercado de IA”, impulsionada pela demanda por GPUs e sistemas integrados.
O analista também cita a Palantir como um dos destaques do ano, “entre as ações com maior retorno acumulado em 2025”, além de Microsoft e Alphabet, cuja “profunda integração de IA em produtos, cloud e serviços impulsionou valorização significativa no ano”.

PUBLICIDADE
Ainda segundo Brilhante, o movimento também se estendeu a outros elos da cadeia. “Além desses, semicondutores como AMD, empresas de memória como Micron e plataformas de software e cloud evidenciam retornos elevados ligados à crescente adoção de IA nas corporações em 2025”, disse o analista.
Apesar do desempenho expressivo, a leitura do mercado para 2026 começa a incorporar maior cautela. Na visão do especialista da Levante, “a avaliação de 2026 ainda apresenta espaço de valorização, mas com sinais crescentes de precificação de expectativas altas”. Ele observa que grandes empresas de IA “já incorporam grande parte da expectativa de crescimento futuro em suas valuations”, o que resulta em múltiplos estendidos, especialmente em segmentos de software puro e aplicações corporativas.
Mesmo assim, Brilhante defende que há segmentos de infraestrutura, como data centers e chips avançados, e setores adjacentes que ainda podem se beneficiar de ondas sucessivas de investimentos em tecnologia.
A leitura do analista condiz com a visão da Nvidia sobre o estágio atual do mercado. Na avaliação da empresa, o cenário global de IA é favorável: “Com base nos nossos resultados trimestrais desse último ano fiscal, percebemos o mercado de forma bem positiva”, afirma a companhia. Ainda de acordo com a empresa, “não vemos uma barreira para o crescimento da demanda por IA, que seguirá se expandindo de forma especializada e em diversos setores”, já que a tecnologia “pode ganhar diversas aplicações e variações”. A avaliação é que a demanda global por IA é muito grande atualmente, e que tende a seguir crescendo.
Hoje, esse movimento é liderado principalmente pelos grandes provedores de nuvem, cenário que sustenta um ciclo intenso de investimentos em infraestrutura. De acordo com a Nvidia, “o setor vive um ciclo de investimentos robusto, impulsionado pela adoção acelerada da IA generativa e pela necessidade crescente de infraestrutura de alto desempenho”. A combinação de “demanda global consistente, modernização dos ambientes corporativos e o avanço de modelos cada vez mais complexos” tem ampliado significativamente os aportes em data centers.
Do ponto de vista tecnológico, a empresa observa um movimento em frentes paralelas. “O ecossistema de IA está evoluindo em duas frentes complementares: modelos cada vez maiores, altamente generalistas, e modelos menores, otimizados para aplicações específicas”, afirma.
A Nvidia destaca, ainda, que “a multimodalidade e o avanço dos agentes autônomos exigem infraestruturas mais flexíveis e escaláveis, com capacidade para processar diferentes tipos de dados em grande volume”, o que altera o perfil da infraestrutura demandada pelas empresas.
Para os investidores, essa distinção também tem implicações relevantes. Na avaliação de Brilhante, “do ponto de vista técnico, infraestrutura de IA oferece melhor relação risco-retorno relativa agora”, já que empresas de semicondutores, memória e data centers enfrentam “demanda estrutural” e apresentam “fluxos de caixa mais previsíveis” do que companhias puramente orientadas a produtos ou serviços de IA, que são mais sensíveis à volatilidade da adoção e à monetização.
Ao mesmo tempo, o analista alerta para o risco crescente de concentração. “A crescente concentração em poucos nomes, especialmente gigantes como Nvidia, Alphabet, Microsoft e Meta, amplifica o risco de correlação elevada”, afirma. Segundo ele, quando um núcleo restrito domina os ganhos, o mercado se torna mais vulnerável a choques específicos, como desaceleração na venda de chips, problemas regulatórios ou falhas em novos produtos, o que pode ampliar a volatilidade caso expectativas sejam revistas.
No Brasil, a Nvidia avalia que o ambiente também é favorável, ainda que com ressalvas. “O Brasil, sem dúvida, está ávido pela adoção da IA”, afirma a companhia, citando o trabalho com startups e as “diversas conversas e planejamentos envolvendo o governo, que promete incentivos à soberania de IA”. Para a empresa, o país “tem todo o potencial de se tornar um polo de IA na América Latina”, embora os investimentos em nuvem e data centers “ainda não” ocorram “no mesmo ritmo dos mercados mais avançados”. Setores como óleo e gás, energia e manufatura concentram a maior parte da demanda por infraestrutura.
A principal barreira segue sendo estrutural. “Na América Latina, o principal gargalo é a necessidade de ampliar a formação de profissionais qualificados em IA”, afirma a Nvidia, destacando que “a falta de mão de obra especializada tem sido um dos maiores desafios”.
Para 2026, a expectativa é de maior cobrança por resultados. “A fase da ‘feira de ciências’ acabou”, afirma Dias. A tendência é que a IA “deixe de ser ‘uma ferramenta’ e se torne mais estratégica e integrada”, passando a constituir “infraestrutura essencial, integrada ao core business”. Segundo ele, haverá “uma pressão imensa de investidores e conselhos para que a IA demonstre retorno financeiro concreto”, em um ambiente no qual valuation, governança e capacidade de monetização devem ganhar peso crescente nas decisões de investimento.
