Fiagros se recuperam, reforçam governança e prometem 2026 equilibrado
O desempenho dos Fiagros no ano passado foi marcado por retornos expressivos ao investidor, com produtos superando 50% de alta, porém, com as cotas na bolsa ainda descontadas em relação às patrimoniais. Mais importante do que a alta expressiva, destacam gestores de Fiagros que brilharam no ano, foram os sinais de uma indústria em amadurecimento. No geral, as carteiras ficaram mais conservadoras, com critérios de governança mais rígidos na escolha dos papeis a serem adquiridos. Na conta do investidor, ainda pouco familiarizado com fundos do agronegócio, entrou o conceito de volatilidade, típico de um setor que depende do clima, das safras e de preços difíceis de controlar. É neste cenário, de maior rigor na composição das carteiras dos fundos e de um investidor mais atento a riscos, que os Fiagros entram em 2026. Um ano que promete ser bom, dizem, mas sem grandes exuberâncias.
“É um ano que teremos redução de juro, principal ponto para o setor. Além disso, as empresas mostraram avanço na governança. No ano passado, tivemos mais pedidos de recuperação extrajudicial do que judicial”, comenta Julia Bretz, sócia e gestora de crédito da JGP, cujo Fiagro (JGPX11) fechou 2025 com 63,03% de alta. “As empresas não querem queimar pontes com grandes stakeholders e preferem uma reorganização coordenada.”
Na visão de Julia Bretz, 2026 deve ser de continuidade do que foi 2025, com produtos se recuperando após as perdas do ano anterior (2024), mas ainda distantes da “fase de bonança” entre 2022 e 2023. “Acho que 2026 deve ser um ano muito mais equilibrado. No geral, é um ano ainda de recuperação e de demonstrações de teses. No ano passado (2025), gestores conseguiram mostrar uma maior recuperabilidade das perdas e como não as tornar permanentes. Foi um período de muito aprendizado a todos.”
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O Fiagro JGPX11 fechou 2025 com alta superior a 63%, após ter caído 40,20% em 2024, fruto da presença na carteira de papeis da AgroGalaxy, companhia que pediu uma RJ e representava 8% do fundo. A distribuição de dividendos, que precisou ser reduzida até o fim do ano fiscal, em junho de 2025, já voltou ao normal, informa a gestora da JGP. O papel da AgroGalaxy foi marcado a 50% do valor. “Nos envolvemos bastante na reestruturação desse ativo. Nossos fundos se tornaram credor apoiador na recuperação.”
O Fiagro da casa não investe em produtor rural, pessoa física, e tem feito “operações cada vez mais conservadoras, em empresas high grade”. A concentração média da carteira hoje é de 3% por ativo. “No começo, com o fundo iniciando com um patrimônio de R$ 80 milhões, era difícil ser muito pulverizado. Depois, captamos e fomos a R$ 200 milhões. A tendência é cada vez mais é reduzir a concentração.” O Fiagro da JPG segue descontado em relação à cota patrimonial, perto de 25%.
Christopher Smith, gestor de crédito da Capitânia Investimentos, tem visão semelhante sobre os movimentos dos Fiagros nos últimos anos e a perspectiva para 2026. “O Fiagro foi vendido como um produto isento, de crédito, mas acho que a volatilidade setorial não foi considerada tão a fundo no momento de alocação”, comenta Smith, lembrando as dificuldades do setor agro, com pedidos de RJs a partir de 2024, que assustaram investidores e afetaram cotas. “Obviamente, o ciclo teve quebras mais expressivas do que ciclos anteriores, mas dentro de uma volatilidade natural do setor. Agora, se você comparar os impactos efetivos nas cotas patrimoniais e os impactos efetivos nas cotas de mercado, há discrepância com o que, de fato, ocorreu.”

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O Fiagro da Capitânia, o CPTR11, encerrou 2025 com um retorno de 53,31%, forte recuperação em relação à queda de 24,11% em 2024. “Mesmo com as quebras, as perdas que ocorreram, o produto está subvalorizado num nível que não faz sentido. O fundo CPTR teve um ano muito bom, mas ainda está precificado abaixo da cota patrimonial.” A cota patrimonial do fundo, lembra Smith, saiu de R$ 10,00 para R$ 8,90, mas no mercado (B3) chegou a R$ 6,00. “Tudo bem que ficamos dois ou três meses sem distribuir dividendo, o que não agrada o investidor, mas o fato é que o portfólio em si tem muita governança.”
O Fiagro da Capitânia não tem produtor rural, optando por ficar nos segmentos da cadeia de maior governança, o que impôs um outro problema, a maior exposição geral da carteira. “Toda vez que uma empresa que investimos entra em RJ, no dia seguinte, o mercado sabe. É uma transparência que nos fez ser desproporcionalmente mais atingido por problemas.” O CPTR11, além da AgroGalaxy, tem na carteira outros ativos com problemas como a CRAS (óleo de amendoim) e a Patense (processa resíduos de origem animal). “Nas três, os papeis, na média, estão marcados a 50% o par e estimamos uma recuperação perto de 70%”, comenta Smith, acrescentando que a carteira ficou mais concentrada do que a asset gostaria e que o fato de ter boa governança “gerou um falso senso de conforto”.
Hoje, o limite de exposição por ativo é de 4%, mas já chegou a 6,5% no caso da AgroGalaxy. A tendência, afirma o gestor, é que caia a 3% e em dois ou três anos fique abaixo de 2,5%, a média dos listados da Capitânia. Parte do bom desempenho do produto foi investir em cotas de outros Fiagros descontados. Hoje, o CPTR11 tem 10% de sua carteira com cotas de outros fundos do agro. “A gente conhece as carteiras de todos os Fiagros. Eu prefiro comprar um fundo com 20% de desconto, que tem uma carteira boa, do que alocar num CRA novo”, explica o executivo. As cotas do Fiagro da Capitânia estão com perto de 20% de descontos, mesmo com a alta de 2025. “O fundo, na patrimonial, está precificado para entregar CDI mais 3% pós-custos. Quando você joga 20% de desconto em cima de uma duration, de 2 anos, você tem quase CDI mais 12% para entregar. Quem compra no preço atual terá um carrego muito atrativo. Teremos mais um ano bom.”
Outro fundo com ótimo desempenho em 2025 foi o Fiagro XPCA11, que fechou o ano com 64% de retorno. Para o head de Fundos Estruturados da XP Asset, André Masetti, 2025 foi um período de estabilidade para o crescimento da indústria de Fiagros, pautado em um “cenário de crédito mais conservador para o setor, em especial, para o segmento de grãos, que ainda passa por um período de margens mais justas, ainda que outros setores tenham apresentado desempenho muito positivo ao longo do ano, como os segmentos de proteínas e sucroalcooleiro”.
O bom desempenho em termos de retorno, lembra Masetti, é também fruto dos desafios enfrentados em 2024. “Muitos investidores passaram a enxergar a oportunidade existente em diversos fundos da indústria, com carteiras de crédito com interessante risco-retorno, garantias sólidas e gestão ativa, próxima ao devedor. Este movimento impulsionou a recuperação das cotas ao longo de 2025.” Após as dificuldades de 2024, acrescenta Masetti, associada a uma Selic de 15% ao ano e margens mais justas em alguns setores do agro, o segmento passou a ter uma visão mais cautelosa na análise das operações, priorizando operações com menor risco de crédito e melhor estrutura de garantias.
A principal característica da carteira de crédito do Fiagro da XP é a diversificação, com ativos de diferentes segmentos e regiões produtoras do agronegócio brasileiro. “O portfólio do XPCA fica menos exposto a riscos climáticos e a movimentos cíclicos que são intrínsecos ao mercado de commodities”, comenta o gestor, acrescentando como destaques as operações com a Usina Santa Fé e a indústria de etanol de milho FS Bioenergia. O fundo não teve qualquer evento de inadimplência em 2025, informa a asset.
Para 2026, embora deva ocorrer um arrefecimento na taxa de juros, com alívio às despesas financeiras das empresas, o gestor da XP lembra que a Selic ainda se manterá em um patamar alto, que exigirá ainda cautela no crédito. “Com isso, manteremos a estratégia adotada em 2025, de maior rigorosidade na seleção de ativos.”
