Canetas emagrecedoras podem movimentar US$ 9 bilhões no Brasil até 2030 e redesenhar setor de saúde
O avanço dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, começa a redesenhar a dinâmica do setor de saúde e consumo no Brasil, com impactos crescentes sobre empresas listadas na B3. Segundo estimativas do Itaú BBA, o mercado brasileiro desses medicamentos pode atingir ao menos US$ 9 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões) até 2030, ante aproximadamente US$ 1,8 bilhão (R$ 10 bilhões) atualmente, o que representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 40% em cinco anos. No cenário global, o banco projeta que o mercado pode alcançar US$ 160 bilhões em 2030, frente a US$ 54 bilhões em 2024.
No Brasil, a tendência ganhou tração em 2025, especialmente após o lançamento do Mounjaro em maio do ano passado, quando os resultados das grandes redes de farmácias começaram a refletir a crescente demanda. Além disso, a queda da patente da semaglutida no primeiro semestre de 2026 deve ampliar o acesso e acelerar ainda mais o crescimento do mercado, segundo o Itaú BBA.
Na avaliação de Sergio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que representa as 29 maiores redes do varejo farmacêutico nacional, trata-se de uma tendência estrutural. “Eu acho que esse tipo de medicamento é uma tendência forte. Há pelo menos três ou quatro novos produtos que vão ser lançados nos próximos dois anos”, afirmou. Segundo ele, além das novas moléculas, o mercado deve passar por uma transformação também nos formatos de uso, com a chegada de comprimidos de uso diário.
Barreto destaca que o impacto no varejo já é perceptível. “Já está alterando. No último ano você tem um impacto visível desse tipo de produto na venda”, disse. Para ele, os resultados observados pelos pacientes funcionam como principal vetor de disseminação do tratamento. “O que mais influencia o uso é o próprio fato de você ver o resultado real das pessoas.”
Os dados do Itaú BBA reforçam essa leitura. O banco estima que, no cenário base, os medicamentos GLP-1 passem a representar cerca de 20% das receitas das redes RD Saúde, Pague Menos e Panvel até 2030, ante uma participação atual entre 8% e 9%. No cenário otimista, a contribuição dessas terapias pode adicionar entre 12% e 15% ao lucro por ação (EPS) das redes a partir de 2027, o que coloca o varejo farmacêutico entre os principais beneficiados dessa transformação.
Apesar do crescimento, o CEO da Abrafarma aponta gargalos relevantes. Um deles é o abastecimento. “Às vezes não tem produto para recorrer, então o cliente chega na farmácia e não tem produto”, afirmou, observando que o volume destinado ao Brasil ainda é inferior ao potencial do mercado. Outro ponto crítico é a informalidade. “Só em São Paulo, no ano passado, foi quase R$ 70 milhões roubados de canetinhas. Mais de 65 mil canetinhas foram roubadas”, disse, classificando o fenômeno como crime organizado e alertando para a venda ilegal em redes sociais.
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Além do varejo, a indústria farmacêutica também surge como beneficiária no médio prazo. O Itaú BBA aponta a Hypera como um dos nomes mais bem posicionados para capturar valor com o fim da patente da semaglutida. A instituição estima que a empresa possa entrar nesse mercado a partir de 2026, embora ressalte incertezas relacionadas ao nível de concorrência e à necessidade de investimentos relevantes em marketing e força de vendas. Em uma análise de sensibilidade, o banco considera um mercado de genéricos de R$ 8,4 bilhões em 2027, com uma participação potencial de 15% para a Hypera, o que poderia gerar um impacto positivo de cerca de 10% tanto na receita quanto no lucro por ação, ainda não incorporado às projeções.
Para Tatiana Maluf, private banker da Guardian Capital, o mercado brasileiro ainda está em uma fase inicial do ponto de vista de precificação. “Por enquanto, ainda é um tema mais marginal do ponto de vista de preço, apesar de já estar bastante presente nas discussões”, afirmou. Segundo ela, o investidor tende a aguardar maior visibilidade nos resultados antes de refletir plenamente essa tendência nos múltiplos. “Hoje, o tema aparece muito mais como narrativa estratégica e tese de longo prazo.”
Tatiana acrescenta que a adoção ainda é concentrada em faixas de renda mais altas, o que limita, por ora, um efeito mais disseminado nos resultados das companhias abertas. Ao mesmo tempo, a banker ressalta que o avanço das terapias tende a ganhar tração à medida que o mercado amadureça, com aumento de escala, ampliação da oferta e possível redução de preços no médio prazo. Ela observa, ainda, que do ponto de vista do investidor, o impacto dos medicamentos para obesidade deve ser analisado menos como um “evento” pontual e mais como um processo gradual.
A consolidação desse mercado, segundo Tatiana, tende a aparecer primeiro na comunicação estratégica das empresas e na forma como elas passam a se posicionar diante de tendências ligadas à saúde, prevenção e consumo de longo prazo, antes de se refletir de maneira mais clara nos balanços.
A especialista da Guardian Capital ainda destaca que os efeitos dos GLP-1 não se limitam ao setor farmacêutico. “Redes de farmácias, distribuidores e até planos de saúde entram nessa dinâmica”, disse. Ela também chama atenção para impactos indiretos sobre empresas de consumo. O Itaú BBA estima que mudanças no padrão alimentar associadas ao uso dessas terapias podem pressionar categorias como alimentos ricos em carboidratos, bebidas alcoólicas e varejo alimentar, enquanto proteínas tendem a se beneficiar no longo prazo. Em um cenário baseado em estudos dos Estados Unidos, o banco projeta que, com 5,5 milhões de usuários de GLP-1 no Brasil até 2027, o lucro líquido de empresas como Ambev, Camil e M. Dias Branco poderia cair cerca de 2% no ano.
O analista Gerson Brilhante, da Levante Inside Corp, afirma que a tendência é estrutural, mas alerta para o timing. “O mercado ainda precifica isso de forma marginal e indireta”, disse. Para ele, os impactos mais claros devem aparecer ao londo de 2026, quando houver maior penetração, queda de preços e ampliação da concorrência entre moléculas.
Brilhante ressalta que, embora o crescimento projetado seja expressivo, o impacto nos preços dos ativos tende a ocorrer de forma seletiva e ao longo do tempo. Na avaliação do analista, empresas diretamente expostas à cadeia farmacêutica devem sentir os efeitos antes, enquanto setores impactados de maneira indireta só devem refletir mudanças mais adiante, à medida que o comportamento do consumidor se consolide.


