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Bitcoin perde fôlego e deve ter 2026 mais incerto e menos linear

Amanda Meneses

Em meio a uma ascensão do mercado cripto entre os investidores institucionais e o reconhecimento e normatização desses ativos por reguladores, bem como a criação de reservas estratégicas de Bitcoin pelos próprios governos, as criptomoedas surfaram uma boa onda durante boa parte de 2025. O fôlego, especialmente para o Bitcoin, foi se perdendo na reta final do último ano, diante de um movimento de realização de lucros. Especialistas veem uma continuidade do interesse em cripto por “grandes bolsos” e da institucionalização cripto este ano, contudo, ponderam que 2026 tende a ser mais desafiador do ponto de vista de preço, com volatilidade elevada e cenário incerto.

No último ano, a cotação das criptomoedas foi influenciada pelo avanço da adoção institucional, enquanto ocorria o fortalecimento do arcabouço regulatório em mercados relevantes, além da consolidação do Bitcoin como reserva de valor alternativa, mas o ambiente macroeconômico global, marcado por incertezas fiscais e monetárias, também pesou, pontua Theodoro Fleury, Diretor de Investimentos da QR Asset.

“Em termos de preço, o Bitcoin chegou a superar momentaneamente a nossa projeção de US$ 120 mil, o que confirma que os principais vetores estruturais da tese — escassez programada, maior demanda institucional e amadurecimento da infraestrutura de mercado — estiveram corretamente endereçados em nossas estimativas. Ainda que o ativo tenha perdido tração na reta final do ano, o desempenho agregado de 2025 foi consistente com um ciclo de valorização robusto”, diz Fleury. 

O Bitcoin chegou a ultrapassar a casa dos US$ 126 mil, influenciado pelo movimento de maturação do arcabouço regulatório das criptomoedas e pelo aumento do fluxo institucional, mas perdeu força no segundo semestre, fechando o ano abaixo do patamar psicológico de US$ 100 mil. O motivo não é único, mas passa por uma reprecificação das apostas macroeconômicas, pela perda de espaço do Bitcoin em relação ao ouro, utilizado como proteção contra volatilidade, e até um movimento de realização de lucros. 

Na reta final de 2025, pontua Ana de Mattos, analista técnica e trader parceira da Ripio, a correção em torno de 35% após o topo foi resultado da realização de lucros e do reposicionamento de investidores institucionais diante do contexto macro. “De forma geral, as projeções da Ripio se confirmaram, com o rompimento de máximas históricas e a manutenção da tendência estrutural de alta, ainda que o fim do ano tenha sido marcado por maior volatilidade do que muitos investidores esperavam”, diz.

Foi um ano duplo para o universo cripto. O “ouro digital” perdeu espaço para o ouro, mas houve boas notícias, como o Genius ACT, lei federal dos EUA que traz o marco regulatório focado em stablecoins, e a adoção institucional crescente. Inclusive, grandes casas tradicionais como Morgan Stanley, BlackRock, Fidelity e Bank of America começaram a divulgar recomendação de compra de cripto por seus clientes.

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No Brasil, conta Axel Blikstad, CEO da B2V Crypto, foi a vez da Asset do Itaú recomendar um portfólio com exposição de 1% a 3% em ETF de criptoativos. “Só que esse dinheiro não começou a entrar ainda. Acreditamos que vai entrar a partir de 2026”, diz o executivo, acrescentando que um fator que influenciou o “ano bem medíocre” para cripto, em termos de cotação, foi o medo de alguns holders “das antigas” do ciclo de 4 anos, em que o mercado sobe durante 3 anos e cai no quarto ano. “Esse era o último ano em situação de alta e teria a correção em 2026. Não temos certeza de nada, mas a aposta é que muitos anteciparam a venda nesse final de 2025”, conta o executivo.

Grandes investidores, especificamente de Bitcoin, venderam volumes significativos em 2025. Em outubro, por exemplo, players como a Galaxy Digital, uma das maiores provedoras de liquidez, comentou que dois de seus clientes venderam, cada um, aproximadamente 100 mil BTCs, volume bastante expressivo. Blikstad pontua que alguns investidores que entraram muito cedo no Bitcoin já obtiveram um bom lucro saindo do investimento, e há um timing para esse estoque ser absorvido por novos investidores. “É o que está acontecendo agora. Está nessa briga, uma troca de mãos. Ou seja, de uma velha guarda para novos investidores. E os investidores da velha guarda venderam mais do que foi absorvido no mercado, por isso que o mercado caiu, porque é baseado em fluxo”, explica o CEO.

O banimento da mineração de Bitcoin pela China, novamente, também gerou uma pressão vendedora no mercado. Por outro lado, o movimento de alocação por parte das grandes “baleias” do mercado deve continuar em 2026, favorecendo o mercado. Para Fleury, da QR Asset, a tendência de entrada de investidores com grande capacidade de alocação é clara e deve continuar. “O interesse crescente de fundos, seguradoras, family offices e grandes gestores globais não é oportunista, mas estrutural. Trata-se de um processo gradual de incorporação do cripto dentro de estratégias de diversificação, proteção contra riscos monetários e exposição à inovação tecnológica”, opina.

No entanto, 2026 tende a ser mais desafiador do ponto de vista de preço, com volatilidade elevada, tanto por fatores cíclicos próprios do mercado de criptomoedas quanto pela influência de um ambiente macroeconômico ainda incerto. Para o executivo da Qr Asset, movimentos expressivos de valorização não são descartados, mas “o cenário será menos linear do que em 2025”.

Ana, da Ripio, também vê o interesse de grandes investidores pelo mercado cripto com tendência a continuar, mas de forma mais seletiva e estruturada. “Esse capital entra de forma diferente do investidor de varejo. Investidores institucionais priorizam liquidez, governança, gestão de risco e previsibilidade regulatória. Por isso, a entrada desses players costuma ser mais gradual”, diz. Além disso, para a analista, as perspectivas para o Bitcoin em 2026 são construtivas, mas exigem uma leitura mais cuidadosa do que uma simples comparação com 2025. “O último ano foi marcado pelo rompimento de máximas históricas e pela forte entrada de capital institucional. Para 2026, o cenário tende a ser menos pautado por euforia e mais pela continuidade da tese, com o desempenho do preço mais dependente da liquidez global, do ambiente macroeconômico e da sustentação dos fluxos institucionais.”

Este deve ser um ano estruturalmente mais equilibrado para o mercado. Caso os fluxos institucionais se mantenham e o mercado opere em um ambiente macro mais previsível, o Bitcoin pode seguir apresentando bom desempenho, “ainda que com períodos mais frequentes de consolidação, ‘andando de lado’ e corrigindo”, opina Ana.