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Mercado vê Copom mais livre para iniciar cortes em 2026, mas Selic deve seguir a 15% em dezembro

Victor Aguiar

Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset

Às vésperas da última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) em 2025, o mercado financeiro se concentra menos no resultado, amplamente precificado como manutenção da Selic em 15%, e mais no tipo de sinalização que o Banco Central deve oferecer sobre o início do ciclo de flexibilização. Entre grandes instituições, o diagnóstico predominante é que a taxa permanecerá parada, mas a comunicação pode marcar o fim do período em que o colegiado vinha indicando a necessidade de manter os juros em nível “bastante prolongado”.

No Banco do Brasil, a avaliação é de que o Comitê não deve alterar o juro básico. “Projetamos que o Copom manterá a Selic em 15%. Essa decisão deve se apoiar na própria comunicação recente do colegiado, que tem sinalizado uma postura ainda bastante cautelosa”, afirma Marcelo Rebelo, economista-chefe da instituição.

Ele ressalta que, embora a atividade esteja perdendo fôlego, o mercado de trabalho demonstra resiliência e dificulta qualquer sinal mais claro de alívio monetário. “A inflação de serviços se manteve persistentemente acima do teto da meta. Sem essa acomodação no mercado de trabalho, o conforto para avançar no ciclo de flexibilização monetária permanece limitado”, acrescenta Rebelo.


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A leitura da Warren Investimentos é semelhante. A gestora prevê manutenção da taxa e um comunicado que reforce a dependência de dados, preparando terreno para cortes graduais em 2026.

“Nossa expectativa é de manutenção da taxa Selic em 15% na próxima reunião. Esperamos que o diagnóstico do Copom continue apontando para uma convergência da inflação, reforçando a necessidade de manutenção da taxa”, afirma Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da casa. O cenário-base da Warren considera um primeiro corte em janeiro, de 25 pontos-base, seguido por ajustes graduais ao longo do ano.

A visão da Bradesco Asset também converge com o diagnóstico, mas com ressalvas. Para Marcelo Toledo, economista-chefe da gestora, a principal novidade desta reunião será o abandono das “amarras” da comunicação anterior, que enfatizava manter juros altos por um período prolongado. “O Banco Central já ficou um período bastante prolongado com o juro em patamar substancialmente restritivo. Daqui para frente, ele [BC] vai avaliar mais o cenário”, afirma Toledo.

O economista, no entanto, pondera que isso não significa, necessariamente, sinalizar corte imediato: “Não que ele vá já nessa reunião indicar uma redução na reunião de janeiro. Mas vai deixar a liberdade para que, a partir do ano que vem, não haja mais as mãos do Banco Central amarradas por essa comunicação do bastante prolongado.”

“Eu acredito que a comunicação do Banco Central vai deixar mais em dúvida esse corte”, acrescenta Toledo. “Acredito que o mercado vai tender, após a reunião, a refletir uma dúvida maior se o Banco Central corta ou não em janeiro.”

Inflação persistente é desafio para Copom

O comportamento recente da inflação segue como principal obstáculo para qualquer aceleração no processo de afrouxamento monetário. Tanto BB quanto Warren ressaltam que os núcleos ligados a serviços e trabalho permanecem pressionados. “Os núcleos, especialmente aqueles mais intensivos em mão de obra, também mostram desinflação menos acentuada”, afirma Rebelo.

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Vital, por sua vez, destaca que os indicadores recentes reforçam a leitura de persistência. “Destaca-se a persistência da inflação de serviços e de itens intensivos em trabalho, ainda pressionados e fortemente relacionados ao mercado de trabalho resiliente”, afirma o especialista da Warren.

Na avaliação de Toledo, o processo de desinflação avançou mais rápido do que se esperava na virada do ano passado, mas ainda há incertezas relevantes, sobretudo na dinâmica salarial. Ele observa que, ao longo de 2025, a inflação dos núcleos recuou de patamares em torno de 6% para leituras próximas de 4% no quarto trimestre, mas com uma ressalva: “A inflação de serviços continua relativamente alta. Os salários e os rendimentos nominais continuam crescendo em uma velocidade bastante elevada”, analisa.

Para ele, esse componente é o que mantém a cautela do BC, já que a inflação de serviços é “muito importante para determinar para onde vai a inflação de fato”.

No lado da atividade econômica, o cenário é mais difuso. Rebelo afirma que a fraqueza vista no PIB do terceiro trimestre — “levemente abaixo da nossa projeção”, segundo o especialista do BB —, não altera o diagnóstico central, já incorporado pelo BC. Já Vital aponta desaceleração mais clara, porém ressalta que o setor de serviços ainda se sustenta.

Toledo vai além e vê risco de reaceleração ainda no começo de 2026, o que justificaria o BC esperar mais antes de cortar juros. Ele cita medidas como o impulso de crédito, a liberação de recursos de poupança para o crédito imobiliário e a entrada em vigor da isenção do Imposto de Renda em janeiro.

“Há dúvidas se no primeiro trimestre esses efeitos não levam a um reaquecimento da economia. A nossa expectativa é de que ele não reduza a taxa de juros em janeiro, mas sim em março”, afirma.

Luis Felipe Vital, Estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos

Fiscal segue como limitador do ciclo de corte da Selic

O ambiente fiscal continua sendo possivelmente o principal fator no calibre do grau de aperto monetário. O Banco do Brasil adota a leitura mais rígida: “Nossa leitura é de um cenário fiscal ainda marcado por incertezas, principalmente no âmbito da trajetória crescente da relação dívida/PIB. Esses fatores limitam a velocidade da queda de juros ao longo do próximo ano”, afirma Rebelo.

A Warren reforça o diagnóstico de assimetria entre política fiscal expansionista e política monetária contracionista. “Convivemos com um ambiente em que a política fiscal é expansionista, enquanto a política monetária permanece contracionista”, diz Vital. Para ele, embora o BC tenha reconhecido que políticas contracíclicas podem reduzir prêmios de risco, o quadro estrutural ainda pesa sobre as expectativas.

Toledo concorda que a postura fiscal expansionista, reforçada por programas de crédito, alterações tributárias e crescimento das despesas, tende a estimular a atividade, criando um ambiente mais desafiador para cortes robustos de juros. Ele destaca que a política fiscal “vem sendo na direção de expansão desde a pandemia”, e que esse padrão deve se manter em 2026.

Ambiente externo oferece alívio, mas BC segue cauteloso

No cenário externo, o tom é mais otimista. Rebelo afirma que “o movimento já iniciado de queda de juros nos EUA deve continuar, o que garante um ambiente mais benigno para a autoridade monetária brasileira”. Vital converge, lembrando que a redução dos juros americanos tende a favorecer o fluxo para emergentes.

Toledo, por outro lado, relativiza o peso do Fed nas decisões domésticas. Ele cita o episódio de 2024, quando o Copom elevou juros ao mesmo tempo em que o Fed cortou, como exemplo de que a correlação é limitada. Para ele, o principal canal externo continua sendo o câmbio, que tem se beneficiado do diferencial elevado de juros no Brasil.

Ele também aponta para riscos globais que o BC deve continuar destacando: “O ambiente internacional tem riscos no hroizonte que são relevantes”, analisa, citando debates fiscais nos EUA, a mudança na presidência do Fed e incertezas sobre o comportamento das tarifas americanas.