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Em hiato há 4 anos, especialistas só veem retomada dos IPOs com juros menores e estabilidade fiscal

Victor Aguiar

Com a chegada do mês de dezembro, a B3 atingiu a marca de quatro anos sem a realização de novas Ofertas Públicas Iniciais (IPOs, em inglês). O hiato, que sucede o boom de 2020 e especialmente de 2021, consolidou-se como o “novo normal” do mercado e, segundo especialistas consultados pela Capital Aberto, deve perdurar ao longo de 2026.

A ausência de novas listagens vem acompanhada de um fluxo crescente de ofertas públicas de aquisição (OPAs) para fechamento de capital, um movimento que ganhou novo impulso com o pedido recente da Neoenergia para sair da Bolsa brasileira. Em dezembro de 2021, mês em que foi realizado o último IPO na B3, havia 463 empresas listadas na Bolsa. Hoje, são 368.

Na análise de especialistas, o quadro é resultado de uma combinação de fatores macroeconômicos, regulatórios e de comportamento dos investidores. Um ponto central, segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus, é o próprio caráter da janela que antecedeu o hiato. 

“Esse é o maior período sem IPOs desde a reabertura do mercado, e ele deriva de artificialidades criadas entre 2020 e 2021, quando a Selic foi a 2%. Aquilo impulsionou ativos de risco e trouxe ao mercado empresas que talvez não devessem ter aberto capital”, afirma. 

Ele lembra que, após a máxima histórica do Ibovespa no primeiro semestre de 2021, o mercado entrou em uma “correção brutal” que se estendeu até 2024, marcada por tensões fiscais e pela volta dos juros a patamares elevados.

Rogério Paulucci Mauad, professor da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), corrobora a análise de Spiess. Segundo ele, “com a meta da taxa Selic na casa dos dois dígitos e o juro real próximo de 10%, o custo médio ponderado de capital das empresas fica muito alto”, o que inviabiliza o financiamento por equity para novas companhias. Ainda de acordo com Mauad, a consequência é um desvio natural para o crédito privado: “As empresas têm preferido emitir títulos de dívida, com custo menor, em vez de abrir capital.”

O cenário externo reforça o desaquecimento. Mauad destaca que a combinação entre juros elevados nos títulos do Tesouro norte-americano e incertezas sobre o ciclo de cortes pelo Federal Reserve (Fed) mantém o investidor global mais ancorado à renda fixa. “Com as Treasury Bonds pagando mais, o apetite por risco diminui. Sem perspectiva de queda internacional dos juros, fica difícil justificar um IPO no Brasil”, afirma.

Rogério Paulucci Mauad, professor da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras)

Spiess acrescenta que “na falta de uma âncora fiscal, a política monetária precisa trabalhar por dois”, e que, se as questões estruturais não forem abordadas, esse contexto que ajuda a explicar o hiato dos IPOs será mantido por mais tempo.

Do ponto de vista regulatório, a avaliação é de que não houve uma piora das condições para IPOs: “O mercado brasileiro é maduro em regulação”, afirma Cristina Tomiyama, sócia das áreas de Mercado de Capitais e Companhias Abertas do Demarest Advogados. Ela argumenta que a transição para o novo marco regulatório da CVM foi uma evolução natural das práticas. “A mudança não deixou o processo mais difícil. São ajustes normais, coerentes com a evolução do mercado”, diz.

Ainda assim, Tomiyama reconhece que os custos de ser uma companhia aberta pesam mais quando o mercado não remunera as ações. “Para atrair o investidor, você precisa cumprir deveres de transparência e diversas obrigações. Não é possível dizer simplesmente se é caro ou barato, depende de cada empresa e do benefício que ela enxerga. Mas certamente não é para qualquer companhia”, afirma.

Esse cálculo tem levado controladores a optarem por fechar o capital. No caso da Neoenergia, que figura como o exemplo mais recente dessa onda, a controladora Iberdrola afirmou que o objetivo da OPA anunciada é “simplificar a estrutura corporativa e organizacional da companhia, fornecendo maior flexibilidade na gestão financeira e operacional”. A empresa destacou, ainda, que a operação atende aos interesses da Neoenergia e de seus stakeholders “particularmente em razão dos custos de manutenção do registro de companhia aberta categoria A junto à CVM e da listagem das ações no Novo Mercado da B3”.

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Tomiyama vê uma lógica clara por trás do movimento. “Os controladores conhecem profundamente os fundamentos e as perspectivas de suas próprias empresas. Quando olham o preço na Bolsa e entendem que está subavaliado, percebem uma oportunidade. É uma chance de comprar um ativo bom, barato”, afirma. Ela também observa que grande parte das companhias que fizeram IPO em 2020 e 2021 não entregaram os resultados projetados, o que levou a fortes quedas nas ações. “Essas empresas ficaram com preços comprimidos. Para os controladores, isso abre espaço para ofertas de aquisição.”

Spiess acrescenta em sua análise que o prêmio de risco Brasil, muitas vezes chamado de “desconto Brasil”, tem se materializado com mais força: “Quando o risco aparece aqui, ele se materializa mais do que proporcionalmente. É parte da nossa natureza de país emergente e parte de um problema fiscal persistente.”


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A retração da demanda por renda variável é vista como o fator central. “Talvez o principal problema no mercado hoje seja a ausência do investidor local”, analisa Mauad. “A pessoa física migrou para a renda fixa, os fundos multimercado reduziram exposição e o estrangeiro prefere investir em empresas tradicionais, como commodities e bancos.” O professor também ressalta que há diversas empresas prontas para abrir capital, mas que não há condições de valuation ou demanda para que a operação faça sentido – ponto corroborado por Tomiyama e por Spiess.

O hiato, no entanto, não é visto como sintoma de um problema estrutural irreversível. Para Tomiyama, os investidores “convivem bem com certezas, mesmo que sejam ruins”, e o que os afeta é a incerteza. A advogada entende que o ambiente político conturbado, incluindo as eleições presidenciais que ocorrerão no Brasil em 2026, tem impacto relevante ao aumentar a aversão a risco. “Com incerteza política, diminui a participação de investidores estrangeiros e de fundos locais. Eles ficam mais atentos e esperam um ambiente mais claro para voltar”, analisa.

A CVM, por sua vez, segue atuando normalmente, sem postura mais restritiva, ainda segundo Tomiyama. “O regulador colhe informações por meio de consultas públicas e faz ajustes coerentes com a realidade. Para companhias abertas, as obrigações periódicas continuam as mesmas. Embora não haja oferta de ações, há muita atividade em dívidas e securitização. Não vejo uma atuação mais rigorosa”, afirma.        

Perspectivas de IPOs para o futuro

Para que a janela de IPOs volte a se abrir, os especialistas consultados pela Capital Aberto entendem que um conjunto de condições econômicas e institucionais deve se cumprir. Mauad lista quatro pilares: estabilidade macroeconômica e fiscal, queda estrutural dos juros reais, incentivos ao investidor local para voltar a aplicar em ações e a redução dos custos de emissão para pequenas e médias empresas.

Spiess concorda, e reforça que o retorno dos IPOs dependerá não apenas do ciclo de juros, mas da capacidade de o país reconstruir credibilidade fiscal. “A primeira pernada de corte vem da desaceleração da atividade. Mas a segunda pernada, a que realmente poderia viabilizar uma reabertura do mercado, depende de mudança na política econômica. Sem responsabilidade fiscal, a política monetária continua trabalhando por dois.”

Na visão do analista da Empiricus, há possibilidade de início de retomada em 2026, mas maior probabilidade de reabertura mais consistente apenas em 2027. “Vai depender das sinalizações de política econômica e dos juros, aqui e lá fora. As empresas estão preparadas, falta a janela.”

Em uma eventual retomada, acrescenta Mauad, os setores de infraestrutura, saneamento, energia renovável, saúde, agronegócio e logística seriam os de maior probabilidade de inaugurá-la. “São setores resilientes, com demanda estrutural, que atraem investidores mesmo em períodos de maior aversão a risco”, avalia.

O risco, caso o ciclo não se reverta, é o encolhimento estrutural do mercado acionário brasileiro. “Menos empresas listadas significam menos liquidez, concentração dos investimentos em poucas companhias e dependência maior de BNDES e debêntures para financiamento corporativo”, afirma Mauad. 

Spiess é mais enfático, e entende que o mercado já encolheu — mas que a situação pode se agravar. “Se nada for feito, caminhamos para uma esterilização ainda maior. O Brasil tem muitos potenciais, mas pode se apequenar.”