Desancoragem das expectativas e mercado de trabalho limitam cortes da Selic em 2026
O mercado já contratou cortes na Selic em 2026, após a taxa ser mantida em 15% ao ano desde junho, com um juro real na casa de 9% ao ano, o segundo maior do mundo, atrás apenas da Turquia. Por ora, está é o único ponto em comum do mercado, que se divide sobre o início do afrouxamento monetário, entre janeiro e março, e também sem consenso sobre a Selic terminal em 2026, na faixa de 12% a 12,75% ao ano. Se a certeza de corte vem de um PIB claramente em desaceleração, as dúvidas sobre os movimentos do Banco Central, na tentativa de convergir a inflação para o centro da meta de 3% ao ano, incluem a resiliência do mercado de trabalho, a persistente desancoragem das expectativas e a volatilidade que deve marcar o ano eleitoral.
O setor de serviços, componente importante do PIB, ao lado de um mercado de trabalho resistente, foram os desafios da política monetária em 2025, o que não muda em 2026. “Depois de um 2024 de quebra da expectativa de juro menor, começamos 2025 com um choque na política monetária que elevou a Selic a 15%, taxa bastante restritiva para uma inflação resistente”, comenta Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil. “A inflação corrente está em queda, mas com núcleo de serviços ainda alto e um mercado de trabalho ainda resistente e as expectativas desancoradas. Tudo isto explica a sinalização do BC de que a política monetária seguirá restritiva por um tempo maior.”
Na visão da economista da Mirae Asset, esta desancoragem das expectativas se explica pela economia rodando a uma velocidade superior à esperada, que se traduz no hiato do produto. “Com o hiato do produto maior do que o projetado, o que requer uma política monetária mais restritiva.”
O estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, Luiz Felipe Vital, tem visão semelhante sobre a desancoragem das expectativas. “O relatório de política monetária mais recente somado ao QPC (questionário pré-Copom) explicam a desancoragem”, comenta Vital, acrescentando que nas pesquisas pré-Copom o mercado sempre vê uma economia mais aquecida do que o Banco Central. Sobre o Relatório de Política Monetária mais recente, o estrategista-chefe destaca o fato de o BC ter mantido o hiato do produto estimado para o terceiro e o quarto trimestres de 2025 de 0,5% e 0,2%, respectivamente. “Ele continua vendo a economia desacelerar lentamente. Já para o segundo trimestre de 2027, o BC projeta redução do hiato para valores negativos atingindo -0,4%.” O Relatório do BC projeta inflação de 12 meses no centro da meta apenas no primeiro trimestre de 2028. O IPCA do ano, até novembro, está em 3,92%.


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Embora permaneça como um desafio para 2026, o mercado de trabalho, lembra Marianna Costa, da Mirae, tem dado os primeiros sinais de desaceleração. “É alguma melhora, que ajuda, embora o próprio BC considere ainda tímida.” Houve uma redução na geração de empregos formais, com a média mensal caindo de 160 mil no primeiro semestre para 80 mil nos meses encerrados em outubro. Além disso, a taxa de desocupação (PNAD Contínua) em torno de 5,6% a 5,8%, parando de registrar quedas sucessivas. “O IBC-Br, prévia do PIB, veio melhor (-0,2), enquanto a pesquisa de serviços do IBGE mostra expansão, mas a uma velocidade um pouco menor. Tudo confirma que a política monetária está fazendo efeito e pelos canais que se imaginavam”, analisa a economista, acrescentando que são sinais que abrem caminho para corte na Selic.
O afastamento da tese de dominância fiscal é destacado por Vital, da Warren, como relevante no primeiro ano do BC sobre o comando de Gabriel Galípolo. “Ele venceu o desafio da credibilidade, o da dominância fiscal, com a política monetária fazendo efeito no crescimento e nos índices de inflação. Todo aquele debate sobre canais de transmissão da política monetária, se estavam obstruídos ou não, ficou para trás.” Na projeção da Warren, há espaço para o Copom cortar o juro já a partir da reunião de janeiro, iniciando com uma redução de 0,25 ponto percentual, com uma Selic terminal em 2026 de 12,25% ao ano. “Na média, o mercado espera que o Banco Central corte 300 pontos, mas se avaliarmos os números e nos voltarmos aos modelos, talvez 2026 não permitam algo nesta magnitude, caindo para redução de 200 pontos, algo mais compatível.”
Vital lembra que em 2026 o processo eleitoral pode pesar nos movimentos da política monetária. “Nas últimas semanas, tivemos uma volatilidade bem grande no mercado, devido a questões de eleições, pesquisas eleitorais, dólar subindo. É mais um elemento que talvez em 2026 freie cortes maiores na taxa.” Apesar da incerteza eleitoral em 2026, o estrategista-chefe é otimista sobre 2027, quando “deve haver um ajuste fiscal independentemente de ganhar a direita ou a esquerda”. “A realidade vai se impor ao novo governo e 2027 será um ano de arrumação da casa. Talvez mais como Dilma II do que Lula III”, afirma Vital, lembrando cortes importantes feitos pelo governo Dilma.
Na Mirae Asset Brasil, a previsão para 2026 é de uma Selic terminal de 12,5%. “Tem uma chance de começar em janeiro, mas a gente vai precisar ter uma continuidade dessas surpresas benignas de inflação corrente, inflação prospectiva, um bom comportamento do câmbio e sinais mais claros de desaceleração da atividade, para esse corte juro no começo do ano”, afirma Marianna. “Por tudo isto, eu vejo que tem uma probabilidade muito grande de que talvez só venha em março, porque a gente vai ficar muito dependente dos dados.”
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