B3 se prepara para novo ciclo do mercado de capitais com foco em renda variável e infraestrutura tokenizada
Em um momento em que o mercado de capitais brasileiro ainda convive com os efeitos de juros elevados e da forte competição da renda fixa, a B3 apresentou, durante o B3 Day, uma leitura de otimismo para o biênio 2026-27. Para isso, a estratégia da bolsa passa por preparar a infraestrutura para um novo ciclo pró-cíclico, com destaque para a renda variável, a retomada do pipeline de ofertas iniciais de ações (IPOs) e a modernização de suas plataformas, incluindo iniciativas de tokenização e ativos digitais.
Na avaliação do CEO da B3, Gilson Finkelsztain, a bolsa brasileira permanece altamente sensível à política monetária doméstica, mas reúne hoje condições diferentes das observadas em ciclos anteriores. “O mercado de capitais no Brasil tem ainda um potencial muito grande para ser explorado”, afirmou, ao reforçar que a estratégia da companhia segue focada no fortalecimento do core business, combinado à diversificação em atividades que ampliem a resiliência do modelo de negócios.
Segundo a B3, os negócios ligados à renda variável e aos derivativos seguem sendo os mais expostos ao ciclo econômico, enquanto as linhas recorrentes, como renda fixa, dados e tecnologia, funcionam como amortecedores em cenários adversos. Ainda assim, é justamente na reversão do ciclo monetário que a companhia enxerga uma assimetria positiva relevante.
Dados apresentados no evento mostram que, embora o número de investidores pessoas físicas com exposição a ações, ETFs, fundos imobiliários e BDRs tenha crescido de forma expressiva nos últimos anos, saltando de cerca de 1,1 milhão em 2019 para mais de 5 milhões atualmente, o nível de engajamento segue comprimido. Em 2019, cerca de 50% dessa base realizava ao menos uma operação por mês, enquanto hoje, esse percentual gira em torno de 30%. No mesmo período, o giro médio diário por CPF caiu de aproximadamente R$ 6 mil para cerca de R$ 1,8 mil.
Para Finkelsztain, essa combinação cria uma espécie de “opcionalidade” relevante para o mercado. “A gente tem hoje um varejo muito mais engajado, porém pouco ativo atualmente dentro do mercado de renda variável”, afirmou. Em exercícios de sensibilidade apresentados pela companhia, um aumento moderado no engajamento e no volume médio negociado por investidor já teria impacto expressivo sobre o giro diário do mercado de ações.
Além do varejo, a B3 vê espaço para uma recomposição da alocação de investidores institucionais locais, que nos últimos anos migraram volumes relevantes para fundos de renda fixa, pressionados pelo nível elevado da taxa básica de juros. Estimativas apresentadas no evento indicam que mais de R$ 800 bilhões saíram de fundos multimercados e de ações nesse período, dos quais cerca de R$ 400 bilhões a R$ 500 bilhões estavam, originalmente, ligados a estratégias de renda variável.
No caso do investidor estrangeiro, a leitura também é de potencial reprecificação. Em entrevista coletiva após o evento, Finkelsztain afirmou que “para a renda variável, o estrangeiro vai ser bem relevante”, citando uma agenda de flexibilização monetária no exterior e a perspectiva de enfraquecimento do dólar. Segundo ele, apesar de a política monetária brasileira também caminhar para o afrouxamento, o processo tende a ser mais gradual, mantendo a renda fixa atrativa no curto prazo.
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Ainda assim, o executivo avalia que o patamar atual de alocação estrangeira em ações brasileiras é historicamente baixo, sobretudo quando comparado ao crescimento dos ativos sob gestão globais e à redução do peso do Brasil nos índices de mercados emergentes. “Há uma conjuntural percepção de que estamos num momento positivo”, afirmou. Para ele, 2026 “pode surpreender positivamente em termos de volume e fluxo de capital”.
Os tópicos também foram centrais para a discussão realizada a respeito dos IPOs — ou da atual falta deles. Apesar do hiato corrente, a B3 afirma que há atualmente 54 empresas já registradas e preparadas para acessar o mercado, à espera de uma janela mais favorável. Outras companhias seguem em diferentes estágios de preparação.
Finkelsztain ponderou que a abertura dessa janela depende essencialmente de demanda. “Aquelas 54 empresas vão acessar o mercado se tiver demanda”, disse. Ele acrescentou que uma retomada tende a começar por ofertas maiores, de setores mais estáveis, como energia, saneamento e infraestrutura, e que há possibilidade de isso acontecer ainda em 2026.
Para além da dinâmica de mercado, a B3 tem investido na modernização de sua infraestrutura para “reduzir fricções e criar condições mais eficientes de negociação”. Entre os destaques está o avanço na tokenização de processos e ativos, com o objetivo de preparar a companhia para um ecossistema híbrido, no qual infraestruturas tradicionais e tokenizadas convivem de forma integrada.
A bolsa anunciou que pretende lançar uma tokenizadora própria em 2026, com início previsto no mercado de ações. A iniciativa faz parte do projeto de modernização da depositária e busca tornar as movimentações fungíveis entre os dois ambientes. A proposta é criar uma base tecnológica para novos casos de uso e produtos, sem ruptura abrupta para participantes do mercado.
Nesse contexto, a B3 também estuda o uso de uma stablecoin própria como elemento viabilizador desse novo ecossistema, com aplicações potenciais na distribuição de ativos para o varejo, negociação em redes públicas e privadas e operações de compra e venda com maior flexibilidade. A companhia destacou que a demanda do mercado por ativos digitais desse tipo permanece relevante, mesmo com a desaceleração de outras iniciativas.
No segmento de derivativos, a leitura é semelhante. Embora o mercado brasileiro seja um dos mais sofisticados do mundo em termos de infraestrutura e presença de formadores de mercado, o volume negociado por pessoas físicas ainda é pequeno quando comparado a países como Índia e Estados Unidos. Para a B3, o contínuo lançamento de produtos, aliado a programas de incentivo, melhorias de liquidez e gestão de risco, pode trazer crescimento significativo em um ambiente macroeconômico mais favorável.
Já na renda fixa, a estratégia segue centrada na expansão do mercado secundário e na digitalização da negociação de títulos públicos e privados. A B3 destacou o crescimento do giro nesse segmento, que já supera com folga o volume diário do mercado acionário, além dos avanços na monetização de plataformas eletrônicas e na oferta de dados.
Combinadas, essas iniciativas reforçam a aposta da companhia em um modelo mais equilibrado entre receitas cíclicas e recorrentes. “Quanto mais a gente puder expandir negócios recorrentes dentro do nosso faturamento, a gente fica menos exposto à oscilação em função de taxa de juros”, afirmou Finkelsztain.
