Nasdaq se aproxima de companhias brasileiras e projeta mais IPOs em 2026
Enquanto o retorno das aberturas de capital (IPO) ainda parece um horizonte distante na B3, a Nasdaq reforça sua presença no Brasil de olho em companhias que buscam alternativas de captação no exterior. Representantes da bolsa norte-americana estão em São Paulo e, além de terem promovido uma rodada de reuniões com executivos e empreendedores locais, participaram da 1ª Conferência de IPO e Mercado de Capitais, realizada nesta quarta-feira (5) – movimento que também reflete o esforço da Nasdaq em estreitar laços com mercados emergentes.
Segundo os executivos Todd Heinzl, cofundador e presidente da 3 Dots Capital Advisory, e Jay Heller, vice-presidente e head de mercado de capitais e execução de IPO da Nasdaq, cerca de 35 empresas solicitaram reuniões individuais com a equipe da bolsa dos Estados Unidos. Dessas, 14 foram realizadas – embora não tenham revelado nomes, afirmaram que o movimento não se restringiu a fintechs, incluindo empresas do agronegócio, educação e saúde.
“O pipeline é bastante robusto.”, afirmou Lucy Pamboukdjian, diretora-executiva de mercado de capitais da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), que participou de um dos painéis junto a Heinzi e Heller. Também estavam presentes Manuel Garciadiaz, sócio da Davis Polk & Wardwell, e Libby Covington, diretora-gerente de mercado de capitais e novas listagens da Nasdaq.
Ainda de acordo com Lucy, o atual ciclo de juros impõe desafios, mas o horizonte geral é promissor. “Não são apenas ADRs, as empresas brasileiras estão fazendo listagem primária diretamente nos Estados Unidos”, disse. “Esperamos uma retomada mais clara em 2026, na medida em que a taxa de juros cair e os investidores voltarem ao mercado de ações.”
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Para Heinzi, o fator geracional tem grande importância. “A nova geração de empreendedores brasileiros pensa de forma global desde o início”, afirmou. O presidente da 3 Dots também falou sobre a necessidade de se preparar bem para um IPO, destacando que “não há um timing certo”, e que há empresas que abriram capital em meio a recessões e ainda obtiveram sucesso. Ele também afirmou que é necessário entender se o IPO faz sentido para o momento da companhia, dada a mudança radical que representa não apenas para o chefe da empresa, mas também para os funcionários e para a governança da instituição. “Às vezes, é preciso aprender a andar antes de correr”, afirmou o executivo.
Os painelistas declararam, ainda, o teor crucial de uma boa apresentação para a execução do roadshow. “Se você não consegue contar a sua história em uma apresentação, você provavelmente não tem a empresa na qual eu gostaria de investir”, acrescentou Heinzi.
Embora o interesse seja crescente, os participantes do evento destacaram que a maior parte das empresas ainda está em fase preliminar, avaliando possibilidades de estruturação e captação fora do país. Além disso, reforçaram o caráter de longo prazo do projeto da Nasdaq.
“Elas estão no estágio de levantamento de informações, tentando entender se esse caminho faz sentido para o momento delas”, explicou Heller. “Essas relações não se constroem da noite para o dia. É um trabalho de aproximação e educação do mercado.”
O movimento ocorre em um cenário de transição global. Após o desaquecimento das ofertas de ações desde 2022, a expectativa é de que 2026 marque o início de um novo ciclo de listagens, na medida em que as taxas de juros recuarem e o apetite por risco voltar. “Estamos vendo economias se reaquecerem, empresas rentáveis surgindo e uma nova geração de companhias se preparando para acessar o mercado”, acrescentou o executivo da Nasdaq.
Ainda de acordo com Heller, a motivação das companhias brasileiras, no entanto, não se resume a captar recursos. “Trata-se de construir reputação, ganhar visibilidade e acessar uma base de investidores muito mais ampla.”
Apesar do otimismo, os painelistas reconheceram que a atratividade de um IPO em outro país ainda esbarra na renda fixa. “Com juros reais elevados, a competição é desigual: é mais fácil ficar em casa e ganhar dois dígitos ao ano do que correr risco em ações”, analisou Lucy.
A Nasdaq evita caracterizar o avanço como uma disputa direta com a B3. Segundo os executivos, a estratégia passa mais por “parcerias de longo prazo” e pelo estímulo a estruturas de dupla listagem, em que a empresa mantém presença simultânea nos dois mercados. “Competição é saudável, mas o foco é oferecer alternativas. Nosso papel é educar e mostrar as possibilidades”, declarou Heller.
