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Mercado adia expectativa por corte de juro e espera Copom sem surpresa

Amanda Meneses

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central guarda pouca surpresa para o mercado, com perspectiva de manutenção da Selic em 15% ao ano e, possivelmente, a continuidade de um tom duro no comunicado. A possível pista sobre o “guidance” do BC, no entanto, poderá ser dada na ata. Após a mudança de rota do cenário de julho, quando o mercado cogitava corte já em dezembro de 2025, agora a discussão é sobre se o ciclo de afrouxamento dos juros deve iniciar já em janeiro ou um pouco mais à frente, até abril. Apesar das divergências sobre o ritmo e o início do ciclo, a visão é unânime: são precisos mais dados e com consistência para determinar os passos da autoridade. 

Na última reunião, que ocorreu nos dias 16 e 17 de setembro, houve alguma surpresa com o tom adotado e com a projeção de inflação. “É mais ou menos um consenso de que ele vai seguir com essa postura bastante dura, com uma mensagem de que é uma autoridade monetária muito cautelosa. Vimos isso no comunicado da última reunião”, diz Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil. 

Há, no entanto, alguma dúvida sobre o quão "hawkish" a autoridade monetária deve ser no tom do comunicado. Na análise de Júlio Barros, economista do Daycoval, apesar da melhora de alguns fatores, como inflação corrente mais baixa e acomodação cambial, estes avanços, embora necessários, não devem ser suficientes para alterar a posição do Banco Central em manter a taxa de juros em terreno contracionista por período bastante prolongado. "A principal dúvida é se será mantido o trecho em que o Comitê afirma que pode retomar o ciclo de alta de juros se for apropriado. Entendemos que esse trecho pode ser retirado, deixando as portas abertas para o início do ciclo de corte de juros no início do próximo ano. Caso contrário, se esse texto for mantido, a probabilidade do início do ciclo de cortes ser mais para frente deve crescer", opina.

No comunicado da reunião de setembro, o comitê reconheceu de forma mais forte que considera a taxa Selic no nível atual suficientemente restritiva, retirando a expressão “continuação da interrupção”. Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, essa comunicação foi feita “de maneira a evitar que o mercado se precipitasse”, ou seja, o BC optou por um tom mais duro a fim de não provocar uma antecipação nas expectativas de cortes.

Na visão de Vital, o elemento hawkish que o Banco Central pode trazer na reunião desta semana diz respeito à perseguição do centro da meta de 3%, que embora não seja um tema novo, tem no atual momento atual um ambiente propício para o reforço dessa mensagem.

Acontecimentos posteriores à última decisão, como o relatório de política monetária, e falas dos diretores do Banco Central, foram construindo a ideia de que o início do corte de juros aconteça “um pouco mais para frente”.

“Olhando a curva de juros, por volta do dia 10 de setembro, ou até um pouquinho antes, a gente tinha uma curva que mostrava uma probabilidade de corte em janeiro que era alguma coisa entre 50%, 40% de probabilidade, uma probabilidade relevante. Depois da decisão e com essa série de eventos, essa probabilidade zerou”, conta Marianna, dizendo que hoje, essa aposta é muito pequena. “Essa expectativa de começo de ciclo migrou para janeiro, talvez até mais para março.”

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Ainda que haja uma queda das projeções de inflação para 2025, seja pelas previsões do Focus ou de outros entes, algumas surpresas inflacionárias um pouco mais benignas (como IPCA-15 e IGP), e expectativas menos desancoradas, isso não é suficiente para antecipar o ciclo e dar mais confiança ao BC. A queda dessas projeções reflete um cenário de preços de alimentos e bens industriais bem comportados em 2025 e a perspectiva de desaceleração da atividade econômica nos próximos meses, “ainda assim, elas seguem acima da meta de 3% para todo o horizonte pesquisado (até 2029), fato que demanda juros altos por mais tempo”, pontua Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG.


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Há uma recomposição de preços e o IPCA-15 de outubro mostra um comportamento um pouco melhor de bens de serviço, assim que preços de alimentos, que podem seguir até o fim do ano. É necessário que esta dinâmica se materialize para que o cenário um pouco mais benigno da inflação corrente impacte as expectativas de preços.

Além disso, o ponto que permanece como desafio é o mercado de trabalho resiliente — embora se espere uma reação com maior defasagem, os dados ainda se mantêm fortes e sem sinalização mais clara de uma inflexão. A economia, embora apresente sinais mais claros de desaceleração, ainda guarda alguma resiliência. 

Outro fator que poderia surtir algum efeito na inflação é o câmbio, diante do movimento de diversificação global para regiões além dos EUA e que poderia ganhar impulso com a recente redução dos juros pelo Federal Reserve, banco central norte-americano. A tendência é que esse dólar fraco e o diferencial de juros atraiam mais capital ao Brasil, mas o impacto na inflação pode não ocorrer. 

“A expectativa de um câmbio mais valorizado não é clara porque se aproximando do final de ano tem uma sazonalidade que pressiona a moeda americana pela saída de recursos”, afirma Marianna, da Mirae Asset, lembrando que, por mais que haja essa perspectiva positiva vinda do corte de juros nos Estados Unidos não é tão claro como isso afeta o Brasil. “Mas deixa esse viés melhor para a moeda, e tendo esse comportamento melhor você pode ter esse reflexo positivo na expectativa de inflação.”

Os especialistas acreditam que o Brasil possua fatores que atraiam esse capital estrangeiro. Com o corte nos EUA, que favorecem emergentes, o movimento ganha força. Eles ponderam, no entanto, a situação econômica do país, mediante a inflação ainda fora da meta e pontuam o fiscal, ainda sem resolução. 

O cenário, para eles, é unânime: cortes apenas em 2026, mas o início do ciclo ainda não é consenso. A Warren acredita em cortes ainda no primeiro trimestre e, para Vital, a depender da evolução dos indicadores, “podemos ter condições para cortes já na reunião de janeiro”. 

No BMG, a leitura é similar. A desancoragem das expectativas e a resiliência do mercado de trabalho, que segue contribuindo para manter a inflação de serviços em patamares mais elevados, continua incomodando os membros do Copom. “Assim, o comitê deverá esperar mais algum tempo e coletar mais dados, visando ter um nível de confiança maior para iniciar o ciclo de alívio monetário, diz Serrano, complementando que o processo deverá começar no 1º trimestre de 2026 e se estender por boa parte do ano que vem. “No final do ciclo de queda de juros, esperamos a taxa Selic em 12% a.a.”

Na Mirae Asset, Marianna observa uma probabilidade grande de corte de 25 bps em janeiro e que o Banco Central aceleraria para os cortes de 50bps nas reuniões posteriores, seguindo com as reduções até por volta de setembro. “Seriam seis reuniões consecutivas. Acho que vai ficar entre janeiro e março, principalmente em relação à magnitude desse primeiro corte, como a chance de vermos o aumento da probabilidade do corte de 50 bps, começar com essa magnitude é bastante razoável considerando a taxa de juros está em um nível bastante elevado. A discussão está mais ou menos por aí e até onde corta. Com consenso de 12% a.a no final”, diz a economista.