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Renda fixa em alta, fragilidade fiscal e avanço da IA guiam debates sobre investimento global

Victor Aguiar

Da esquerda para a direita: Luis Oliveira, da PIMCO; Isabella Nunes, do JP Morgan Asset Management; e Clara Sodré, da XP. | Créditos: Divulgação
Da esquerda para a direita: Luis Oliveira, da PIMCO; Isabella Nunes, do JP Morgan Asset Management; e Clara Sodré, da XP. | Créditos: Divulgação

A mudança no regime global de juros, o aumento da sensibilidade dos mercados ao risco fiscal e o impacto econômico do avanço acelerado da inteligência artificial foram alguns dos temas que dominaram parte das discussões na XP Global Conference 2025, realizada nesta segunda-feira (24). Os debates reuniram gestores e economistas para discutir como navegar um mundo em que a renda fixa recuperou protagonismo e no qual a internacionalização das carteiras continua sendo tratada como peça-chave na construção de portfólios.

No painel “Caminhos para a Renda Fixa Global”, Luis Oliveira, vice-presidente executivo da PIMCO para a América Latina, Isabella Nunes, diretora comercial do JP Morgan Asset Management Brasil e Clara Sodré, analista de fundos na XP Investimentos, convergiram na avaliação de que a renda fixa voltou a ganhar relevância, mas exige seletividade. 

Para Oliveira, o setor “volta a ter um papel mais interessante dentro dos portfólios”, embora os prêmios mais “comprimidos” e a dispersão entre regiões imponham cautela. Ele chamou atenção para o fato de que, mesmo com taxas nominais mais elevadas, segmentos como high yield negociam com spreads historicamente apertados, o que limita o espaço para ganhos.

Isabella, por sua vez, destacou que a mudança de regime não é apenas monetária, mas também fiscal, com os mercados consideravelmente mais ensíveis a sinais de deterioriação das contas públicas. Segundo ela, episódios recentes no Japão, no Reino Unido e na França sugerem um ambiente menos tolerante a desvios fiscais. “O mercado está muito menos tolerante com bagunça fiscal”, afirmou Isabella, lembrando que choques em curvas soberanas, hoje, se propagam mais rápido e repercutem em diversas classes de risco, inclusive crédito privado e duration longa.

Clara, da XP, reforçou que, para o investidor brasileiro, o movimento global não se limita ao retorno da atratividade da renda fixa, mas recoloca o papel diversificador da alocação internacional no centro do debate. “Quando olhamos para a correlação das classes de risco no Brasil, o exterior segue sendo o melhor amortecedor”, afirmou ela.

Ainda de acordo com Clara, a predominância estrutural de renda fixa local, especialmente atrelada ao CDI, acaba “mascarando” a volatilidade real do portfólio quando observado pela ótica global. Ainda assim, ela reconheceu que a assimetria atual em treasuries longas e a perspectiva de cortes irregulares nos juros dos Estados Unidos criam um ambiente fértil para gestores ativos, especialmente entre os que têm estratégias mais “táticas” de renda fixa global.

Ao longo do painel, também foi discutido o comportamento das curvas longas diante do quadro fiscal das economias centrais. Isabella mencionou o aumento do term premium nos EUA e as dificuldades do Japão para conviver com um juro estruturalmente mais alto após décadas de deflação. Oliveira acrescentou que, embora os riscos sejam evidentes, as condições desses mercados criam oportunidades de valor relativo e trades de steepening e flattening em janelas curtas. O consenso entre os três foi de que a renda fixa global está mais interessante, mas também mais técnica, e que exige atenção às particularidades regionais, além de uma capacidade de navegar regimes que mudam com velocidade incomum.


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Da esquerda para a direita: Ana Madeira, do Morgan Stanley; Daniel Popovich, da Templeton Investments; e Artur Wichmann, da XP. | Créditos: Divulgação
Da esquerda para a direita: Ana Madeira, do Morgan Stanley; Daniel Popovich, da Templeton Investments; e Artur Wichmann, da XP. | Créditos: Divulgação

Diversificação internacional e “novo ciclo global”

Na sequência, o painel “Alocação Global em Foco”, que contou com a participação de Ana Madeira, economista chefe para Brasil do Morgan Stanley, Daniel Popovich, portfolio manager na Franklin Templeton Investments, e Artur Wichmann, CIO da XP, levou a discussão para padrões estruturais de portfólio. 

De cara, Wichmann apontou o problema da baixa diversificação do investidor local: “O Brasil é menos de 1% do mercado de capitais global. Será que nos 99% restantes não há boas oportunidades?”, questionou ele, dizendo que ainda há uma leitura equivocada de que investir fora é um “gesto binário” de saída do risco Brasil, e não a mera busca por classes e setores indisponíveis no mercado doméstico.

Popovich reforçou que grande parte dessa concentração é resultado não apenas do hábito, mas da própria moldura regulatória. Ele lembrou que fundos de pensão, ainda hoje, têm limitação de 10% para investimentos internacionais, ampliados a cerca de 20% se incluídos BDRs. “Quando você coloca o CDI no contexto global, a volatilidade dele é enorme”, afirmou, criticando o entendimento de que o indexador representa um ativo livre de risco. Ainda segundo o especialista da Franklin Templeton, a abertura gradual da alocação internacional será inevitável, mas ainda depende de mudanças regulatórias e de um processo de reeducação financeira que coloque a diversificação como pilar central da construção do portfólio.

A perda de força do dólar observada no passado recente também entrou na pauta. Para Wichmann, foi a grande surpresa de 2025, dada a magnitude do acontecimento. Ana atribuiu o fato a temores de recessão, expectativas de cortes mais agressivos pelo Fed e pressões do governo americano por juros mais baixos. Para o futuro, ela acredita que parte dessa depreciação vá se reverter, embora não totalmente.

“Seguimos com um dólar relativamente fraco, mas ainda com um cenário construtivo para moedas emergentes por razões mais globais do que domésticas”, disse a economista do Morgan Stanley.

Os painelistas também conversaram sobre o impacto da inteligência artificial sobre o crescimento, produtividade e valuations. Ainda segundo Ana, os modelos do Morgan Stanley já incorporam ganhos de produtividade para os EUA e, em menor escala, para a China. “Tem alguns basis points que vêm claramente da produtividade gerada por IA”, afirmou. 

Popovich destacou o efeito no dia a dia da indústria financeira, afirmando que a IA “transformou a forma como a gente trabalha”. Ele acrescenta que, na visão dele, a comparação com a Bolha PontoCom não se sustenta, dado que o investimento feito em IA hoje é financiado por empresas altamente rentáveis, e não por companhias pré-lucro que captavam capital com promessas vagas. Wichmann rebateu dizendo que há excesso nos múltiplos, mas amenizou ao afirmar que o ciclo de investimento está apenas no início. “Estamos aos 30 minutos do primeiro tempo”, disse o CIO da XP.