Emissão de bonds em 2025 registra o segundo melhor resultado em uma década
A captação externa de empresas e do governo brasileiro via emissão de bonds caminha para o melhor ano em quase uma década. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais) mostram que até outubro deste ano, a captação externa foi de US$ 31,11 bilhões. Se somarmos a emissão do Tesouro Nacional de novembro, no valor de US$ 2,25 bilhões, o montante vai a US$ 33,36 bilhões captados, perdendo apenas para o desempenho de 2014, quando o empresas e governo levantaram no exterior US$ 42 bi em bonds. A presença expressiva do Tesouro Nacional no mercado foi o divisor de águas em 2025.
Nas contas do Itaú BBA, que incluem qualquer operação com algum ‘DNA brasileiro’, o número é ainda mais expressivo, chegando a US$ 38 bilhões em 40 operações. “A gente teve um ano atípico em termos de volume. Historicamente, tirando anos de eleições que reduzem as janelas, empresas captam via bonds entre US$ 20 bi e US$ 25 bi. Estamos perto de US$ 38 bi”, comenta Pedro Frade, responsável pela área de Dívida Externa do Itaú BBA, acrescentando que não houve grandes alterações no perfil das emissões ao longo de 2025.
“Menos de 10% das emissões foram de companhias sem receita em dólar, como por exemplo Rede D’Or, de hospitais, e a Vamos (locação de caminhões), e feitas com objetivo de diversificar a base de credores. As demais foram de grandes empresas onde o mercado externo faz sentido em termos de passivo”, explica Frade, acrescentando que o volume maior no ano veio, principalmente, do apetite do Tesouro Nacional.
Na última emissão do Tesouro, realizada em novembro, foram levantados US$ 2,25 bilhões, com a reabertura de um papel com vencimento em 2035 e um novo titulo para 2033. Somando as três outras emissões do ano, o Tesouro levantou US$ 10,75 bilhões. “O governo tem feito um esforço, confirmado abertamente, de aumentar o percentual da dívida externa sobre a dívida total do Brasil e tem se comprometido a formar uma curva de papéis ESG.” A última captação foi de um green bond.

Miguel Diaz, head do Santander Brasil para a área de renda fixa externa, também destaca em primeiro plano a forte presença do Tesouro no mercado. “Foi um divisor de águas, foi o ano mais ativo do soberano na história, tanto em volume quanto em número de deals e número de séries que eles acessaram. Isso fez muita diferença”, comenta Diaz, acrescentando outro aspecto que ajudou o volume recorde. “Esse ano, teve uma predominância muito grande de empresas investments grade, de uma porte maior. E essas companhias, via de regra, tendem a vir com captações grandes.”

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O custo das transações, fator naturalmente relevante para o processo de uma emissão de bonds, na visão de Diaz, não foi central em 2025. “As transações saíram muito boas, mas não foi o principal driver. Em outros anos, de fato, as empresas estavam vindo a mercado porque o preço estava muito atrativo. Em 2025, a taxa livre de risco, ponto de partida das emissões, estava historicamente alta. Ao final, a taxa de retorno dos papéis das empresas brasileiras acabaram sendo condizentes com o mercado, mas não colocaria isso como um fator diferencial.” Na maior parte dos casos, acrescenta o executivo, empresas que foram a mercado tinham uma decisão estratégica, já com exposição ao mercado externo e “queriam se manter ativa lá foram, o motivo estratégico foi maior do que custo”.
O ano para papeis de empresas emitidos no exterior, em especial negociados no secundário, não foi dos mais tranquilo. Pedro Frade, do BBA, lembra casos de Ambipar e Braskem, que estressaram o mercado e derrubaram o preço dos papeis. “Tivemos um período de volatilidade, principalmente após Ambipar, afetando o secundário de vários papeis. A gente já teve o retorno para níveis pré-anúncio dessas empresas, para os melhores nomes.”, explica Frade, acrescentando que nas emissões primárias o comportamento do investidor em relação a bonds brasileiros dependeu do perfil de crédito das empresas. “Para as com perfil high grade não tiveram que pagar mais pelo momento de estresse, agora nas high yield, aonde os níveis secundários não retornaram ainda aos níveis que eles estavam sendo negociados antes desses eventos, se vierem ao mercado vai estar no preço.”
Reta final dos bonds em 2025
A emissão do Tesouro Nacional de novembro pode ter sido a última captação externa relevante do ano. Diaz, do Santander, considera improvável que o Tesouro volte ao mercado. “Eu ficaria bem surpreso se viesse de novo. Até o fim do ano temos esta semana, que pode ocorrer algo, depois a semana do Thanksgiving (Dia de Ação de Graças) nos Estados Unidos, que para tudo, e na sequência dezembro que é sempre muito fraco”, explica o executivo.
Pedro Frade, do Itaú BBA, faz coro e vê pouca possibilidade de emissões relevantes na reta final de 2025. “Não temos nada no pipeline. Obviamente, tem emissores que podem olhar, mas há uma complexidade no final do ano”, citando o feriado americano e dezembro, sempre fraco. “Além disso, as empresas estão saindo com resultados trimestrais agora. Um pouquinho antes dos resultados e um pouco depois dos resultados, eles não emitem no exterior porque evitam usar números que serão afetados por uma divulgação iminente, ou precisam atualizar a documentação com novos números que serão publicados.”
