Copom mantém Selic a 15%, sem descartar nova elevação “se apropriado”; juro real vai a 9,74%
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a Selic inalterada, em 15%, na reunião encerrada nesta quarta-feira (5). A decisão já era esperada e precificada pelo mercado, que discutia apenas sobre o nível de “dureza” da autoridade monetária em sua comunicação. O BC, no entanto, não retirou o trecho de que “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado”, repetindo o discurso que o cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. Com isso, o juro real do Brasil, taxa de juros que mede o rendimento de um investimento após a dedução da inflação (juro nominal menos a inflação), chega a 9,74%, ficando atrás apenas da Turquia, segundo a MoneYou.
Em maio, segundo o levantamento do economista Jason Vieira, da MoneYou, o país ocupava a terceira posição, com juro real a 8,65%, mas em junho passou a ocupar o segundo lugar no ranking, que considera 40 países, e permanece na posição desde então. Essa trajetória do juro real no Brasil, na análise de Vieira, tem se mantido relativamente consistente, dado que mesmo com a perspectiva de queda de juros no futuro, que altera, obviamente, alguns vértices da curva, ainda há um cenário em que há pressões fiscais e esse processo de desancoragem das expectativas de inflação, que, em parte, acaba pressionando os vértices da curva, mantendo o juro real elevado.
"Agora não está muito diferente do restante do ano, porque não só no período que os juros estavam subindo tinha uma perspectiva de alta. Ou seja, já influenciava uma curva, como efetivamente agora a estabilidade e as taxas futuras também estão indo na mesma linha", aponta.
A decisão do comitê nesta quarta foi tomada por unanimidade, avaliando que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O Copom repetiu a comunicação que o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, e que o cenário exige cautela por parte de países emergentes. Os membros também destacaram que o conjunto dos indicadores domésticos segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo.
Para Marcos Moreira, sócio da Garten Capital, a decisão veio em linha com o que o mercado já esperava, e o comunicado, que o mercado esperava para entender se o BC poderia dar uma direção mais clara de sobre o início do ciclo de corte de juros, veio na mesma linha "hawkish "mais dura".
"A leitura que tivemos aqui é que o Banco Central permanece com uma postura mais hawkish, uma postura mais restritiva. Basicamente, destacou principalmente o cenário de inflação ainda elevada aqui e essas expectativas desancoradas, principalmente quando consideramos o horizonte de tempo, de 18 meses, que está no horizonte de decisão do BC, e o mercado de trabalho, ainda bem dinâmico", pontua Moreira.

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O Copom manteve a Selic e adotou um tom cauteloso, sem sinalizar cortes no curto prazo. "A decisão reforça o compromisso com o controle da inflação, que segue próxima do teto da meta, e reflete preocupações com o cenário fiscal e a resiliência do mercado de trabalho”, diz Volnei Eyng, CEO da Multiplike. “Nesse momento, adiantar a redução da Selic, embora a inflação esteja se aproximando do teto da meta, levaria a uma redução da curva de juros curta, mas no médio e longo prazo essa curva de juros aumentaria.”
O comitê ressaltou que as expectativas de inflação para 2025 e 2026 relatadas pelo Boletim Focus permanecem em valores acima da meta, em 4,5% e 4,2%, respectivamente, e também que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual, mas optou por manter a taxa básica de juros em 15% a.a., entendendo que “essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”. A autoridade não descartou retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.
Com a decisão, enquanto a inflação cai e os juros nominais seguem estáveis, o juro real segue subindo. Segundo levantamento da MoneYou, o Brasil, com seus 9,74% de juros reais, fica atrás apenas da Turquia, aos 17,8%. Atrás do Brasil ficam Rússia, com 9,10%, e Argentina, aos 5,16%.
“Com a Selic mantida em 15%, e com projeções recentes de inflação sendo revisadas para baixo, o juro real sobe, o que significa que o investidor, em teoria, estaria ganhando poder de compra maior ao aplicar em ativos atrelados a juros. Por exemplo, o Brasil, com Selic em 15%, está entre os países com segundo maior juro real do mundo”, lembra Sidney Lima, analista da Ouro Preto investimentos.
A percepção em relação ao comportamento do juro real é que ele segue elevado e com um viés altista, em particular após a decisão do Copom de hoje. "Esta percepção reflete a revisão para baixo das projeções para o ano de 2025 e para o horizonte relevante de tempo para a política monetária. No entanto, os juros reais mais pressionados ajudam na avaliação de que a Selic está em patamar bastante restritivo e a revisão para baixo das projeções de inflação indicadas pelo modelo econométrico do BC sugerem que está cada vez mais próximo o início do ciclo de afrouxamento monetário", pontua Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, complementando que, neste contexto, os juros reais, hoje mais elevados, não devem perdurar por tanto tempo.
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