Shutdown nos EUA deve causar volatilidade no curtíssimo prazo, dizem especialistas
Com a falta de acordo entre o governo de Donald Trump e os democratas sobre as contas dos Estados Unidos, e o início do ano fiscal norte-americano neste 1º de outubro, o país iniciou o seu shutdown, paralisação parcial das atividades públicas. Agora, o que se discute, é a duração desse movimento e os impactos para a economia dos EUA e o mercado de capitais. Para especialistas, o shutdown deve ser breve, mas não sem consequência. No curto prazo, a paralisação das atividades do governo americano tende a causar volatilidade e impactar na formulação da política de juros, pela ausência de dados.
No processo de shutdown, serviços considerados não essenciais são suspensos. O impasse atual que gerou o evento envolve divergências entre republicanos e democratas sobre a inclusão de gastos adicionais em saúde.
O último shutdown ocorreu há cerca de sete anos, no mandato anterior de Trump. Além dos impactos à própria máquina pública, para os investidores, o foco está no risco de interrupções nos dados econômicos, como o payroll, relatório sobre o mercado de trabalho norte-americano, agendado para sexta-feira (03). Esses dados são cruciais para prever a trajetória dos cortes nas taxas de juros, visto o mandato duplo do Federal Reserve (Fed).
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O shutdown, diferentemente de um default, não é um calote. O Tesouro continua honrando seus compromissos financeiros. Historicamente, pontua Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, shutdowns curtos costumam ter impacto restrito nos mercados, provocando apenas episódios de volatilidade pontual. “Porém, caso o impasse se estenda, a situação pode ampliar as incertezas sobre a economia norte-americana e, sobretudo, atrasar a divulgação de indicadores cruciais — especialmente os dados do mercado de trabalho, hoje a principal referência para as próximas decisões de política monetária do Fed”, diz.
A depender da extensão deste shutdown, isso pode afetar outras divulgações, como, por exemplo, o CPI, dado de inflação dos EUA. “Poderia dar mais indicativos de como as tarifas vêm impactando os preços nos Estados Unidos. Outro ponto importante é que este shutdown pode afetar, e muito, o mercado de trabalho, com possíveis licenças. Isso, de fato, vai gerar uma perda para a economia”, pontua Sung, da Suno.

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O economista André Perfeito rememora que há dois períodos recentes de shutdown nos EUA, um em 2013, que durou 16 dias, e outro entre 2018 e 2019, que durou 35 dias, episódios bem documentados, “em ambos os casos, os juros curtos subiram na perspectiva política mais incerta, além da falta de dados mais precisos sobre a economia. Num shutdown, os dados de Inflação, mercado de trabalho e PIB, por exemplo, são prejudicados com a paralisação do BLS e o BEA, o equivalente ao IBGE no Brasil”, diz. No entanto, ele lembra que, nos dois casos citados, houve queda dos juros mais longos na esteira do “flight to quality”, típicos de momentos como esse.
Para outros especialistas, como Marcos Praça, diretor de Análise na Zero Markets Brasil, e Norberto Zaiet, CEO da Picea Value Investors, family office baseado em Nova York, apesar do impasse, esse shutdown tende a passar sem grandes consequências. A expectativa é que a resolução seja rápida.
“Acredito que não vá se estender por muito tempo. Deve se resolver nos próximos dias. E no caso, depois disso, já se acomoda novamente, já volta aos valores reais dos ativos. Por enquanto, teremos esse trading especulativo ao redor do mundo, mas é muito passageiro. É bem curto prazo”, opina Praça, lembrando que os custos dessa paralisação são altos e é um processo danoso à economia dos EUA, algo que o governo sabe e deve evitar perdurar.
A impressão de Zaiet é que não haverá grande efeito, e, inclusive, olhando o desempenho de Wall Street, embora tenha caído no início desta quarta-feira (01), uma série de ações, como Tesla e Nvidia, e ativos como o Bitcoin subiram no pregão. “O que eu estava sentindo mais no começo eram as ações de empresas mais relacionadas à economia real, mas acho que estamos num momento aqui na economia americana que parece haver um ganho de produtividade muito grande. Um momento de investimento em capital, nessa parte de dados, data centers…”, diz, complementando que há uma série de impactos que poderiam afetar a inflação, como as tarifas, e um crescimento mais alto do que esperado, “mas não está tendo pressão”. Para ele, o ambiente parece muito benigno, apesar das questões no governo.
O risco, para Zaiet, é se a discussão perdurar. Um período de duas semanas com o shutdown “se arrastando” já seria desconfortável para a economia e para o mercado. “O outro lado da moeda disso tudo é que no final do dia força mais o Fed a baixar juros. A impressão que tenho, é que tudo isso é barulho. Se tiver mais barulho, vai tornar o ambiente meio instável no curto prazo. Mas, eventualmente, isso é resolvido”, complementa.
