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Apesar do juro alto, companhias “se comportam bem”, avalia head de crédito privado da Inter Asset

Amanda Meneses

O mercado de crédito privado, apesar do cenário de juros elevados e incertezas econômicas, demonstra resiliência, com as companhias apresentando um bom desempenho geral. Essa avaliação foi destacada durante o 46º Congresso de Previdência Privada, onde especialistas da Inter Asset discutiram os desafios e as oportunidades do setor, mesmo diante de eventos pontuais que não refletem a saúde do mercado como um todo.

Dado o cenário de “bastante incerteza”, juros elevados e fatores políticos internos e externos que pesam, os holofotes do mercado se voltam para a saúde financeira das empresas, em especial, às suas estratégias e movimentos em relação à captação e seu comportamento no crédito privado.

No painel Renda Fixa no Brasil 2026 – Navegando risco e capturando oportunidades, Helena Lage, head de Crédito Privado da Inter Asset, falou sobre o custo do dinheiro e o papel que o mercado de capitais tem tomado em relação ao crédito. Apesar de um juro muito alto, as empresas, de modo geral, especialmente no âmbito do crédito high grade, universo observado pela gestora, “se comportaram muito bem”, segundo a executiva. “Falando um pouco mais do nosso mundinho, das maiores empresas, vimos que esses últimos anos, apesar de juros altos, as empresas, de um modo geral, se comportaram muito bem. Um capex comportado, ninguém fazendo planos de investimento gigantescos, o mercado de capitais permitindo que as empresas se financiassem de uma forma muito competitiva”, disse Helena, apontando que as companhias conseguiram aproveitar esse momento de mercado, e lembrando que os spreads foram se fechando.

Do total de cerca de R$ 10 trilhões da indústria de fundos, 60% dela é referente à renda fixa, uma parcela significativa, o que torna o brasileiro “basicamente especializado em renda fixa”, destaca Ian Lima, gestor de Renda Fixa Ativa da Inter Asset. Em relação às oportunidades, a Inter Asset reconhece que elas existem, mas faz uma relação de preço e “o que aconteceu no passado”, ponderando que a política monetária, que tem alto impacto nos ativos, é difícil de prever. “Especificamente em renda fixa, a gente simplifica muito, mas ela tem vários ativos. Temos que tratar isso caso a caso e cada um tem sua oportunidade, principalmente nos títulos longos. Mas basicamente, falando de Brasil, os títulos de inflação estão com níveis de preço bastante atrativos”, diz Lima.

Durante o painel, os especialistas também discutiram sobre o custo de captação e o nível dos spreads. Com uma Selic a 15%, é inevitável que esse custo esteja caro, pontua Helena. “Os spreads, que podemos falar que estão em níveis mais baixos do que tínhamos na média, mas ainda é um custo nominal alto, seja para quem se financia em IPCA, seja para quem se financia atrelado ao CDI. Isso ainda segura as dívidas. E para as empresas também, de certa forma”.

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Nesse cenário, ganha atenção a discussão sobre o início do ciclo de corte da Selic, sobre o qual o mercado ainda tem dúvidas. Lima lembra que parte da comunicação do Banco Central sobre os juros restritivos por tempo prolongado ocorre de maneira a controlar as expectativas do mercado. “Já tem muito tempo que estamos nesses 15%, não está na hora de flexibilizar? O BC precisa ver as condições estarem postas na mesa para poder fazer esse movimento sem ter que abortar no meio do caminho ou até fazer uma reversão. E no que ele se baseia? Nas expectativas, que ainda estão desancoradas”, diz.

O executivo destaca que o mercado já está sentindo o efeito dessa Selic de 15%, mas que “ainda não é suficiente”. Mesmo que haja um espaço para cortar de 15% para 14%, por exemplo, Lima destaca que “não faz sentido ele se mexer, porque no mercado não existe ciclo de dar dois cortes de 50 bps e acabou”, por isso, a autarquia prefere “se conservar” e ganhar mais tempo para realizar um corte mais célere.

Embora esse início do ciclo de corte não esteja claro, seja em dezembro ou o início de 2026, a Inter Asset espera que, a se confirmar a redução, o cenário de spreads e postura das empresas deve mudar. “Para o mercado de crédito, de fato, pode ser o início da mudança desse comportamento das empresas, mais conservador, de mais foco em caixa, em manter cronogramas tranquilos e ninguém investindo tanto, pensando tanto em crescimento”, opina Helena, dizendo que os recursos, por ora, vão para gestão de ALM(Gestão de ativos e passivos), mas que passarão a ir para planos de investimento e crescimento. 

Helena também lembrou dos casos recentes do crédito privado, como Ambipar, Braskem, e Raízen, dizendo que são eventos isolados e não atrelados à Selic, justificando a situação das empresas como problemas de governança e de estratégia das próprias companhias, cujos dirigentes são considerados “mais otimistas com o Brasil”. “Vale comentar que a gente teve alguns casos pontuais no mercado de crédito recentemente, mas não foram por questão de conjuntura, não é porque a Selic está muito alta. Todos os casos foram pontuais de cada uma das empresas”, disse, citando características atenuantes de cada uma, como setor cíclico, custo alto de matéria-prima e plano de investimentos. 

Durante o painel, os executivos também mencionaram a possibilidade de entrada de capital estrangeiro e os impactos para o dólar e o real. Lima lembrou que “a bolsa está nas máximas e o câmbio nas mínimas recentes”, o que favoreceu um movimento de capital estrangeiro, especialmente diante do tema de diversificação em relação aos Estados Unidos. “Olhamos muito a performance da nossa moeda no ano, mas esquece o que aconteceu nos últimos três meses do ano passado, que foi bastante catastrófico. O Brasil ainda tem um espaço para vir [esse capital gringo], mas acho que é questão de tempo. O Brasil, hoje, está longe dele ser uma moeda short. É moeda ponta longa para quem opera moedas, justamente pela questão do diferencial de juros”, opina o gestor, complementando que com o CDI curto e com a taxa mais curta dos EUA essa taxa vai ficar ainda mais atrativa e, com essa “cereja do bolo” de quem acredita nesse carrego eleitoral de uma alternância de poder, na “renda fixa tem uma oportunidade de ouro”.


Entenda cada etapa da montagem de FIDCs, da teoria à execução no curso Estruturação de FIDCs