Alerta do FMI sobre stablecoins é senha para reforçar pedido por regulação
O mercado das stablecoins, cujo potencial especialistas apontam estar na casa de trilhões, voltou ao radar de players do mercado tradicional e reguladores, diante de sua crescente ascensão e do movimento de institucionalização das criptomoedas. Nesta terça-feira (14), o Fundo Monetário Internacional (FMI, em português) alertou em seu relatório semestral de estabilidade financeira sobre riscos à estabilidade do mercado de stablecoins, citando possíveis impactos em depósitos, mercado de títulos e até na política monetária. Outras instituições também mencionaram monitorar o tema. Para especialistas consultados, no entanto, apesar de haver alguns riscos, a preocupação é, em boa parte, oriunda de um “temor do desconhecido” e da reestruturação do sistema financeiro atual.
Esta semana, o FMI alertou que esses ativos digitais poderiam ameaçar a estabilidade financeira, prejudicar a política monetária, substituir o crédito tradicional e até provocar uma corrida por ativos seguros, como títulos do Tesouro. “A stablecoin é um real, é um dólar careca. Você só negocia a moeda e os juros ficam com quem emitiu. Isso coloca o seguinte dilema dentro do sistema: quando eu coloco o meu dinheiro no banco, a rigor, eu estou colocando lá e emprestando a zero, não ganho dinheiro nenhum. Isso é muito similar ao que a stablecoin faz, só que ela tem outras vantagens”, pontua André Perfeito, economista, citando uma questão regulatória que precisa ser bem-definida. “Por outro lado, a existência de stablecoins gera uma demanda adicional por títulos públicos.”
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Murilo Cortina, diretor de novos negócios da QR Asset Management, pontua que, de fato, se um volume crescente de stablecoins passa a ser lastreado em Treasuries, esse movimento pode ter implicações para a dinâmica de dívida pública e para a própria política monetária americana. “Mas, ao mesmo tempo, é difícil ignorar que o processo de tokenização traz ganhos estruturais de eficiência, transparência e velocidade de liquidação inéditos na história das finanças”, diz.
Esta semana, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) também afirmou estar vigilante sobre o tema, enquanto outros órgãos de fiscalização, incluindo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o Banco Central Europeu (BCE) e a Organização Internacional de Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO), já haviam alertado sobre riscos.
Na opinião de Francis Wagner, head de criptomoedas da Hurst Capital, o alerta recente sobre riscos das stablecoins ao sistema financeiro tradicional reflete, em grande parte, um receio natural de transformação estrutural. “É compreensível que instituições estabelecidas vejam na expansão dos criptoativos uma ameaça à sua posição central no sistema monetário global. No entanto, o que se observa não é um risco crescente, e sim uma evolução inevitável rumo a um modelo mais eficiente, transparente e globalizado”, diz. Ele menciona que as stablecoins, quando devidamente lastreadas e auditadas, representam hoje uma das inovações mais relevantes do sistema financeiro moderno. "Operam 24 horas por dia, sete dias por semana, com liquidação instantânea e sem fronteiras, algo que o sistema bancário tradicional ainda não é capaz de oferecer."
Embora ainda haja ajustes regulatórios e operacionais necessários para consolidar padrões de transparência, governança e supervisão, esses aprimoramentos fazem parte do processo natural de amadurecimento.

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A visão de outros especialistas é similar em relação ao temor do mercado tradicional sobre a mudança de estrutura que ativos digitais podem causar. Luan Aral, trader e especialista em dólar da Genial Investimentos, lembra que, hoje, existem mais de US$ 160 bilhões em stablecoins em circulação. O USDT, por exemplo, movimenta diariamente mais que o próprio Bitcoin. “Empresas e bancos digitais usam stablecoins para liquidações instantâneas, com custo quase zero e sem fronteiras. Elas não criam dinheiro novo — apenas tokenizam o que já existe, mantendo lastro em títulos públicos e depósitos supervisionados, com auditorias independentes”, aponta.
Em relação ao risco na política monetária, Aral pontua que o controle continua com os bancos centrais. Para ele, cada stablecoin lastreada em dólar fortalece, e não enfraquece, a presença global da moeda americana. Já sobre o crédito tradicional, ele pontua que não há substituição, e sim otimização. “As stablecoins tornam o capital mais líquido e acessível, permitindo empréstimos tokenizados, com custos até 80% menores”, diz.
Para um impacto na política monetária dos países, a escala de adoção das stablecoins deve ser em massa. Seria necessária uma hiperdolarização para os efeitos vislumbrados pelo FMI. “No limite, você percebe que as moedas locais iam diminuir absurdamente a demanda, do real, do peso chileno, do rand sul-africano, e todo mundo deve estar atrelado a dólar. Isso poderia gerar, obviamente, uma ineficácia das políticas monetárias de vários países. Mas isso se o uso for absurdamente generalizado”, explica Perfeito.
Fabrício Tota, diretor de Novos Negócios do MB | Mercado Bitcoin, diz que o risco real é a dolarização em economias frágeis, onde a moeda local perdeu credibilidade. “Mas sejamos honestos: se a política econômica é errática e a moeda doméstica se deteriora, é legítimo que a população busque alternativas para preservar patrimônio”, opina, acrescentando que as stablecoins são a camada que faltava nas finanças: liquidação instantânea, liquidez programável e interoperabilidade global. “O risco não é a inovação em si. O risco é não trazê‑la para dentro da regulação.”
Para Sarah Uska, analista de Criptoativos do Bitybank, o que está no relatório do FMI pode acontecer se não houver uma organização de cada país para regulamentar as stablecoins de forma preventiva. “Já passou do ponto de discutir se as stablecoins são a melhor opção ou não. O mercado já está agindo em volta delas, está entendendo todos os benefícios e não é possível frear isso agora. Nem seria inteligente, por conta dos pontos positivos que elas trazem para o mercado", diz.

As stablecoins são consideradas o segundo grande capítulo da adoção global de criptoativos. O primeiro, o Bitcoin, consolidou a ideia de uma reserva de valor digital e passou a ser incorporado por empresas e até por governos. Em julho, o congresso norte-americano deu vitória decisiva para a indústria de criptomoedas e aprovou a primeira legislação federal para regular as stablecoins. O receio, para especialistas, está na competição e perda de espaço.
Na visão do economista André Perfeito, há duas dimensões: o mercado tradicional percebe que o comércio de dinheiro pode passar por outros canais que não a tesouraria de um banco, o que tem várias implicações, e a outra se refere à questão regulatória. “A autoridade monetária está vendo quem está emitindo? Tem que ver balanço. Porque, senão, qualquer um emite e começa a vender. A stablecoin tem a promessa implícita que vai valer sempre um real, um dólar, um euro, e, nesse sentido, a preocupação do mercado financeiro tradicional se sustenta”, diz, complementando que não é preciso “temer as criptomoedas” e que as stablecoins vieram para ficar. “Elas cumprem uma função de melhorar muito o sistema de câmbio mundial. Sou entusiasta dessas stablecoins.”


