Dólar abaixo de R$ 5,30 tem carry trade como determinante, mas tendência de novas baixas é incerta
A queda do dólar frente a diversas moedas se explica por um conjunto de fatores que incluem desconfiança em relação à política macroeconômica americana e o fluxo comercial entre os países. Quando o assunto é a desvalorização elevada diante do real – com recuo no ano perto de 15% - operações de carry trade, buscando ganhar com o diferencial de juros entre os países, são determinantes. O movimento de arbitragem ganha fôlego extra após a manutenção da Selic em 15% ao ano, e o corte na taxa americana em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 4% e 4,25%, a primeira redução desde dezembro de 2024.
As decisões dos comitês de política monetária brasileiro e americano – Copom e Fomc – vieram em linha com as expectativas. Embora a maior parte do movimento, antecipando o novo diferencial de juro, já tenha feito preço no câmbio, a tendência de arbitragem se mantém, na visão de analistas ouvidos pela Capital Aberto. O concreto impacto na taxa do dólar ainda é incerto, por outros fatores que podem caminhar em direção diferente, como remessas sazonais no final do ano.
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O dólar iniciou 2025 cotado próximo a R$ 6,20. Na última terça-feira (16), caiu pela primeira vez em 15 meses abaixo da barreira psicológica de R$ 5,30, fechando a R$ 5,29. Ontem (17), se manteve abaixo deste suporte, chegou a cair antes da decisão do FED, e depois estabilizou, mantendo os R$ 5,29. “Essa estrutura do carry trade, que é realizar uma arbitragem entre os juros, criando um passivo na americana menor, e investindo no juro brasileiro, é importante no desempenho do real no ano”, comenta Ronaldo Silvestre, diretor de Tesouraria e Captação do Banco Pine. “Boa parte da queda recente do dólar frente ao real já é uma antecipação deste diferencial de juro, que ficou maior agora.”

O gerente de Tesouraria do Daycoval, Otavio Oliveira, também destaca o peso da arbitragem no movimento de desvalorização do dólar frente ao real. “O carry trade entre os mercados colaborou para uma queda da moeda americana, porque o diferencial de juro é enorme e tende a ficar ainda maior” comenta Oliveira, lembrando outros fatores que, no ano, pressionam a moeda, particularmente após a posse de Donald Trump. “A política tarifária e a guerra comercial implementada nos Estados Unidos têm peso no movimento. Ele (Trump) quer atrair investimentos no país e o dólar é uma moeda cara, permitir a desvalorização ajuda neste sentido.”

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Frente à cesta de moedas DXY, que inclui euro, yen, libra esterlina, dólar canadense, coroa sueca e franco suíço, o dólar americano acumula no ano, recuo de 10%. “A moeda perde força globalmente, mas o maior recuo diante do real se justifica pelo carry trade, o diferencial entre as taxas muito elevado”, acrescenta Oliveira.
Embora o diferencial de 11 pontos percentuais entre Selic e fed funds – após o corte de 25 bp de ontem – já ter sido antecipado no movimento do câmbio, os analistas lembram que a distância nas duas taxas tende a crescer com potencial para novos impactos. A decisão do Fed não foi unânime, com o recém-nomeado diretor Stephen Miran votando por um corte maior, de 0,50 ponto percentual.
“Na conferência de imprensa, Powell foi claro ao avaliar que com as revisões recentes nos dados da Pesquisa de Emprego, o cenário passou a mostrar uma piora relevante para a criação de postos de trabalho, e que isto aumentou o risco de uma deterioração indesejada do mercado de trabalho”, comenta Luís Cezário, economista-chefe da Asset 1. “Powell se mostrou confiante de que os impactos da elevação das tarifas de importação sobre os preços serão temporários. A combinação destes dois pontos indica que a maioria dos membros do FOMC está mais disposta a correr mais riscos com a meta de inflação para mitigar os riscos com relação ao mandato de pleno emprego.” Na avaliação de Cezário, embora o cenário mais provável seja de que o Fed mantenha cortes de 25bps, a assimetria em torno deste cenário permanece voltada para cortes “mais rápidos e com uma taxa de juros terminal abaixo do patamar neutro.”
Na avaliação de Ronaldo Silvestre, do Banco Pine, feita antes da reunião do Fomc, mas já prevendo uma dissidência no colegiado, a tendência é de mais dois cortes neste ano, de 25bp, e outros três em 2026. “A Selic deve até dezembro permanecer em 15% e, no ano que vem, cair até 12,50%, o que ainda é um diferencial grande nas taxas. São projeções que favorecem o carry trade”, comenta Silvestre, com uma ponderação. “Essa tendência não é garantia porque outros fatores influenciam o real como termos de troca, preço de minério de ferro, óleo, agrícolas, assim como o investimento direto estrangeiro.” No call do Pine, os cortes na Selic podem começar em dezembro. Sobre tendência do dólar na reta final de 2025, Silvestre lembra que fatores sazonais, como remessas de fim de ano, podem equilibrar o movimento, com a moeda encerrando o ano a R$ 5,40.
Para Otávio Oliveira, do Daycoval, os próximos dois meses serão importantes para ter uma definição maior sobre outro fator que pesa nas expectativas para o câmbio no próximo ano, as eleições presidenciais. “Teremos uma noção melhor de quem realmente vai ser candidato, não só da oposição, mas, principalmente, da situação. Hoje, quem dá o norte para o câmbio é o carry trade, mas pode mudar. Há fatores macroeconômicos, políticos, jurídicos que fazem com que o sujeito gringo entre com maior ou menor força no país, trazendo dólares e afetando a cotação.”
