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BC segue roteiro e deve manter Selic a 15%, mesmo com melhora no cenário doméstico e internacional

Jiane Carvalho

A inflação doméstica, medida pelo IPCA, está em queda e registrou a primeira deflação em um ano, com queda de 0,11% em agosto. As expectativas para o IPCA e o PIB deste ano, medidas pelo Boletim Focus, também recuam nas últimas semanas, e estão em 4,85% e 2,06%, respectivamente. O mesmo em relação ao câmbio, com o dólar perdendo mais de 10% ao ano frente ao real. São sinais importantes que sinalizam melhora no ambiente inflacionário, mas não afetam a perspectiva de curto prazo. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, nada muda com a projeção de manutenção da Selic em 15% ao ano, o que deve permanecer até a virada para 2026. A melhora no cenário doméstico e internacional, embora não altere a trajetória de curto prazo do juro, pode alterar o balanço de riscos exposto no comunicado do BC e sinalizar um horizonte mais claro sobre o começo do afrouxamento da política monetária.

No último ciclo de elevação da taxa básica, na busca pela meta de IPCA de 3% - com intervalo de tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo – A Selic saltou de 10,50% em julho de 2024, a 15% em junho deste ano, sendo mantida neste patamar, considerado bastante restritivo. A melhora recente no cenário é ponto comum dos discursos dos economistas ouvidos pela Capital Aberto.


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“No exterior, temos o Fed se reunindo para um corte de 25 basis points, podendo ser de até 50 bp, o câmbio apreciou em relação à última reunião e os preços das commodities vieram para baixo. O cenário internacional é mais positivo do que negativo desde a última reunião”, comenta Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Asset. “Isso ajuda porque as projeções do Banco Central devem mostrar uma inflação um pouco mais baixa por conta do câmbio, que deve estar ajudando, mas o BC sempre menciona que o fator mais determinante é a inflação doméstica e especialmente a atividade que estamos vendo.”

Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, embora o Banco Central não estabeleça uma relação direta entre a Selic e os fed funds, o diferencial de juros é relevante para diversos canais de transmissão — entre eles, o câmbio. “Um corte lá fora amplia esse diferencial, favorecendo fluxos de dólar para o Brasil, com impacto principalmente na taxa de câmbio”, afirma Vital. “Embora o momento atual tenha uma série de fricções no cenário internacional, a reunião anterior do Copom também coincidiu com as incertezas sobre acordos comerciais e tarifas, tensões geopolíticas etc. Como esta análise é relativa, a avaliação é que, na margem, estamos vendo um cenário melhor.”

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O economista-chefe do banco BMG, Flavio Serrano, ao comentar o corte projetado de 25 bp no juro americano, diz que o debate agora é a intensidade dos próximos cortes e um processo mais tempestivo que “poderia ajudar no processo de flexibilização (política monetária) no Brasil, uma vez que o câmbio poderia continuar se apreciando”. Na visão de Serrano, mesmo mantendo a Selic em 15% ao ano, é possível que o comitê retire o trecho "...continuação da interrupção no ciclo de alta de juros...", buscando uma comunicação mais simples. “Entretanto, acreditamos que a comunicação continuará dura, indicando a manutenção da taxa Selic por um período bastante prolongado e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso necessário.”

Uma das principais mudanças nos últimos meses foi a desaceleração do IPCA até a deflação verificada em agosto. Porém, os economistas destacam que qualitativamente “vemos uma melhora, mas ainda está em um patamar muito alto. Essa deflação foi muito influenciada pela questão do bônus de Itaipu, que vai ser totalmente revertido no mês seguinte”, comenta Kautz, da EQI Asset, citando a parte de serviços rodando ainda próximo de 6%. “Um patamar obviamente incompatível com a meta de 3%; mesmo a inflação de industriais, que é aquela que poderia vir mais baixa por conta da questão da guerra comercial, de estarem sobrando produtos na China e que vão ser enviados agora para o Brasil, ainda está alta.”

Vital, da Warren, acrescenta que a respeito da deflação, o dado de agosto do IPCA apresentou uma abertura qualitativa pior, com núcleos pressionados. “A leitura é, na verdade, mais negativa na margem. O resultado foi puxado pela queda nos preços dos alimentos e da energia elétrica, ambos fatores transitórios. Olhando para a inflação de serviços, ela continua pressionada - resultado de um mercado de trabalho forte.”

As melhoras em indicadores importantes, para os economistas, não afetam a Selic desta semana, mas começa a promover revisões na data de início do corte do juro. “Acho que a chance de ter um corte no final desse ano, na reunião de dezembro, aumentou, especialmente pelo lado do câmbio, que está ajudando, e pelo lado da atividade, que está dando sinais cada vez mais claros de desaceleração”, avalia Stephan Kautz, ponderando que, no cenário-base da EQI, ainda é de corte na Selic em janeiro de 2026, na casa de 50 pontos. “A taxa poderia ser reduzida até 13%, fazendo cortes consecutivos de 50 bps, basicamente, dando uma redução na quantidade de aperto monetário.”

A expectativa da Warren é de início dos cortes também na primeira reunião de 2026, o que é um avanço, explica Vital. “Inicialmente, as projeções indicavam condições para cortes apenas na terceira reunião do ano, mas, desde então, observou-se uma evolução benigna dos indicadores de atividade, recuo nas projeções de inflação e algumas leituras positivas na inflação corrente”, explica. “Somou-se a esse cenário a perspectiva de pelo menos dois cortes de juros nos EUA, criando condições para antecipar os cortes no Brasil.” No BMG, a projeção também é de corte em janeiro, mas a um patamar menor, de 0,25pp.