Tesouro ativo e taxas de Treasuries nas mínimas devem levar bonds a bater US$ 30 bi em 2025
As emissões externas, dos chamados bonds, estão a todo vapor em 2025. Após um 2024 cujo volume de emissões chegou aos US$ 20,1 bilhões em 12 meses, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), até julho deste ano, o montante emitido já ultrapassou esse valor, chegando a US$ 22 bilhões. A previsão de especialistas, inclusive, é que uma meta de US$ 30 bilhões ao final do ano seja factível e até facilmente atingida.
Entre os motivos da alta, segundo especialistas, estão taxas de Treasuries (referência para os prêmios dos bonds) nas mínimas históricas, que tornam as emissões mais baratas, um Tesouro Nacional brasileiro ainda mais ativo em emissões, e um país com percepção de risco ainda estável mesmo diante da turbulência com os Estados Unidos.
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“Com esses spreads bem amassados, há um ângulo perfeito para as companhias olharem e concluírem que vale a pena fazer emissão, porque realmente está mais barato, historicamente falando, em termos de spreads sobre o tesouro americano”, aponta Gilberto Noboru Nakayasu, chefe da Área de Mercado de Capitais de Dívida Internacional do BBI, apontando que, inclusive, nomes robustos de empresas que há muito tempo não acessavam o mercado de bolsa emitiram bonds esse ano. “Você fica muito tempo fora do mercado e tem um bom de ‘outstanding’. Naturalmente, você vai fazer uma nova emissão para fazer o live management nesse papel. Acho que também tem esse fator que corrobora.”
Miguel Diaz, head do Santander Brasil para a área de renda fixa externa, lembra que este ano o próprio Tesouro, emissor diligente e sensível a preço, está “superativo”. “Ele viu que há um preço bom para que ele tenha um volume de emissão um pouco maior do que o histórico. Isso foi um componente importante para esse total. Outro ponto interessante é que algumas empresas este ano resolveram vir a mercado, inclusive, duas vezes”, conta. Segundo os especialistas, os principais emissores ao longo do ano até agora, inclusive, foram empresas que têm investment grade, ou seja, apetite por captação maior, o que puxa o volume de emissões.
Nem o cenário volátil foi capaz de tornar as emissões tímidas. Mesmo com a volatilidade internacional, diante de políticas controversas nos Estados Unidos e incertezas envolvendo as tarifas, o Brasil conseguiu manter sua percepção de risco. “O apetite externo está sendo reforçado por fluxos para emergentes, diferenciais de taxa de juros e menor pressão cambial local. Em 2025, o Brasil tem se beneficiado de fundamentos relativamente sólidos, redução do prêmio de risco e uma curva de juros soberana referência para toda a América Latina”, opina Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, corretora global com sede na Austrália e atuação em diversos países que realiza indicação de bonds para clientes da área de consultoria, complementando que as condições de financiamento externo para o Brasil melhoraram em relação a 2024 por motivos, como o risco-país, medido pelo CDS, ter caído mais de 20% em 2025, após deterioração causada por eleições americanas e incertezas fiscais no final do ano anterior.
Perfil das operações e investidores

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Ainda que o volume de emissões dos bonds seja alto, o mercado externo ainda segue majoritariamente acessado por grandes empresas. Há espaço para novos entrantes, mas o mercado tem absorvido bem os papéis de emissores frequentes, tornando a margem um pouco menor para tal movimento. Este ano, inclusive, empresas com perfil de crédito não tão robusto quanto das blue chips, por exemplo, foram menos ativas nas emissões externas este ano, visto que o mercado local tem atendido muito bem essas empresas a níveis historicamente muito baixos, segundo os especialistas.
Uma das mudanças em 2025 foi o prazo das operações. O prêmio por esse prazo, ou seja, o quanto a mais a empresa precisa pagar de taxa para alongá-lo, está caro pelo fator macroeconômico para toda e qualquer emissora, o que gerou uma mudança de rota no perfil dos papeis. “Com exceção da Vale, que fez uma operação de reabertura de 30 anos, a maioria das empresas preferiu não pagar esse prêmio para ter uma dívida tão longa quanto 30 anos e preferiram ficar mais na parte de 7 a 10 anos, onde vimos cerca de 90% do volume emitido”, conta Diaz, falando de um percentual aproximado.
A maior parte das emissões teve como objetivo refinanciar dívidas de curto e médio prazo, alongar o perfil da dívida e, em menor escala, financiar crescimento ou projetos estruturais. As empresas têm buscado preservar liquidez e reduzir o risco de rolagem em ambiente global sujeito a mudanças súbitas de percepção.
Em relação à ponta compradora, há uma demanda muito forte este ano e os especialistas pontuam que esse mercado de emissões externas tem sido caracterizado por “books maiores”, com um alto interesse de crossover accounts, investidores high grade que geralmente compram papéis norte-americanos, também comprando papéis high grade de mercados emergentes.
A maioria das compras ficou a cargo dos investidores institucionais, fundos globais com mandato que permite alocação em bonds, de gestoras já conhecidas pelo mercado. No entanto, para Araújo, da ZERO Markets, a fatia de fundos regionais cresce, sobretudo em operações com green bonds e títulos sustentáveis, já que a agenda ESG mobiliza mandato específico de investidores.
Perspectivas otimistas para bonds
Para os consultados, mantendo-se as condições atuais e normais de temperatura e pressão, há espaço para continuidade de um volume de emissões externas positivo até o fim de 2025. O mercado “com certeza está aberto” e deve continuar aberto até o final do ano.
“Obviamente vão ser janelas, tem, em alguns momentos, tensão geopolítica, alguma questão das guerras comerciais que podem afetar. Não sabemos como será, mas se correr como está indo até o momento, para mim, a janela vai estar ali e de uma forma bem positiva”, opina Nakayasu, do BBI.

O executivo pontua, inclusive, que o mercado espera um volume de emissões de bonds chegando próximo ou até ultrapassando a marca dos US$ 30 bilhões. “Já superou ano passado e acredito que vai superar até um pouco mais do que vemos na média, que entre 2018 e 2021, era 25 bilhões que o Brasil emitia. Esse ano, acho que vai ficar um pouco acima disso”, complementa.
Para Diaz, do Santander, a visão é similar. “Acredito que veremos a segunda metade do ano meio parecida com a primeira. Emissores já consolidados vindo ao mercado. A atividade está alta, sim. E quem não se preparou ainda, vai ver que o mercado está bem construtivo e talvez se anime a fazer alguma coisa esse ano. Então, a perspectiva para a segunda metade do ano é muito positiva. Acho que esse número [de US$ 30 bi] é factível”, opina.


