Operação Carbono Oculto mira Reag, que diz estar “colaborando integralmente com as autoridades”

A Faria Lima acordou nesta quinta-feira (28) com a informação de uma megaoperação na tentativa de desmantelar um esquema de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Fintechs e fundos de investimentos teriam sido usados para ocultar e blindar o patrimônio amealhado ilegalmente. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em cerca de 350 alvos em oito Estados, que incluem a Reag Investimentos.
A investigação chega à Faria Lima, segundo nota da Receita Federal, por um “sofisticado esquema engendrado pela organização criminosa, ao mesmo tempo que lavava o dinheiro proveniente do crime, obtinha elevados lucros na cadeia produtiva de combustíveis”. E acrescenta: “Operações financeiras realizadas por meio de instituições de pagamento (fintechs), em vez de bancos tradicionais, dificultavam o rastreamento dos valores transacionados. Por fim, o lucro auferido e os recursos lavados do crime eram blindados em fundos de investimentos com diversas camadas de ocultação, de forma a tentar impedir a identificação dos reais beneficiários”. Pelo menos 40 fundos de investimentos, multimercado e imobiliários, em sua grande maioria fundos fechados e com cotista único, foram utilizados como estruturas de ocultação de patrimônio, segundo a investigação.
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A Reag Investimentos, uma das maiores gestoras independentes do país, foi alvo no início da manhã desta quinta-feira (28) um processo de busca e apreensão na sede da empresa, em São Paulo. Fundada por João Carlos Mansur, em 2012, a Reag tem tido um rápido processo de crescimento orgânico e inorgânico, com aquisições no mercado. Entrou na bolsa via IPO Reverso, após adquirir a GetNinjas que já tinha ações negociadas em bolsa. Está listada no Novo Mercado, nível mais alto de governança da B3. A casa controla diversas empresas ligadas ao mercado de capitais, como a Companhia Brasileira de Serviços Financeiros (Ciabrasf).

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Procurada pela reportagem, a assessoria da Reag enviou o Fato Relevante publicado pela companhia. “A Reag Investimentos e a Ciabrasf informaram, por meio de Fato Relevante, aos seus acionistas e ao mercado em geral que, nesta data (28), estão sendo cumpridos mandados de busca e apreensão em suas respectivas sedes no âmbito da Operação Carbono Oculto”. Segundo o documento, “as companhias esclarecem que estão colaborando integralmente com as autoridades competentes, fornecendo as informações e documentos solicitados, e permanecerão à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários”.
Também mencionada está a fintech BK Bank que, segundo a Receita Federal, teria sido utilizada por criminosos para movimentar dinheiro por meio de contas não rastreáveis. Segundo as investigações, ao mesmo tempo que lavava o dinheiro proveniente do crime, a organização criminosa conseguia elevados lucros na cadeia produtiva de combustíveis.
A operação Carbono Oculto vem na esteira de outro problema – de natureza diferente – envolvendo uma empresa relevante do mercado de capitais, a Virgo, acusada de uso indevido dos recursos de clientes como Kinea e XP, que deveria estar em um fundo de liquidez, por regra, para um fundo cuja carteira era composta de CRIs, produtos que não têm liquidez. São episódios que sugerem fragilidade da governança corporativa e da fiscalização no mercado financeiro brasileiro.
Para Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa, o caso escancara que há algum nível de contaminação do mercado financeiro com o crime organizado. Em nota, o Instituto lembra que entre os alvos estão “a fintech BK Bank, suspeita de movimentar R$ 17,7 bilhões em operações irregulares, a gestora Reag Investimentos, listada na B3, além do grupo Aster/Copape, controlador de usinas, distribuidoras e redes de postos de combustíveis, com a identificação de 40 fundos de investimentos usados no esquema”.
Segundo Silva, a contradição é clara: “enquanto o mercado difunde discursos sobre responsabilidade social e sustentabilidade, na prática, mecanismos permissivos seguem abrindo espaço para a infiltração do crime organizado”. E acrescenta: “o verdadeiro compromisso com ESG não está apenas em relatórios ou slogans, mas na adoção de sistemas sólidos de governança e transparência capazes de blindar empresas contra a corrupção sistêmica”, reforça. Na visão do presidente do Instituto Empresa, se referindo à operação Carbono Oculto, o problema é estrutural, especialmente no mercado de fundos: “falta transparência nas operações e ainda há conflitos de interesse que comprometem a tomada de decisão do investidor comum”. “Apesar de existirem normas da CVM e da Anbima para divulgação de informações, a fiscalização costuma ser reativa, atuando apenas quando a fraude já está em andamento. Nesse cenário, a diligência prévia do investidor torna-se indispensável.”
