Câmbio deve seguir pautado por política americana, com decisão do Fed no radar
Seguindo a tendência de desvalorização em 2025, o dólar chegou, na semana passada, ao patamar mais baixo em um ano diante do real – cotado a R$ 5,38 em 12 de agosto. Na sexta-feira (15), fechou a R$ 5,39 (queda de 0,30%), segundo a Investing. Para economistas consultados pela Capital Aberto, a relação entre as duas moedas tem sido muito mais pautada pela perda de valor global da moeda americana, do que pela valorização da brasileira. A dinâmica deve seguir nessa toada nos meses a seguir, embora volatilidade gerada pelo campo político, em ambos os países, esteja no horizonte.
Projeções do banco BV, B&T XP e Tendências Consultoria apontam para o dólar em um intervalo entre R$ 5,40 e R$ 6 em dezembro. A faixa integra o indicativo do boletim Focus da semana anterior (até então o mais recente), que indicava R$ 5,60 ao final de 2025. No ano, até 14 de agosto, o dólar recuou 12,64%, segundo a Elos Ayta.
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O real tem ganhado suporte por conta dos juros altos e de um “trabalho firme” de política monetária feito pelo Banco Central, opinaram as fontes. Mas antes de falar nos efeitos, para a relação cambial, provenientes do cenário brasileiro, economistas citam como um movimento importante o corte de juros pelo Federal Reserve (Fed), esperado para os próximos meses.
O movimento nos EUA deve elevar a atratividade de mercados com alto patamar de juros para os fluxos de recursos, como o Brasil, apesar do risco país. Na esfera emergente, as rivais do real hoje reúnem moedas como a mexicana, chilena, colombiana e de alguns países do leste europeu, a exemplo da Polônia.
A diversificação das alocações para moedas de outros universos que não o mercado americano já é retrato deste ano, à medida que a administração de Donald Trump mexeu com a percepção de risco dos EUA. “A expectativa de que o Fed reduza os juros no segundo semestre é um fator de, pelo menos, manutenção de um dólar mais fraco lá fora. Mesmo que a queda não se aprofunde, é difícil imaginar o dólar se recuperando no mundo no curto prazo”, avalia Silvio Campos Neto, sócio da Tendências.
Como, por ora, o comportamento internacional do dólar tem mais peso na dinâmica da moeda americana em relação ao real – e há fatores atípicos no quadro americano –, há uma certa dificuldade para elaborar projeções, diz Roberto Padovani, economista chefe do banco BV.
“Historicamente, quando os juros sobem, o dólar sobe junto. Os juros de dez anos nos EUA têm oscilado entre 4,20% e 4,50% e, apesar de uma taxa de juros mais elevada, chama a atenção que o dólar tenha despencado nos últimos meses”, continua Padovani. “A meu ver, o principal debate agora é o que está acontecendo com a moeda americana? Será que a fraqueza do dólar, por razões institucionais, veio para ficar?”, questiona.

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Ao menos três fatores explicam a desconfiança em relação ao dólar. O primeiro é o ‘pé atrás’ relacionado à dívida pública dos EUA, o que torna os investidores um pouco menos confortáveis em aplicar seus recursos naquele país – que não deixou de ser relevante, reforçam as fontes. Contudo, em cenário atual de governo Trump, novas alocações têm se destinado a outros mercados.
O segundo é insegurança jurídica: as instituições americanas têm falhado em por freios em movimentos políticos do presidente republicano, o que aproxima o país de um padrão de comportamento de mercados emergentes. Quem aloca perdeu a tranquilidade sobre o funcionamento das regras.
E o terceiro ponto, continua o economista chefe do banco BV, é um debate que ganhou muita intensidade nos últimos meses sobre o uso do dólar como reserva de valor e/ou uma referência no comércio internacional. Não há dúvida que os EUA seguem sendo a economia mais forte do mundo, reiteram economistas.
Porém, a política tarifária de Trump incentiva o redesenho do comércio internacional, incentivando outras relações comerciais – e nesse novo retrato, o dólar teria um papel menor. “Não que os investidores estejam tirando dinheiro dos EUA, mas a leitura que a gente tem feito é que há menos alocação nova no país”, reforça Padovani.
Exemplo de movimentos que podem surgir, o empresário brasileiro Caito Maia, fundador da Chilli Beans, anunciou na semana passada que a companhia deixará de utilizar o dólar americano nas transações com fornecedores chineses, adotando a moeda oficial da China.
No Brasil, a condução da política fiscal é um dos fatores domésticos que impõem limites (ou geram nebulosidade) para a valorização do real, bem como um maior déficit do Produto Interno Bruto (PIB). São questões que ‘seguram’ um pouco a trajetória de queda cambial no curto prazo.
Ainda assim, embora com uma situação fiscal bem deteriorada, o diferencial de juros é muito alto. “Nós temos reservas cambiais robustas, o que dá algum conforto para investimento de curto prazo, nada estrutural, mas naquele investimento na operação de carry trade”, disse Diego Costa, head de câmbio para o Norte e Nordeste da B&T XP.
Observando adiante, o fiscal e o momento pré-eleições presidenciais no Brasil, além das incertezas ligadas à agenda Trump (principalmente o fato de o Brasil estar ‘sob ataque’), são fatores suficientes para impor limites para a queda do dólar nos próximos meses. Mudança de curva da Selic entra nessa lista em um futuro próximo.
“Uma pacificação, um entendimento maior entre os poderes aqui no Brasil, sem dúvida, pode ajudar muito na sustentação do dólar nesse nível atual”, continua Costa, da B&T. Ainda em campo doméstico, e de olho no processo pré-eleitoral, a volatilidade aumentará se o mercado local não comprar a possibilidade de um ajuste fiscal no próximo governo, seja ele qual for, dizem os economistas.
O real ganha força se o próximo governo, a partir de 2027, mostrar convicção em fazer reformas que alterem a estrutura de gastos do Estado, diz Padovani, do BV.
“A gente vai ficar muito na dependência de como os mercados vão ler esse processo em termos de perspectivas, de eventual reeleição ou do avanço de uma candidatura mais market-friendly emergindo de centro direita, que seria, neste último caso, baixista para o dólar”, finaliza Campos Neto, da Tendências.
