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Crise não é “retumbante”, mas setores começam a mostrar sinais de efeito dos juros

Érica Polo

Marco Galicioli, diretor de special situations Bradesco
Marco Galicioli, diretor de special situations Bradesco

Em contexto de juro alto e desaceleração econômica, os bancões não pintam – ao menos ainda – um cenário de alerta geral para as companhias brasileiras. Fazendo um paralelo com a crise econômica em 2015, a qual levou o Itaú a criar uma área e recuperação e reestruturação de crédito em 2016, por exemplo, executivos de bancões que participaram de evento do Santander nesta quarta (20), em São Paulo, pintaram o atual momento como de ‘pouso suave’.

“O contexto é diferente [de 2015]. Comprar tempo está ficando cada vez mais difícil, devido ao efeito dos juros para as companhias endividadas, mas acho que o lado bom é que está acontecendo como prevíamos”, disse Eduardo Armonia, diretor da área de recuperação e reestruturação de crédito do Itaú. Ter uma estrutura com o perfil em operação, mesmo que mudem competências, agentes e quem participa de processos de reestruturação, contribui neste momento.

Marco Galicioli, diretor de special situations Bradesco, não vê uma “crise retumbante” perto de outras situações vividas no ambiente econômico brasileiro, embora tenha reiterado que o efeito das tarifas impostas pelos EUA aos exportadores é um fator que turva o horizonte em casos específicos. “Não é retumbante, mas está exigindo do time da gente por gerar complexidade”, admitiu.


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Os desafios serão maiores a partir de agora dependendo da margem do negócio, reforça Rogério Stallone, sócio da área de Crédito Corporativo do BTG. “Mesmo os setores que não sofreram tanto começam a mostrar mais sinais de que os juros de 15% começam a bater e estão sentindo [os efeitos]”, continua Stallone. “Por ora, as companhias estão sentindo mais no caixa e menos no pipeline.”

É um momento em que se começa a ver certa queda no nível de receita com a desaceleração econômica, mas apesar da Selic a 15% ao ano, não há pouso de “dez mil pés. “Elas [empresas] estão desacelerando de maneira relativamente mais ordenada”, disse o executivo do BTG, que busca market share entre as médias empresas e na diversificação geográfica. Outros mercados ajudam a manter uma “carteira de crédito saudável e ainda resiliente”.

Nenhum deles citou um setor mais problemático que outro, apesar de questionados sobre varejo e agro – este segundo com um bom número de recuperações judiciais. Armonia, do Itaú, disse que há preocupações pontuais, mas não de segmentos da economia em sua totalidade que estejam sofrendo de forma específica. “O que se tem é um processo contínuo em que as companhias estão recolhendo investimentos em função dos juros altos”, disse. “Mas uma hora a conta do não investimento e eventualmente da alavancagem alta chega.”

Já Galicioli, do Bradesco, disse que empresas do varejo (citou têxtil e farmácias) “não sofreram muito mais que os outros”. Segundo ele, mudou a complexidade do problema e as soluções não podem ser as mesmas do passado recente. Houve reforço desse tipo de estrutura dentro dos bancos ao longo da última década – o Bradesco criou a área em 2019.

Como a estratégia é proteger capital e reajustar parâmetro para novas concessões de crédito em momentos como o atual, há agora ponto focal em prevenção de problemas. As equipes das áreas de reestruturação e situações especiais têm se aproximado cada vez mais dos departamentos comerciais dos clientes, para o caso de estes não estarem enxergando “o muro se aproximar”.

A maior participação do mercado de capitais na concessão de crédito foi avaliada como “inevitável” e com “boa evolução”. Contudo, disseram, há desafios aí visto que existe uma diferença natural de atuação. É que para fundos de investimentos há uma questão temporal, para responder ao cotista, que por fim pesa mais do que para as operações de bancos.