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‘Risco volatilidade’ domina cenário da Gol após forte ganho com plano de recuperação

Érica Polo

Depois de um pico de alta em junho, com a saída do Chapter 11 (lei de falências nos EUA) e o início do plano de capitalização, com mudança no modelo de negociações na B3 a partir de 12 de junho –, os papeis da Gol sofrem fortes recuos na primeira quinzena de julho. No pregão desta terça (15), o ‘pacote’ de mil ações preferenciais da aérea valia pouco mais de R$ 9, com queda de 60% em relação à sessão do dia anterior.

A diferença entre essa cotação e a do encerramento das negociações em 1º de julho chama a atenção: no primeiro pregão do mês na B3, o lote alcançava R$ 170. Ao longo de junho o papel oscilou bastante, e chegou a valer R$ 700 (lote) no dia 13 de junho. São dados Investing. A gangorra era esperada, disseram agentes. O ‘risco de volatilidade’ – conforme aí evidenciado – se soma a outros riscos neste momento, e integra o processo de quem decide alocar no papel neste momento da história da aérea.  


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“Tem o risco de recuperação da companhia, de lucratividade, da manutenção da atividade, mas há também o risco de volatilidade do papel”, reforça Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante. “A gente vê um prêmio de risco, ainda com um leve viés do pior ter passado”, disse. Com pior, explica, refere-se à falência, impossibilidade de pedir recuperação judicial e/ou não sair do processo de RJ. “[o papel] Vale a pena, mas obviamente é uma ação com um prêmio de risco embutido”, opina.

Nesta segunda (14) encerrou-se o prazo de subscrição das novas ações, ou seja, quando os acionistas que tinham papeis até 11 de junho exerceriam o direito de compra dos papeis na operação de aumento de capital. É um fato que pode ter mexido com a cotação nestes dois últimos dias especificamente. A negociação num novo formato, em lotes de mil papeis, teve início em 12 de junho.

As ações passaram a registrar ganhos logo depois da saída do Chapter 11, em 6 de junho, sobretudo por conta da confiança do mercado na redução projetada para a alavancagem e devido à questão de liquidez, disseram analistas. “Mas eu vejo como algo pontual [a valorização das ações], de alívio. Ainda tem uma postura cautelosa por conta do setor e cenário como um todo”, diz Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos.

O mercado está de olho no processo de execução do plano operacional, o qual inclui a expansão da frota, reformas, reposição e todo o controle de custos – este, um ponto fundamental. “Outra questão para cautela é o risco de diluição, do tamanho do aumento de capital, das novas emissões. Isso pode trazer um olhar cauteloso para os investidores”, continua Harada.

A Gol tem uma estratégia (o plano de 5 anos), apresentada no início de 2025, enquanto negociava o Chapter 11 nos EUA. Segundo o plano, a companhia quer expandir a operação dentro e fora do país, e melhorar o desempenho operacional e financeiro. É na redução da alavancagem que o mercado está de olho. Segundo o documento, a aérea, com endividamento pouco superior a 5 vezes (relação entre a dívida líquida e o ebitda), quer chegar a 2,7 vezes ao final de 2027 e 1,9 vezes em 2029. A Gol aposta em expansão de rotas e no programa de milhas, o Smiles.

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Parte da explicação para a forte queda do papel na primeira quinzena de julho, intensificada nesta semana, pode ser a mais recente divulgação sobre prejuízo registrado em maio feita a tribunal americano, ainda como parte dos compromissos no processo de RJ. A Gol teve prejuízo líquido de US$ 249 milhões, ou R$ 1,4 bilhão, em maio, após perda de US$ 78 milhões (R$ 440 milhões) reportada em abril. Os dados estão no site da companhia.

Ao menos no início deste segundo semestre de 2025, a companhia espera um movimento promissor de atividade se comparado com o mesmo período de 2024, considerados os mercados doméstico e internacional. Segundo nota enviada pela Gol, há projeção de 2,2 mil pousos e decolagens internacionais disponibilizados entre 23 de junho e 3 de agosto (pouco mais de 385 mil assentos), alta de 50% em comparação à mesma temporada do ano passado.

Já no Brasil, a aérea espera um acréscimo de 10% em pousos e decolagens entre fim de junho e início de agosto – em relação aos assentos disponíveis, são 4,9 milhões, principalmente para destinos no Nordeste e Sudeste. Para Cozzolino, da Levante, o aumento de ocupação aliado à sobreposição de rotas é estratégia importante para reverter o prejuízo, de olho em melhoria de eficiência e corte de gastos.

Sobre a dívida líquida, ao final de maio, somava R$ 30,6 bilhões. O total consolidado da dívida após a reestruturação é informação que estará disponível em relatórios divulgados nos trimestres subsequentes, comenta a advogada especialista em insolvência, não envolvida diretamente no caso da Gol, Joana Bontempo, head de reestruturação de empresas e falências da CSMV Advogados. Ao sair do Chapter 11, a empresa levantou US$ 1,9 bilhão em financiamento de saída (Exit Financing), e encerrou o processo com uma liquidez aproximada de US$ 900 milhões.

O controlador, Abra Group, ao participar do financiamento de saída, concordou em aportar recursos novos à companhia, o que não significa que assumiu dívidas preexistentes, mas sim que contribuiu com capital para viabilizar o pagamento de algumas dívidas, a exemplo do DIP Financing. O DIP Financing é uma ferramenta que possibilita às empresas que estão no processo do Chapter 11 tomarem recursos para sobreviver até que o processo seja encerrado nos EUA, explica a advogada.

Mudança recente: capitalização

O primeiro movimento após a saída do processo nos EUA foi a alteração de negociação das ações, em 12 de junho. As ações da Gol passaram a ser negociadas em blocos de mil papeis, com preferenciais e ordinárias, em virtude do aumento de capital que é alvo da companhia, e soma R$ 12 bilhões.

Os acionistas que detinham papeis tiveram até a segunda desta semana (14) para exercer o direito de compra (bônus de subscrição). Na prática, a mudança na unidade mínima de negociação desses direitos traz potencial impacto na liquidez, já que pequenos investidores podem ter dificuldade em negociar exatamente múltiplos de 1.000 direitos, continua Bontempo, especialista da CSMV Advogados.

“Há necessidade de atenção redobrada de acionistas minoritários que desejem exercer ou vender seus direitos”, continua ela. Segundo a advogada, a medida tem natureza técnica, mas altera a dinâmica usual do mercado secundário. “É uma alteração que afeta apenas os acionistas, não os credores”, acrescenta.

Conversas sobre uma possível fusão com a Azul, lembram as fontes, estão suspensas desde que esta segunda também ajuizou Chapter 11 nos EUA.