Campanha Vórtx Institucional

PUBLICIDADE

Repasse de alta da Selic em FIDCs têm ‘carência’ de seis meses, mostra estudo

Érica Polo

O custo para tomar recursos em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) de recebíveis comerciais alcança, em agosto, alta média de 0,010 b.p. desde que teve início o atual ciclo de ajuste da Selic pelo Banco Central (BC), em setembro último. Trata-se da variação da taxa de desconto, cobrada por esses fundos para manter sua estrutura de operações e remunerar os investidores. A variação na taxa de desconto foi observada numa amostra de 126 FIDCs, com patrimônio líquido (PL) somado de quase R$ 14 bilhões, em um estudo feito pela Liberum Ratings a pedido da Capital Aberto. Para cada um ponto de alta no CDI, a taxa de desconto cresce 0,010 b.p. no mês onze após o início do ciclo, resume Ulisses Dedonato, economista da Liberum.

A alta na taxa média de desconto da amostra de fundos começou a ocorrer seis meses depois do pontapé de alta na Selic, em setembro. O atual ciclo de alta da taxa foi interrompido ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve o patamar da Selic em 15%.


Aprenda a navegar pelo sistema tributário definido para os FIDCs no curso “Desvendando o Tributário de FIDC”


Após esse 'período de carência' de seis meses, os fundos começaram a elevar seu custo progressivamente a partir de março último até alcançar patamar de 0,010 b.p. às vésperas de agosto. Eles carregaram a diferença ao longo destes meses por uma questão de competitividade, principalmente. A taxa de desconto costuma ter um ‘comportamento inelástico’, ou seja uma certa rigidez, conta o sócio da Liberum Ratings, Décio Bapttista – e o valor cobrado a cada cedente oscila conforme seu perfil de risco, explica.

Os efeitos do atual ciclo de alta da taxa básica brasileira em FIDCs de recebíveis ainda serão sentidos nos próximos meses, até dezembro ou janeiro, projeta o sócio a Liberum. Ainda assim, agentes desse universo acreditam que a busca por crédito nessa via não vai perder o ritmo. É que, por um lado, muitas empresas devem continuar recorrendo aos FIDCs em um cenário de crédito mais enxuto pelos bancos, que apertam o cinto e elevam a régua para fechar operações.

Por outro, os investidores ainda olham com interesse para alternativas de renda fixa – e, neste caso, o FIDC é atraente mesmo com a recente perda da isenção de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a cota, opinam agentes. “A busca de crédito não mudou nada. E como o FIDC paga uma boa rentabilidade, ainda vai ser atraente para o investidor”, disse João Baptista Peixoto Neto, CEO da Ouro Preto Investimentos.

Campanha Grafeno Institucional

PUBLICIDADE

Mais um fator que pode impulsionar esses fundos é a cobrança de Imposto de Renda (IR) sobre os títulos até então isentos, como LCI e LCA, em 5%, a partir de 2026, segundo propõe Medida Provisória (MP) do governo federal que vai tramitar no Congresso neste segundo semestre, lembram as fontes.

Eduardo Sgobbi, CEO do Edan Finance Group, vê a busca de crédito junto a esses fundos em alta nos próximos meses apesar do impacto a setores produtivos. “As empresas vão receber menos por seus recebíveis, o que afetará diretamente seu capital de giro, limitando, portanto, sua capacidade de operação e crescimento”, disse. “Mas, os FIDCs seguem como alternativa mais vantajosa em comparação às operações bancárias, sujeitas ao IOF de 0,38% acrescido de 0,0041% ao dia, limitado a aproximadamente 1,5% ao ano”, conclui Sgobbi.

Para o estudo, a Liberum Ratings, especializada em monitorar esse tipo de fundo, aplicou o modelo vetorial autorregressivo (VAR) sobre sua base de dados, conta Dedonato. Foi avaliado o comportamento da amostra em um recorte temporal entre janeiro de 2023 e junho de 2025. “O atraso na transmissão [da alta da Selic] sugere uma rigidez de preços (inelasticidade) no valor das taxas de desconto”, diz o texto.

O reflexo de alta da taxa básica na tomada de recursos junto a esse universo de fundos não acontece no ‘dia zero’, como nos bancos, reforça a Liberum. Isso se dá sobretudo pela concorrência entre os FIDCs: é a causa de os consultores optarem, no primeiro momento, por arcar com a diferença. O segmento cresceu muito em anos recentes no país devido às condições de cenário econômico.

Dados recentes da Anbima indicam pouco mais de 3,5 mil FIDCs ativos, com PL de R$ 630 bilhões. O segmento ultrapassou os fundos de ações no início de 2025, em PL e número de veículos.  

A característica inelástica da taxa de desconto dos FIDCs ocorre de forma similar em tempos de alta e também de baixa da Selic, acrescenta Dedonato. “Quando há queda da Selic, teoricamente, a remuneração que o consultor [do FIDC] tem para o cotista que está na sênior, na mezzanino, fica mais baixa porque diminui essa taxa de desconto com o tempo”, reforça o economista.

A Liberum ainda vai avaliar futuramente o timing do efeito de um movimento contrário na Selic, ou seja, de diminuição. Os consultores dos fundos, vale lembrar, fazem a análise de risco do cedente dos recebíveis após um pente fino em suas operações (balanços e inclusive instalações).