Pacote tributário de Trump afeta Tesla, mas setores industrial e de energia podem se beneficiar
Com a aprovação do projeto tributário de Donald Trump, que concede uma série de isenções e interrompe outras, o mercado mensura impactos não apenas ao cenário fiscal dos Estados Unidos, mas também ao mercado corporativo e de capitais. Com a iniciativa, o setor de veículos elétricos deve sofrer, mas, por outro lado, empresas de outros setores, como o industrial e de energia, podem surfar boa onda a depender da composição final do projeto.
Além de trazer isenções prometidas na campanha de Trump, substitui a Lei de Cortes de Impostos e Empregos (TCJA), após sua expiração programada para o final de 2025, e reforma a legislação que fornece créditos fiscais relacionados à energia limpa da Lei de Redução da Inflação (IRA). As propostas, que passaram pelo Senado nesta terça (1) e voltaram à Câmara, foram aprovadas nesta quinta-feira (03).
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O projeto de Trump, nomeado de “One Big Beautiful Bill”, traz uma série de propostas tributárias, como o fim dos impostos federais sobre gorjetas, horas extras e benefícios do Seguro Social, majoritariamente a partir de 2025 até 2028, e a redução das taxas corporativas para 20%, no geral, e para 15% no caso de empresas que fabricam nos EUA. Por outro lado, extingue o crédito para veículos elétricos após 2025 e elimina alguns subsídios para energia limpa, de produtos de energia residencial.
“A análise da instituição Tax Foundation das principais disposições fiscais indica um aumento de 1,1% no PIB de longo prazo, mas um custo de redução de receita tributária da ordem de US$ 3,8 trilhões, podendo chegar a US$ 4,7 trilhões até 2034”, lembra Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad. Ele diz que a proposta traz um fator de reversão que poderia impulsionar negativamente o consumo, mas com ajustes e correção que resultam em dúvidas ainda maiores em relação à dívida americana.
Além da discussão sobre o impacto fiscal – considerando que a continuidade dos cortes sem medidas compensatórias de receita tende a aumentar o déficit público americano, pressionando, por sua vez, as taxas de juros de longo prazo –, a proposta de extensão dos cortes de impostos também pode trazer impactos setoriais relevantes para os mercados, como efeitos positivos para o caixa de empresas industriais locais dos EUA e para o segmento de energia.
“A medida pode impactar o mercado de capitais de maneira geral, com uma maior disponibilidade de renda e políticas como a redução de taxa para ganho de capital. Pode ter impactos mais diretos sobre o setor industrial interno, como montadoras [pelo impulsionamento do crédito para consumo], desenvolvimento e infraestrutura e para o setor de energia, à medida que o IRA [lei que fornece créditos fiscais relacionados à energia limpa] apresenta uma mudança de abordagem mais eficiente de créditos fiscais”, opina Lobo, da Nomad.
Na visão de Rodrigo Aloi, sócio head de pesquisa e estratégia da HMC Capital, empresas com forte exposição doméstica e setores que já se beneficiam de uma menor carga tributária — como consumo discricionário e pequenas e médias empresas — tendem a ser favorecidos.


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Por outro lado, ele lembra, a extinção de alguns incentivos fiscais pode pressionar setores mais sensíveis à carga tributária efetiva (total de tributos que uma empresa ou setor paga de fato, após isenções, créditos, incentivos e regimes especiais), como o de tecnologia ou o de saúde. “Assim, os impactos sobre as bolsas americanas dependerão, em boa medida, da composição final do projeto e de como o mercado avaliará seus efeitos líquidos sobre lucros corporativos”, opina o executivo.
Apesar da aprovação, o processo foi apressado devido à meta de Trump de finalizá-lo antes do feriado de 4 de julho, o que diminuiu as margens de ajustes. Segundo informações da Bloomberg, o deputado Timothy Burchett, republicano do Tennessee, disse que a Casa Branca também garantiu aos resistentes ao projeto ações executivas e um possível segundo projeto de lei orçamentária para atender às suas preocupações com gastos e imigração ilegal. Portanto, os impactos efetivos do pacote ainda devem ser calculados.
Setores afetados pelo pacote de Trump
A eliminação do crédito fiscal para veículos elétricos, por exemplo, prevista para acabar até o fim de 2025, reduz diretamente a atratividade dos carros da Tesla para consumidores, já que o incentivo diminui o custo final. “Nas nossas projeções, deve haver uma perda de até US$ 1 bilhão em lucros anuais”, diz Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp.
Além disso, complementa o analista da Levante, a legislação favorece combustíveis fósseis, com incentivos fiscais para veículos a gasolina fabricados nos EUA, o que pode desviar demanda dos elétricos. “A Tesla enfrenta outro desafio com as restrições a componentes chineses, já que depende de baterias asiáticas”, lembra Brilhante.
Já a prorrogação de cortes fiscais e incentivos para a produção de petróleo e gás, incluindo benefícios para veículos a combustão fabricados nos EUA, impulsiona empresas de energia fóssil, como ExxonMobil e Chevron. “Esses incentivos reduzem custos operacionais e aumentam margens, especialmente em um contexto de preços estáveis do petróleo. O setor de energia no S&P500 subiu cerca de 2,3% desde a aprovação”, diz Brilhante, apontando que ações de grandes petroleiras podem ganhar tração, mas o ganho é limitado por preocupações com sustentabilidade e transição energética global.
Ainda que o plano favoreça muitas companhias estadunidenses, até mesmo as big techs, no curto prazo, via redução tributária, há riscos relevantes no médio/longo prazo, especialmente em relação às tarifas comerciais, juros mais altos e tensões geopolíticas. A própria percepção de um fiscal fora de controle pode desencadear movimentos de venda de Treasuries e afetar as taxas de títulos longos, podendo até gerar impactos para as ações.
“O nível de 5% no Treasury de 30 anos, por exemplo, é visto como um divisor de águas psicológico para muitos investidores. Esse cenário tende a pressionar múltiplos de ações e, em última instância, a performance das bolsas”, pontua Aloi. Ele lembra que, apesar disso, o cenário possível não leva necessariamente à renúncia de alocação nos EUA ou no índice S&P 500, ainda referências importantes na construção de carteiras globais, dada a profundidade, liquidez e qualidade das empresas listadas.
Aloi pontua, no entanto, que o contexto atual reforça a importância de uma diversificação mais ampla, tanto em termos geográficos quanto em classes de ativos e que a combinação de incertezas fiscais, comerciais e monetárias nos EUA exige uma “abordagem mais balanceada”, que inclua exposições em ativos internacionais, estratégias alternativas e instrumentos descorrelacionados, como forma de reduzir a volatilidade e proteger o portfólio em um ambiente potencialmente mais instável.


