Indústria de fundos tem captação líquida negativa de R$ 37,8 bi no primeiro semestre de 2025

Em meio a um ano marcado por turbulências e incertezas políticas e econômicas, a indústria de fundos foi penalizada. Embora o patrimônio líquido no primeiro semestre do ano tenha crescido 9,2% na comparação anual, saindo de R$ 9 trilhões em junho de 2024 para R$ 9,9 trilhões em junho de 2025, a captação líquida dos fundos caiu em R$ 228 bilhões, saindo de R$ 190 bilhões no primeiro semestre do ano passado para uma captação líquida negativa de R$ 37,8 bilhões em junho deste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
“Uma coisa que chama a atenção nesse primeiro semestre de 2025, onde tivemos saída de R$ 37,8 bilhões, é a volatilidade ou o movimento um tanto errático mensal das captações líquidas”, comenta Pedro Rudge, diretor da Anbima.
Em janeiro, entraram R$ 14,2 bilhões, em fevereiro saíram R$ 24,5 bilhões e em março entraram R$ 11,7 bilhões. Já em abril saíram R$ 52,4 bilhões, enquanto em maio saíram R$ 400 milhões e em junho houve nova entrada, de R$ 13,6 bilhões. “Isso denota que ainda estamos num período com uma oscilação bastante grande. É até difícil ter uma visão muito clara do que está acontecendo, o que poderia explicar um mês ser positivo, o outro negativo”, pontua Rudge.
Ainda que os aportes tenham apresentado queda, o número de fundos cresceu 3,4%, saindo de 31.445 em junho de 2024 para 32.521 em 2025. O número de gestores também aumentou, 5,3%, indo de 1006 para 1059.
Entenda as mudanças e esteja alinhado às novas exigências do mercado no curso “Resolução 160”
Em relação à captação líquida acumulada por investidor, o poder público foi responsável pelo maior volume de aportes, representando R$ 38,3 bilhões, enquanto institucionais (como EFPCs, EAPCs, seguradoras e os próprios fundos), PJ (corporate e middle) e Pessoas Físicas apresentaram saídas de R$ 17,4 bi, R$ 50,9 bi e R$ 27,4 bi, respectivamente. “Esse comportamento não é uma surpresa, porque o que normalmente acaba acontecendo nos primeiros meses do ano é que prefeituras, estados, municípios, entes públicos acumulam recursos e, ao longo dos meses do ano, acabam normalizando esse fluxo”, explica Rudge.
Olhando para o segundo semestre do ano, apesar da dificuldade de fazer previsão, Pedro Rudge acredita que o ritmo de recuperação dependerá de alguns fatores, como a queda dos juros. Para ele, o retrato atual da indústria de fundos está muito ligado ao ambiente macro e aversão a risco.

PUBLICIDADE
“Na medida em que, eventualmente, tivermos algum tipo de visão de uma possibilidade de queda de juros, de uma melhora ou de um endereçamento de questões fiscais, a percepção de risco diminui e a atratividade de fundos e produtos mais arriscados aumenta. Vai ser muito guiado essas questões. Tem um pouco também do ambiente externo”, diz o diretor da Anbima, falando de perspectivas para o segundo semestre. “Quando adicionamos isso que falei, questão de discussões tarifárias, guerras, isso tudo acaba trazendo ainda mais insegurança e uma necessidade ou uma preferência do investidor de ser mais conservador.”
Recorte por segmento
Na captação líquida por segmento, renda fixa, ETFs, FIDCs, FIPs e Fiagros apresentaram resultado positivo, com R$ 59,4 bi, R$ 4,4 bi, R$ 20,8 bi, R$ 9,9 bi e R$ 40 milhões, respectivamente. Já ações e multimercados perderam R$ 43,6 bi e R$ 78,9 bi.
Dentro das categorias de fundos, o destaque foi para renda fixa, que cresceu 11,1% em patrimônio líquido, atingindo R$ 4 trilhões, ainda que tenha apresentado uma captação líquida de R$ 59,4 bilhões no semestre ante os R$ 199, 6 bilhões registrados no mesmo período do ano passado.
Já os fundos com crédito privado em carteira tiveram resgates líquidos de R$ 12,6 bilhões no período. “Aqui, talvez uma explicação seja a compressão, a redução do spread das taxas, uma rentabilidade um pouco mais desafiadora. Mas ainda assim vemos essa classe crescendo relativamente, ou seja, ao longo dos meses tem ganho relevância”, diz Rudge. O número de fundos de crédito privado cresceu 7% e seu patrimônio passou a representar 13% da indústria de fundos.
Já os multimercados apresentaram queda no patrimônio, em função dos resgates, mas também no número de fundos, de 1,8%, e de contas, em 7,5%. No entanto, esses fundos apresentaram uma melhora na rentabilidade. Rudge, da Anbima, esclarece que aqui existe um componente de transformação desses fundos após a tributação dos fundos fechados, de fundos multimercados que eram fundos exclusivos fechados e que foram transformados em fundos de ações, em FIDCS, Previdência ou outra estrutura.
Para os fundos de ações o retrato é similar: queda do patrimônio, que saiu de R$ 627,3 bilhões em junho de 2024 para R$ 608,9 bilhões agora, no número de contas (-2,9%) e no número de fundos, ao passo que a rentabilidade teve uma recuperação significativa.
Panorama pós CVM 175
Cerca de 82% dos fundos, quase 24 mil, já estão adaptados ou em processo de adaptação à norma CVM 175, segundo dados da Anbima. No entanto, esse número apresenta uma defasagem, visto que os fundos precisam informar a entidade e há um delay nesse reporte. A previsão da Anbima é que o número se aproxime mais de 100%.
Do total, 73% declararam ter responsabilidade limitada, com 62% declarando a possibilidade de investir em ativos no exterior. “O que mostra a importância da flexibilização trazida pela CVM nesse ponto e a utilização majoritária pela indústria dessa possibilidade de investimento no exterior. Apesar de todo o desafio, de todas as discussões que ocorreram ao longo da adaptação da Anbima, do mercado com a CVM, acho que a indústria respondeu à altura e com bastante robustez à nova regulamentação”, disse Julya Wellisch, diretora da Anbima.


