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Efeito Trump puxa dólar, mas concretização da medida pode gerar inflação ‘elas por elas’

Érica Polo e Amanda Meneses

Chegou a vez do Brasil ser um alvo direto do presidente americano Donald Trump – e, com isso, a quinta-feira (10) foi agitada entre os agentes econômicos. O republicano elevou as tarifas cobradas aos produtos brasileiros de 10% para 50% na noite de quarta (9), medida válida a partir de agosto, e o mercado passou a calcular os efeitos. Parte acredita em mais um movimento na linha ‘Trump Always Chikens Out’ (ou ‘Trump Sempre Amarela’, como o padrão de agir do republicano viralizou no mercado americano). Mas a decisão sobre a nova tarifa já trouxe volatilidade em câmbio, juros, inflação e bolsa, com empresas como Embraer e Suzano no topo entre os afetados.

Numa corrida em busca de conclusões, é possível, por ora, acreditar em um impacto negativo para o Brasil. Há como efeito a desvalorização do real (e consequente impacto à inflação), embora o quadro possa ser atenuado por alguns fatores. Um deles é a possibilidade de redirecionamento de vendas das exportadoras brasileiras para o próprio mercado interno (reduzindo preços aqui) e, o outro, a tendência de queda dos juros americanos (mantendo a atratividade de moedas emergentes), dizem economistas e analistas consultados pela Capital Aberto.


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Por outro lado, caso o governo brasileiro cumpra a promessa de retaliar os EUA de forma recíproca, as importações vão encarecer, e entre os setores afetados está o de energia. Além disso, o fluxo de investimento estrangeiro direto entra na lista de impactos, lembrando que os EUA detêm a maior participação no Brasil, respondendo por 26% do estoque de US$ 1,1 trilhão. É preciso observar, contudo, o pós-anúncio de Trump em ‘capítulos’. O primeiro efeito, já visto, é a volatilidade nos mercados de câmbio e juros futuros, os quais dispararam na quarta à noite, bem como a bolsa sofreu.

Apesar disso, ontem o movimento perdeu força, com desvalorização pequena da moeda brasileira. O dólar fechou com alta de 0,72%, a R$ 5,54, após ter avançado mais de 2% ao longo do dia. Parte da explicação para o recuo, acreditam analistas, é a ausência de sinal de intenção de escalar o conflito por parte do governo brasileiro. Os juros futuros também ficaram distantes de máximas intradiárias (14,3%/janeiro de 2027). O Ibovespa recuou menos do que no dia anterior, quando a baixa chegou a quase 2%, e fechou com baixa de 0,54%, a 136.743 pontos.

Até o fechamento deste texto, na noite de quinta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia mostrado intenção de negociar. "Não tenha dúvida que, primeiro, nós vamos tentar negociar. Mas, se não tiver negociação, a Lei da Reciprocidade será colocada em prática. Se ele vai cobrar 50% de nós, nós vamos cobrar 50% dele", reforçou o presidente brasileiro em uma entrevista à TV Record.

O retrato inicial, caso a medida se concretize, segundo analistas, é de um quadro que une depreciação do real, risco inflacionário e um possível menor crescimento econômico devido à queda de volume exportado. Mas houve uma série de ponderações feitas por especialistas. Os embarques, por exemplo, podem achar espaço em outros mercados. Como a pauta para os EUA é liderada por commodities, metálicas e alimentícias, com preços formados em bolsa, podem ser redirecionadas sem tanta dificuldade – e a China pode absorver uma parte –, opina Welber Barral, sócio da BMJ Consultores e ex-Secretário de Comercio Exterior do governo federal.

Por ora, os juros futuros sobem em resposta à pressão do câmbio, já que se teme efeito inflacionário após a decisão de Trump. “Achei um pouco exagerado”, opina o economista da MCM 4 Intelligence, Antonio Madeira, referindo-se à sessão do dia anterior. “Não sei se tem uma vida muito longa essa elevação que a gente observa das taxas de juros”, continua.

É que, do ponto de vista inflacionário, pode ocorrer uma espécie de ‘elas por elas’ – ou seja um movimento de resultado “ambíguo”, na visão do economista. Mesmo que o real perca valor diante do dólar, um fator que geraria mais inflação – e seria uma pedra a mais no sapato do Banco Central –, por outro lado, empresas podem optar por destinar parte de sua pauta vendida aos EUA num primeiro momento para o mercado interno, enquanto busca redirecionar seus produtos.

“Além disso, a alta do câmbio não foi tão significativa”, opina. “Parte do que vendemos para o mercado americano pode ser absorvida aqui dentro, então você aumenta a oferta doméstica. Podemos fazer analogia com o segmento de frango. O problema de gripe aviária levou alguns países a comprarem menos dessa proteína do Brasil há alguns meses, e isso fez com que os preços domésticos caíssem”, continua Madeira, exemplificando a tese.

Bruno Nascimento, gerente de relacionamento da B&T XP acredita em volatilidade contínua no curto prazo, com efeitos aos ativos ligados à retaliação que for escolhida pelo governo brasileiro. Além disso, especificamente sobre câmbio, o cenário de juros americanos poderá atenuar o peso de impacto da política comercial para a moeda brasileira.   

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“A ata da última reunião do FOMC (o Copom americano), divulgada ontem, reforçou o cenário de manutenção dos juros no curto prazo, mas manteve vivas as expectativas de cortes a partir de setembro”, disse Nascimento. “O início de um ciclo de flexibilização monetária nos EUA tende a favorecer moedas emergentes, incluindo o real, em função do maior diferencial de juros (carry trade)”.

Já para a bolsa, será preciso observar os movimentos das empresas afetadas. Num olhar mais macro, o anúncio contribui para o aumento da percepção de risco Brasil, em um momento de já elevada incerteza fiscal e política, diz Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas. Nesses ambientes há busca por proteção, ou seja, maior demanda por dólares – e pressão sobre o real.

Entre as listadas mais expostas estão a Embraer, com 24% da receita proveniente do mercado americano, seguida de Suzano (16,6%), e a Tupy, que atua em bens de capital (14%), indica um relatório da XP assinado por Fernando Ferreira, estrategista chefe do research da XP, e equipe. Os papeis da Embraer chegaram a despencar 4% na tarde de ontem.

“A gente entende que pode ter uma pressão ainda sobre a bolsa. Desde ontem a gente vê o investidor tentando fugir um pouco do risco, e fica essa dúvida sobre o [que pode acontecer com o] fluxo gringo que a gente viu migrar para mercados emergentes, como Brasil e México nesse ano”, diz Felipe Paletta, estrategista da EQI Research. Além de Embraer e Suzano, ele cita o frigorífico Minerva entre os possivelmente afetados devido ao envio relevante para os EUA.

Segundo a XP, 15% das receitas brutas da Minerva nos últimos 12 meses foram geradas por exportações para os EUA. “No entanto, é importante destacar que Argentina e Uruguai também exportam para os EUA (com preços médios mais altos), o que significa que o impacto líquido real deve ser inferior a 15% — provavelmente entre 8% e 15%”, diz o relatório da XP. “Apesar de acreditarmos que a companhia será capaz de redirecionar volumes para outros mercados, isso provavelmente ocorrerá em detrimento das margens”, continua o documento.  

A mais afetada após a decisão de Trump, citada por analistas, a Embraer, tem cerca de 24% da receita exposta ao mercado norte-americano, principalmente via aviação comercial (aeronaves E1 produzidas no Brasil) e aviação executiva (jatos montados na Flórida). “Estimamos um custo incremental de aproximadamente US$ 80 a 90 milhões por ano para cada 10 p.p. de tarifa, o que representa cerca de 1 p.p. de margem EBIT, com impacto potencial de 5 a 6 p.p. na margem EBIT no cenário mais adverso (tarifas de 50%)”, diz ainda a XP em relatório.

Já um relatório produzido pelo Itaú BBA diz que 60% da receita da Embraer vem da América do Norte – e 45% pode sofrer efeito. A divisão de aviação comercial depende “fortemente” do mercado dos EUA, e não há substituto direto para o modelo E1 em rotas regionais, diz o banco. “Estimamos um impacto relevante no lucro operacional de 2025 (cerca de 25%), caso os custos com tarifas sejam absorvidos pela empresa”, diz o Itaú, que inclui na lista impactos negativos a Mahle Metal Leve.

Retaliação brasileira: importações mais caras

Apesar da pauta exportadora da Embraer, a maior parte dos embarques para os americanos é de commodities. O país responde por 12% da pauta exportadora do Brasil, ou US$ 40 bilhões em 2024. No que diz respeito às importações, os EUA respondem por 15%, ou US$ 41 bilhões, segundo dados do governo federal. Em exportações os destaques são petróleo bruto e refinado, produtos de ferro e aço e equipamentos de transporte.

Já em importações, lideram equipamentos de geração de energia, derivados de petróleo, plásticos, gás natural, equipamentos de transporte e produtos químicos. “A pauta é mais diversificada do que nas exportações, o que pode aumentar o impacto caso o Brasil imponha tarifas de 50% como retaliação”, dizem os analistas da XP em relatório.

Como tudo começou

A medida de Trump foi uma reação à declaração recente do presidente brasileiro após reunião dos Brics no Rio de Janeiro, no final de semana passado. O grupo de países (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) declarou interesse em dar andamento a um projeto que caminha há tempos, e visa formar um bloco para investimentos e comércio utilizando moeda comum que não o dólar. 

Desde então, Lula e Trump trocam farpas via redes sociais e mídia. Donald Trump chegou a defender Jair Bolsonaro e fazer críticas ao sistema de justiça brasileiro, referindo-se ao julgamento sobre tentativa de golpe. O tema levou a repercussão nas redes sociais ao longo da semana.

“Para quem ainda não percebeu, na nota dos EUA, Bolsonaro é só uma desculpa para tentar constranger o Brasil. O que interessa é que Tio Sam será prejudicado com o crescimento dos Brics, a nova Rota da Seda vai modificar o comércio internacional e a criação de uma moeda para substituir o dólar nas transações vai colocar o país do norte em nocaute. "Follow the money", como dizia J. Edgar Hoover, e o motivo verdadeiro será descoberto”, opina Pedro Afonso Gomes, Economista, Perito em Economia e Finanças e ex-presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo