Momento econômico é de incertezas, mas traz oportunidades para captação, dizem RIs

O mercado de crédito privado cresceu exponencialmente nos últimos cinco anos, passando de pouco relevante no dia a dia das companhias a uma importante fonte de financiamento. Em 2024, vale lembrar, houve recorde na renda fixa, com mais de R$ 700 bilhões em emissões, uma alta que supera em pouco mais de 300% o retrato de 2020. Frente ao Produto Interno Bruto (PIB), a cifra representou 6% no ano passado. Ainda que o momento atual econômico seja mais desafiador, há oportunidades para o financiamento das empresas, opinaram executivos participantes de evento promovido pela Anbima nesta quarta (25) em São Paulo.
Uma executiva que faz essa leitura é Mariana Mayumi, diretora de Relações com Investidores (RI) da Auren Energia, durante o Anbima Summit, nesta quarta-feira (25). Segundo ela, obviamente, as condições de mercado para captação mudam, mas ainda há demanda. Durante o mesmo evento, Guilherme Maranhão, diretor do Itaú BBA e também da Anbima, mencionou a evolução do mercado, apontando como pivô a participação de novos entrantes (como as empresas de capital fechado), investidores e instrumentos, fomentando o uso de instrumentos como as notas comerciais.
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“Olhando dados de dezembro de 2024 do Banco Central, que mostra que o mercado de capitais como um todo, incluindo debêntures, notas comerciais, CRI, CRA, direitos creditórios e FIDC, representam 31,6% do crédito ampliado para as empresas. Em 2017, isso era menos de 16%”, pontua Maranhão.
Mariana, da Auren, terceira maior geradora de energia do Brasil, lembra que o mercado não era acessível a todas as empresas, mas que, hoje, é possível acessar diferentes públicos e títulos. “Nesse mundo do mercado de capitais, de debêntures, há públicos diferentes. Você pode fazer uma emissão qualificada, uma emissão profissional. Isso demanda da companhia todo um atendimento aos seus investidores. Temos RI para equity, mas também estamos investindo nosso tempo em fazer o relacionamento com privates e assets”, disse a executiva.
Hoje, além dos emissores usarem mais o mercado de capitais, os próprios investidores também enxergam diferentes riscos e possibilidades de investir. O último ano, por exemplo, foi recorde para o mercado, especialmente em crédito privado.
A Tecnogera, empresa de capital fechado, inclusive, foi uma das empresas que captou por meio de debêntures em 2024 em emissão privada, apenas para profissionais. “Captamos R$ 130 milhões, e veio em um momento em que precisávamos, justamente para liquidar, amortizar, essas outras debêntures que a gente tinha”, disse Gustavo Carrijo, head de RI da companhia. Ele disse que a principal motivação para o movimento foi alongar prazo, conseguir taxas mais atrativas e, principalmente, acessar bolso que a empresa antes não conseguia. Além das debêntures, a companhia também estuda o uso de outros títulos como alternativa de captação.

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Os executivos rememoraram ainda a Resolução 160 e seu papel no fomento ao financiamento das empresas por meio do mercado de capitais, ressaltando que as emissões ficaram mais ágeis, com melhor aproveitamento das janelas de mercado, além de um aumento no número médio das ofertas públicas anuais, passando de 1,6 mil entre 2020 e 2023 para quase 2 mil nos dois primeiros anos da nova norma.
“Era um grande mistério a razão de a dívida privada não decolar no Brasil”, pontuou Marina Copola, diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Um outro ponto importante nisso, agora, é como as companhias estão se acostumando a lidar com o investidor de dívida, disse a executiva, lembrando que lidar com assembleias de debenturistas, por exemplo, é algo novo tanto para as empresas quanto para o regulador.
Na seara dos desafios, a Tecnogera também contribuiu citando as dificuldades que enfrentou para sua primeira emissão no mercado, como conseguir unificar a empresa e transformar e gerar um sistema de informação qualificado que atendesse todos os investidores para o objetivo de captação. “Fazer o processo de download, discussão de escritura, pagar o lastro, alienação e cessão fiduciária, criação de site, os materiais, porque a empresa não tinha as demonstrações financeiras auditadas no primeiro trimestre, então corremos atrás disso”, contou.
Apesar da inovação tecnológica, os processos ainda são extensos e onerosos para os emissores, mesmo para empresas de capital aberto com maior porte. Na visão de Mariana, da Auren, a agilidade das companhias para essas emissões é um diferencial, mas a demanda para a companhia, que tem R$ 18 bilhões em debêntures, ainda existe e segue forte.
“É um momento de incerteza, mas é também onde temos oportunidades”, disse, afirmando que em conversa com investidores, há demanda. “As condições mudam, mas agora pode ter uma janela importante”.
Maranhão, do Itaú BBA, também citou “um momento favorável” e que há apetite pelo próprio nível de taxa de juros, com um mercado crescente e spreads atraentes para emissoras.
Durante o debate, falando sobre a ampliação da base de emissores e investidores no jogo da captação, Marina, da CVM, lembrou das normas recentes da entidade e mencionou o Regime FÁCIL, de fomento à captação de empresas menores pelo mercado. A expectativa do regulador é ter a norma “na rua no curto prazo”. A solução lançada pela CVM em setembro do ano passado visa atrair PMEs ao mercado de capitais, desburocratizando e reduzindo custos no processo de registro.
“Estamos finalizando as discussões”, seguiu a diretora da entidade, pontuando que a solução “é uma discussão difícil, já que corta na carne coisas caras para um regulador”, a exemplo da permissão de dispensa da figura do auditor no caso de emissão de dívida exclusivamente para profissionais.
A Tecnogera menciona o FÁCIL como algo positivo. “Conversando com outros RIs, vemos que nem todo mundo tem estrutura e orçamento para colocar uma operação de pé. E, às vezes, é exatamente o que a empresa precisa naquele momento, mas é muito custoso”, finalizou.


